A potência feminina em suas diversas possibilidades e corpos é o mote central de blasFêmea, experimento audiovisual da música “Mulher”, ambas criações da artista e performer paulista Linn da Quebrada. As duas novidades fazem parte da divulgação de Pajubá, primeiro disco cheio da carreira da cantora.

“Gravamos na minha quebrada, na Fazenda da Juta, zona leste de São Paulo. E olha, foi uma experiência maravilhosa! Pude conhecer e trabalhar com pessoas muito competentes e disponíveis, todas com muita vontade de fazer as coisas acontecerem”, disse Linn ao Nós, mulheres da periferia.

Aos 26 anos, Linn se apresenta como bicha, trans, preta e periférica –  “Nem ator, nem atriz, atroz. Bailarinx, performer e terrorista de gênero” – e usa a arte para falar sobre gênero e direitos.

Desta vez, trouxe  luz ao fato da importância de uma rede de acolhimento para mulheres. Umas das primeiras imagens gravadas para o clipe reuniu todas as mulheres do elenco e da equipe. Sem homens presentes. “Fizemos um ritual de acolhimento, de cura, proteção, afeto, e também de desejo. Independente de machos. Um espaço de sororidade. Isso justamente porque eu percebo que entre os machos esses espaços são muito bem articulados, eles se admiram, se ajudam, se fortalecem, estimulam, se beneficiam. E precisamos construir esses territórios e redes de cuidado também entre nós”, explica.

Batemos um papo com ela sobre a produção do clipe. Confira e assista!

Nós, mulheres da periferia: Qual a importância de, cada vez mais, termos produções audiovisuais e artísticas feitas por mulheres, mulheres trans?

Linn da Quebrada: ​A importância está em construir nossas próprias narrativas. Na grande maioria das vezes, o que acontece é justamente todas as coisas serem feitas em função do macho. Arte é uma construção que também produz a nossa realidade. Por isso é importante que tenha o nosso olhar, nossos corpos envolvidos. E ainda mais quando se pensa em pessoas trans. Nós falando por nós mesmas, ocupando esses espaços, mostrando as nossas vozes, pensando também em toda a pluralidade do feminino, a pluralidade de mulheres e suas experiências.

Nós, mulheres da periferia: O que tem neste caldeirão de inspirações que você usou para compor e produzir o clipe?

​Linn da Quebrada: Acredito que minhas maiores inspirações estão próximas a mim. São as mulheres, trans, cis e travestis com as quais tive a possibilidade de observar o poder do feminino, onde pude aprender e reinventar o significado de resistência. Empoderamento. Desde mulheres como a minha mãe, mulher preta, uma vida inteira de empregada doméstica; às mulheres que fazem parte da minha família, que cumpriram e de alguma forma quebraram as expectativas do que é ou não ser mulher. Também me inspiram as travestis que fazem parte da minha trajetória e me mostraram toda a potência do feminino, me ensinaram a inventar e produzir o feminino no meu corpo. Além, claro, de várias artistas que pude observar e que são tantas que seria injusto da minha parte citar algumas aqui. Mas justamente por serem tantas, e em mim serem pilares de força, que no clipe quis juntar e expressar o quão catalisador e poderoso é o feminino. Mulheridades. E juntas somos muito mais fortes e perigosas do que normalmente imaginam.

Crédito: Nubia Abe

Crédito: Nubia Abe

NMP: Qual você acha hoje que é a importância do audiovisual, de um bom videoclipe para a carreira de um artista? E também: como o audiovisual pode ser potente e transformador para as causas que lutamos?

​Linn da Quebrada:​Além de trazer visibilidade e fazer com que nosso trabalho tenha mais alcance, chegue a lugares cujo acesso sejam mais difíceis, acho que a produção audiovisual também é fundamental na construção do nosso imaginário. É o que constrói realidades, possibilidades. Não se trata de ficção. Mas, principalmente, de fricção. De inventar novas possibilidades para os nossos corpos, novos territórios, outras relações. Pensar diferentemente do que já pensamos. Sem contar que o audiovisual nos dá uma infinidade de outros caminhos para expressar nossas ideias.

NMP: Pode comentar um pouco sobre o figurino e acessório usados no clipe? E como você compõe ele nas suas apresentações em geral?

​Linn da Quebrada:​Geralmente quem pensa comigo meus figurinos é a equipe do Brechó Replay. Porque juntos conseguimos pensar como a estética potencializa o discurso. E isso de forma muito mais acessível pra nós, contando com o próprio acervo do brechó e peças cedidas por estilistas que trampam em parceria com a gente. Sempre buscando pensar além do obviamente belo, mas qual o impacto, quais lugares estamos indo, como queremos dialogar com o evento envolvido e tendo em vista a trajetória estética que estamos construindo. E isso não foi diferente no caso de blasFêmea, onde o nosso intuito era de nos manter mais próximo do real e do contexto das pessoas envolvidas. Diante disso, o styling foi construído a partir das roupas das próprias pessoas que atuaram e algumas peças do acervo do brechó. ​Para que quem assistisse pudesse se pensar ali, junto, e não se distraísse apenas com as roupas que estavam sendo usadas, mas que a estética fosse parte da narrativa, algo que caminhasse junto.

Crédito: Nubia Abe

Crédito: Nubia Abe

NPM: É linda a última passagem com a mulherada se autocuidando, celebrando. Pode comentar um pouco sobre ela? Qual a importância das redes de apoio para a comunidade LGBT?

​Linn da Quebrada: Essa parte foi o começo de tudo, a primeira gravação de todas. Juntamos todas as mulheres do elenco da equipe e criamos um ambiente só nosso, nenhum homem no ambiente, só nós. E ali fizemos um ritual de acolhimento, de cura, de proteção, afeto e também de desejo. Independente de machos. Um espaço de sororidade. Isso justamente porque eu percebo que entre os machos esses espaços são muito bem articulados, eles se admiram, se ajudam, se fortalecem, estimulam, se beneficiam. E precisamos construir esses territórios e redes de cuidado também entre nós. Pra nos fortalecer e estimular entre nós cuidado emocional, psicológico, afetivo, sexual, econômico, material. Uma rede de proteção real.

NPM: Por que você faz música?

Linn da Quebrada:​Faço música porque são coisas que eu precisava ouvir. Canto o que eu gostaria de escutar. Pra inventar em mim as forças que preciso. Invento minhas próprias profecias. Pra inventar em mim outros desejos, outros modos de sentir. Modos de interferir na minha realidade. É como se eu fizesse um pouco de magia e a aplicasse em mim mesma. Criatura e criadora. Mas depois fui percebendo o poder de criar pontes que a música tem. De diálogo. Comunicação de fato. E assim também um modo de me sentir menos sozinha. De me encontrar com outras solidões. E assim perceber que não estou só. E por isso pra mim é tão importante construir esse álbum, Pajubá. Que é justamente conversa, troca, linguagem, resistência. Pajubá é movimento. Se constrói entre. Entre nós.

Crédito: Nubia Abe

Crédito: Nubia Abe

Sobre a autora:

Mayara Penina

Mayara é jornalista e moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

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