A autora da frase é mesmo persistente e convicta. É possível dizer isso porque é sabido que os caminhos percorridos pelos artistas plásticos em uma cidade como São Paulo para viver de arte podem ser bem tortuosos. Para uma mulher, mãe e moradora da periferia, pode ser duplamente complexo. “É preciso persistência, convicção, quase teimosia”, diz a artista plástica Juliana Costa, a Ju.

Em entrevista ao Nós, mulheres da Periferia ela conta que tinha certeza que seria artista desde a infância. “Sou desenhista e me vi assim desde que me entendo por gente. Ainda na adolescência, comecei a participar de cursos livres na área, como desenho artístico, gravura e estêncil e ingressei na faculdade de artes só na fase adulta”, explica.

“Ser artista nessa região exige muita convicção, persistência, quase teimosia”.

Crédito: divulgação

No Brasil, durante muito tempo, a maioria das mulheres esteve presente na arte apenas como inspiradora e musa, retratada à margem do processo criativo. Neste sentido, a arte tem um papel significativo, porque mostra movimentos históricos e mudanças sociais, das quais Juliana faz parte. “Tem dias que tiramos força de onde não existe. É resistência, mas poder acessar as pessoas com a arte é, no mínimo, gratificante, porque todos começam a perceber que arte é sim para todos”, compartilha.

Ju tem 35 anos, um filho de cinco e muitas obras produzidas em telas e espalhadas pelos muros da cidade de São Paulo. Nascida e crescida na zona leste leste, em Itaquera, entre indas e vindas, é neste bairro que decidiu se firmar e viver com o filho Miguel.

“Ativista ambiental e feminista” é como ela se define para contar sobre seu trabalho. São estes temas que trazem inspiração para sua produção, que vai além das pinturas. Ju é professora de várias técnicas artísticas.

É um projeto artístico que dialoga com as culturas ancestrais e suas vertentes contemporâneas.

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Dentre as suas muitas facetas, uma das vertentes de sua produção são os retratos de mulheres com raízes africanas e indígenas. E é por aplicar cores inesperadas em seus rostos que as imagens ultrapassam a fronteira do realismo convencional, as inserindo em um contexto mais amplo. Nos rostos vê-se tons de verdes, cinzas.

Alargando o horizonte banal que divide os grupos humanos segundo suas cores, ao mostrar que um único ser, através da luz que o ilumina contém em sua constituição toda a aquarela possível”, diz a sinopse de sua obra.

 

 

 

 

 

 

 

 

“É um projeto artístico que dialoga com as culturas ancestrais e suas vertentes contemporâneas. Nessas representações está a vivacidade desses  grupos, representando sua riqueza cultural, artística e de resistência. Exaltando a diversidade, o singular que existe nessas expressões e, assim, apresentar a riqueza dessas composições em cores e feições. Nesse sentido, representar essas pessoas é representar as riquezas culturais nacionais, de um país multirracial e de raízes fortes”, finaliza.

Representar essas pessoas é representar as riquezas culturais nacionais de um país multirracial.

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LabCasa Cultural

Entendendo que as periferias precisam apresentar formas de resistência alternativas coletivas, e para desafiar a lógica competitiva e individualista das grandes cidades, a artista fundou o LabCasa Cultural. A casa é, ao mesmo tempo residência e espaço de arte e educação. A construção do Lab foi possível porque Ju alugou  o imóvel por um valor abaixo do mercado pelas condições de conservação. “Eu precisava de um espaço para meus trabalhos de arte e oficina, então restaurei a casa com reutilização de materiais , como forro de caixa de leite e bocais de luz de latas de tintas e vasos. Tudo com as minhas com as próprias mãos”.

Ju gosta de deixar claro que “antes de mais nada, o Lab é um espaço feminista”. A casa recebe e está aberta a outras articulações culturais e atividades voltadas à formação e empoderamento feminino.O Lab possui um ateliê, galpão/oficina, área verde de plantio e quarto para lazer –infantil , para receber os filhos das mulheres. Como também tem formação em desenho industrial, a artista ministra aulas de matemática para mulheres à noite.

Tem dias que tiramos força de onde não existe. É resistência.

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Festivais de graffiti

Como resultado do seu trabalho com muralismo, a artista acaba de ser selecionada para o Graffiti evento internacional que acontece em Rio Branco, no Acre, e também para o Origraffes, em Vitória, no Espírito Santo. “Ser selecionada para um evento assim é uma honra, ainda mais considerando a linguagem artística que desenvolvo”. Mas, para ela conseguir participar, precisa arcar com passagens e outros custos. Para isso, está com uma rifa colaborativa de suas obras. Veja aqui como contribuir.

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Sobre a autora:

Mayara Penina

Mayara é jornalista e moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

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