Aqui do lado sul de São Paulo, no bairro Jardim Miriam, todo último domingo do mês acontece uma roda de samba no meio da rua. O Pagode Na Disciplina, que é organizado em família, se tornou uma opção de lazer e convivência para os moradores da região (contamos a história do samba nesta matéria).

Todos os meses, centenas de pessoas se reúnem para ouvir música e outras manifestações artísticas da programação. A iniciativa acontece no distrito de Cidade Ademar, território que não tem nenhum equipamentos públicos de cultura.

Nesse contexto, o samba cumpre um papel que deveria ser do município, do estado. Fechar a rua com e transformá-la em um espaço de lazer, com espaço para crianças e tudo, é o mesmo de fazer política pública.

Raquel Vieira, filha de uma das idealizadoras, fez questão de evidenciar a diferença que ela percebe entre o seu bairro e os bairros mais centrais ou elitizados. Isso foi o disparador para uma conversa sobre como as decisões políticas ou a ausência de políticas públicas afetam moradores dessas regiões.

“Se você passar um final de semana na comunidade e passar um final de semana no Jardins (bairro nobre da zona sul de São Paulo), por exemplo, você vai ver que é muito diferente. Eles têm mais chances, têm mais locais para se divertirem, mais parques. E aqui não, é tudo escasso. Pouco lazer, pouca educação, principalmente para as crianças”, reforçou. Em sua opinião, o fato da iniciativa não receber apoio público torna as coisas mais difíceis.

Outra diferença que ela destaca tem relação com a segurança pública. A jovem sente medo de voltar sozinha da faculdade, por volta das 23h da noite. Se preocupa com assaltos ou algum tipo de violência e acha que em bairros não periféricos a sensação de segurança é maior. Além disso, diz que já sentiu diferença em como o policial a trata dependendo da região.

“Meu namorado é motoqueiro. Ele costuma me buscar e me trazer de moto e já fomos abordados aqui (no Jardim Miriam). Mas o tratamento é totalmente diferente quando a gente foi abordado, por exemplo, no bairro da saúde, perto do meu trabalho”.

Pra ela, a forma como os policiais abordam os cidadãos na periferia chega a ser uma opressão. Quando perguntada sobre a possibilidade do Brasil ter a liberação do porte de arma, como propõe o candidato a Presidência da República, Jair Bolsonaro, Raquel disse de pronto que não apoia.

“O brasileiro não tem condições psicológicas de ter uma arma. Se a gente tivesse bons exemplos de quem já tem o porte de armas, como a policia militar, poderíamos até avaliar, mas não temos. E eu acho esse candidato racista e homofóbico, não gosto”.

Sua irmã, Rebeca Vieira, não vai votar esse ano, mas também não aprova o candidato. Além disso, acha que alguns brasileiros não pensam no impacto negativo que uma escolha pode ter para outras pessoas.

“Vejo pessoas da periferia que são pobres e negras querendo votar no Bolsonaro e eu penso: ‘o que você tem na cabeça?’. Pra mim ele não representa a periferia por achar que mulher pode receber menos que homem, por achar que pobres e negros não precisam de cotas ou de ações afirmativas. Ele acha que só brancos da classe média têm direitos.”

Dona Marli, mãe do músico Fabrício Costa, já passou por muitas eleições. Mas para ela essa é uma incógnita. Diz estar cansada dos casos de corrupção. “Se a gente não tomar cuidado, perdemos a vontade de sonhar”, afirmou durante a entrevista.

Embora não tenha confiança em nenhum candidato, seja no âmbito estadual ou federal, decidiu que não vai anular o voto. Passou muitos dias escolhendo bem seus candidatos. “Dessa vez eu vou pelas ideias, não pelos partidos”.

E mesmo nesse clima de descrença, ela fez coro com as mais novas: Jair Bolsonaro está fora da sua lista de opções. “É um momento peculiar. Eles não colocaram na televisão, mas ele disse que uma deputada era ‘tão feia que não deveria ser estuprada’. Pode até ter sido um comentário infeliz da parte dele, mas tem consequências”.

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Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e moradora do Jardim Miriam (ZS)

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