Pelo terceiro ano consecutivo, a Marcha de Mulheres Negras de São Paulo saiu às ruas nesta quarta-feira, 25 de julho, data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher Negra, Latina e Caribenha.  “Por mais que não conte a história, não te esqueço, meu povo. Se Palmares não vive mais, faremos Palmares de novo”, entoavam milhares de mulheres nas ruas do centro da capital paulista.

O grupo começou a concentração na praça Roosevelt, às 17h, e seguiu em marcha por volta das 19h. A abertura dos caminhos foi responsabilidade das ialorixás. Elas seguiram na linha de frente e derramaram folhas, ervas e um cheiro acalentador de lavanda no asfalto da cidade conhecida como “selva de pedras”. O destino foi o Largo do Paissandu.

Logo atrás das lideranças religiosas, vieram mulheres carregando faixas a favor da descriminalização do aborto, contra o genocídio da população negra e indígena. Dançarinas, cantoras e percussionistas do bloco afro Ilú Obá de Mim também estavam lá. As crianças corriam entre a multidão e bebês balançavam nos colos de suas mães ou pais.

Luka Franca, integrante do Movimento Negro Unificado (MNU) e uma das mobilizadoras da manifestação, afirmou que o resultado da marcha de São Paulo surpreende a cada ano.

“A primeira (em 2016) foi uma surpresa porque não esperávamos que 3 mil mulheres estariam com a gente. No ano passado aumentou e, neste ano, o número de participantes foi ainda maior. Isso só mostra a nossa potência, o crescimento da demanda das mulheres negras por espaço, o fortalecimento da nossa aliança de parentesco com as mulheres indígenas. É um processo de revolução”.

Em continuidade da marcha nacional que aconteceu em 2015, quando mais de 50 mil mulheres tomaram as ruas de Brasília, o objetivo é evidenciar a necessidade de combater as violências que têm como raízes as questões de raça, gênero, classe e religiosa.

A marcha destaca o impacto da violência do Estado na “guerra às drogas”, do feminicídio e da LGBTQIfobia contra os corpos negros. Como uma amarração a todas as demandas, o tema e a reivindicação é pelo Bem Viver.

Mas como podemos definir o Bem viver?

De acordo com o manifesto publicado para a mobilização deste ano na capital paulista, isso significa “acreditar em outras formas de gestão do coletivo e do individual e criar alternativas às relações exploratórias do capitalismo”.

Na opinião de Luka, “o Bem Viver é uma sociedade igualitária entre todos, com um outro desenvolvimento econômico, outra forma de se lidar com a terra e com o território. É uma sociedade que não tem classe”.

Para Beatriz Augusta Benedito, integrante do Núcleo de Consciência Negra da USP, “trata-se de um conceito que constrói o direito à vida, aos espaços e a construção de uma vida melhor para as mulheres negras”.

De forma complementar, Maria Isabel Fernandes, do projeto Negralizando, disse que o Bem Viver também está relacionado com a possibilidade de mulheres negras terem seu direito de ir e vir sem o risco de sofrerem violências. “Significa não estarmos sujeitas a agressões ou a sermos desqualificadas por conta da cor da nossa pele”.

Juliana Gonçalves, jornalista e uma das organizadoras da Marcha das Mulheres Negras de SP, explicou que lutar pelo Bem Viver significa resgatar valores ancestrais e buscar formas de existência que são diferentes e contrárias a lógica capitalista.

“O desenvolvimentismo [política econômica baseada na meta de crescimento da produção industrial e da infraestrutura], que é a base do capitalismo e da noção do progresso, só existe com a exploração, que sempre acontece em corpos não brancos. Essa ideia de que o capitalismo dá certo é mais do que uma falácia, é mais uma mentira que nos contam sem nos apresentarem uma alternativa. E o Bem Viver traz uma alternativa”, explicou Juliana.

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Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e moradora do Jardim Miriam (ZS)

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