Este conteúdo faz parte do especial #Deixaameninajogar produzido em parceria com o Portal Lunetas e o Think Olga

Jucimara de Lima, futebol pelas lentes de uma mulher

Crédito: Alexandre Urch

“No campinho ou no terrão, o futebol é o esporte mais democrático”, é o que diz Jucimara de Lima, 27, quando tece comentários sobre aquilo que é a sua matéria-prima na hora de fotografar: os dribles ou passes de meninas e meninos que, feito ela, também amam futebol.

Natural de Minador do Negrão, em Alagoas, Jucinara cresceu paulistana, já que chegou à terra da garoa ainda com um ano de idade. Desde então, vive no Jardim Paulistano, no bairro Parada de Taipas, região norte da cidade de São Paulo.

Juh na Várzea, como é conhecida nas partidas anônimas que acontecem pelas quebradas, sempre foi apaixonada pela modalidade. “Sempre fui torcedora, tanto do [ futebol] de várzea quanto do profissional. Louca, apaixonada pelo Corinthians, ia em caravana, ia em estádio, sempre fui aquela torcedora chata que grita, que xinga, que vibra”, conta.

Embora acompanhasse o futebol profissional com vibração, Juh nunca deixou de prestigiar os jogos que aconteciam nos campos de chão vermelho ou chinelo no asfalto em sua própria quebrada.  Quando criaram o time local, o Monte Azul – formado por alguns de seus amigos -Juh se interessou ainda mais em acompanhar as partidas.

“No campinho ou no terrão, o futebol é o esporte mais democrático”

Crédito: Juh na várzea

“Sempre torci, sempre estava nos jogos da várzea, não só deles, mas em todos que rolavam. E é uma paixão, foi quando eu comecei a curtir fotografia, comecei a tirar foto do Monte Azul”.

Na época, a pequena câmera no estilo cybershot era a única coisa que Juh tinha em mãos para registrar os momentos mais marcantes dos jogos. Foi na brincadeira com os amigos que ela entendeu que tinha que traçar seu futuro unindo o futebol à fotografia. “Casei os dois. E a fotografia esportiva é demais, é o que eu quero e busco todos os dias atingir ao máximo porque eu curto demais”.

Mesmo sabendo disso, aos vinte e poucos anos não tinha coragem ainda de seguir os seus sonhos e, por isso, formou-se em um curso técnico de Administração, mas o desejo de eternizar em imagens o futebol que acompanhava gritou mais alto e hoje em dia largou de vez a vida administrativa e o sustento vem completamente do trabalho como fotógrafa, principalmente das imagens feitas durante os jogos na várzea.

Com duas filhas pequenas, uma de nove anos e uma de um ano e um mês, Juh não desiste de fotografar e tenta se ajeitar entre a maternidade, os afazeres de casa e os campeonatos aos fins de semana. Muitas vezes, as crianças ficam com o pai ou demais familiares.

Meninas do futebol

Crédito: Juh na várzea

“Aos fins de semana, quando eu faço cobertura fotográfica de futebol, elas ficam aqui em casa com o pai, ou, quando ele sai junto comigo, que tem locais que é muito longe e, às vezes, ele vai pra me ajudar. A gente vai se virando assim, dessa forma, mas é correria louca, aí chega o vou editar enquanto elas dormem, de madrugada, à noite, a gente vai tentando se virar”.

Resultado dessa correria é a sua conta no Instagram, Juh na Várzea , que é um verdadeiro retrato de como meninas e meninos hoje se divertem pelas periferias paulistanas. Onde muitos fotógrafos ainda não chegam, as lentes da Juh na Várzea fazem arte, fazem um quadro da vida real, onde ela potencializa aquilo que a periferia tem de melhor: o improviso, mesmo sob adversidades.

Lazer na periferia


Na sua infância, as opções de lazer eram poucas e, infelizmente, esse cenário ainda continua nos tempos de hoje. O campo improvisado de chinelos no chão fervilhando do asfalto é, muitas vezes, a única opção das crianças e adolescentes que moram no local.

“As opções de lazer são poucas aqui na comunidade. Então, o futebol predomina, ele se sobressai, porque é o lazer que todo mundo tem, fora a pracinha, que, poucas vezes está adequada e legal para a criançada brincar. Fora isso, é bater bola na rua, nos corredores, no campinho, no terrão. E isso é o que predomina 100% na comunidade”.

A torcida pelas lentes de Juh

Crédito: Juh na várzea

‘Muitas meninas amam futebol’

Para as meninas, no entanto, essa facilidade ainda atravessa muitos percalços. Os times femininos ainda são menores que os masculinos e os campeonatos ou copas, muitas vezes, não são destinados aos dois gêneros.

“Sem dúvida alguma, o acesso ao esporte para as meninas é mais difícil. Não há variedade como existe para os homens, isso é nítido para qualquer um, mesmo que não esteja nesse meio. A gente vê diversas escolinhas para homens, diversas copas, isso e aquilo, e não é assim para a menina. Mas, pouco a pouco, estamos chegando e eu creio que, em um futuro próximo, isso daí vai mudar. Vai se alastrar mais e estará em maior quantidade e as meninas terão mais abrangência no futebol feminino. Tenho certeza disso e espero muito isso”.

Embora acompanhasse o futebol profissional com vibração, Juh nunca deixou de prestigiar os jogos que aconteciam nos campos de chão vermelho ou chinelo no asfalto em sua própria quebrada

Crédito: Juh na várzea

A esperança de Juh não é à toa. Mesmo que ainda em número pequeno, os campeonatos envolvendo meninas estão crescendo nas periferias. Exemplo disso é a Copa Feminina e a Copa da Paz Feminina. “Eu creio que todo bairro deveria, sim, ter isso. Porque existem muitas meninas que amam o futebol. Que gostam de jogar, que gostam de torcer”, reforça.

Para ela, é importante que as meninas que queiram estar no futebol, em campo ou fora dele, devem ser perseverantes e persistentes. “Acredite, você pode, sim, nada, nem ninguém pode te parar. O que sobressai é a sua vontade. Lute, vá atrás, vão querer te parar, vão muito, vão querer te desanimar, que você não vai dar certo, mas quando você é uma coisa e põe na sua cabeça que é aquilo que você quer para a sua vida, nada, nem ninguém te para e você, cedo ou tarde, atinge o ponto que você quer”.

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