Este conteúdo faz parte do especial: “Na periferia da saúde: precarização do SUS afeta mais as mulheres pobres e negras”.

Já passava das 19h de uma quinta-feira quando chegamos à casa da agente comunitária de saúde Lenilda Leite, 56, em Perus, região noroeste de São Paulo. Cadernos e fotos estavam sobre a mesa da cozinha, remontando a um tempo em que a saúde ainda não era sequer um direito no bairro. 

“Eu sou muito feliz por participar da nossa rede SUS (Sistema Único de Saúde). Foi com a rede SUS que eu criei minha liberdade. Porque, até aí, eu não tinha e agora eu tenho”. Foi a primeira frase dita pela pernambucana que cresceu em São Paulo, antes mesmo de qualquer pergunta.

Militante há mais de vinte anos na região, a reivindicação por mais saúde integrou Lenilda ao bairro e a ajudou em seu próprio processo de autonomia enquanto mulher, já que antes o marido entendia que ‘lugar de mulher era dentro de casa’. 

“Agora, eu falo ‘tô saindo e tô fazendo meu serviço’”, conta dando risada e já se preparando para sair outra vez. Seu cotidiano é permeado de conversas e encontros. Quando se é agente comunitária, o trabalho nem sempre termina no horário comercial. Basta colocar os pés para fora de casa que as perguntas começam a pipocar. 

“Ô, Lenilda, sabe quando posso marcar aquela consulta?”. Ela, junto a outras companheiras de trabalho, são o elo que liga a comunidade à Unidade Básica de Saúde (UBS) Recanto dos Humildes.  Esse tipo de relação só existe graças à Estratégia Saúde da Família, implementada como programa pelo Ministério da Saúde em 1994, em bairros com alto índice de vulnerabilidade social e, mais tarde, em 2003, transformado em Estratégia, ou seja, uma política de Estado.

O que é a Estratégia Saúde da Família?

A Estratégia Saúde da Família (ESF) funciona como uma porta de entrada para o SUS e tem como objetivos promover a qualidade de vida da população brasileira e intervir nos fatores que colocam a vida em risco. Ela foi criada em um contexto de descentralização da oferta de serviços de saúde pelo Estado e representou uma estratégia para reestruturar a atenção primária e os sistema de saúde dos municípios.

Para efetivar essas ações, é necessário o trabalho de equipes multiprofissionais em unidades básicas de saúde, formadas por: médico, enfermeiro, auxiliares de enfermagem, agentes comunitários de saúde, cirurgião-dentista, auxiliar de consultório dentário ou técnico de higiene dental.

Mais que agente, amiga do povo

Lenilda entende que, para além de remédios e consultas, a população também sente falta de atenção.  Os atendimentos de curta duração não permitem que os médicos conheçam os contextos nos quais vivem os pacientes e a agente de saúde, como moradora do bairro, consegue cumprir um papel duplo, de realizar seu trabalho e estabelecer fortes laços com a população local.

“Tem uma senhora de 81 anos que virou e disse ‘Lenilda, eu não estou precisando de remédio, eu estou precisando conversar com você’, relata emocionada a agente.

“Pra mim, isso é um exemplo de batalha, de luta. Eu me sinto uma pombinha voadora quando faço isso, porque eu penso: olha a confiança que ela tem, com tanto problema. E eu converso com ela, ela fica bem”.

Mas ganhar a confiança da população nem sempre é simples. Lenilda conta que é importante mostrar para os pacientes que tudo que contam para ela não será divulgado em outros locais, e mostrar os caminhos da maneira mais fácil possível, para, assim, a pessoa chegar até a UBS.

“Quando estão com problemas, eles vêm e falam comigo. Tanto homem, quanto mulher. Homens vêm falar em relação à próstata, as mulheres ao papanicolau. Eu falo que tudo no começo tem solução, mas se ficou velho [o sintoma], fica difícil de encontrar cura”, aconselha Lenilda para a população com quem conversa.

“Nem sempre me cuidei. Agora sim, que estou na no meio da saúde, mas antigamente não. Era raro fazer isso. O SUS foi difícil, não foi fácil, eu demorei a começar a entender o que era SUS. O posto de saúde em Osasco era difícil para fazer fazer o papa [na década de 1980]. E nisso eu tomando anticoncepcional, cada dia me dava uma dor. Desde que comecei a trabalhar na saúde eu vejo a diferença do que era para hoje. As mulheres têm menos vergonha”, acredita a agente comunitária, que chega a visitar centenas de famílias por mês, e explica que o que dificulta o cuidado com o corpo é a falta de tempo.

“Muitos falam ‘Nilda, eu tenho que fazer exame, mas eu tenho o meu serviço’. Aí eu falo ‘põe na agenda e pega um atestado, uma declaração, você leva no serviço, avisa na firma que você vai chegar um pouco mais tarde’, conta.

Os primórdios

Com um caderno cheio de folhas antigas e amareladas, Lenilda mostra como eram os primeiros levantamentos das necessidades de saúde no bairro. Cada tracinho escrito de caneta simbolizava o número de pessoas por família em cada uma das casas da região.

Ela foi a pessoa responsável por mapear tudo isso, o que, em seguida, se tornou material importante para a implantação da Estratégia Saúde da Família (ESF) que viria para o bairro.

O SUS chegou ao Recanto dos Humildes apenas em 1999, onze anos depois de sua criação, por meio da Constituição Federal de 1988. Antes disso, era a partir da Pastoral da Criança da Igreja Católica que o atendimento de crianças do território era realizado.

Como várias outras mulheres no período, a militância de Lenilda teve início também no seio da Igreja Católica, junto à pastoral.

“Foi a Irmã Isabel que trouxe. As crianças eram pesadas debaixo de uma árvore, com o Padre Genésio, nós começamos a construção da comunidade [Comunidade Eclesial de Base – CEB] aqui. Em 1999, se você tivesse duas crianças e quisesse marcar para os dois, você não conseguia, só pra um, porque era muita gente”, relembra.

Na região, ocupada por famílias “sem-teto”, não havia saneamento adequado, as crianças estudavam em uma escola de lata, e os serviços de saúde ainda eram um sonho longínquo da população.

O acúmulo de lixo era uma constante na comunidade, o que gerava diversas doenças e problemas para os moradores. Em um momento em que o saneamento básico e outros serviços ainda eram escassos no bairro, era comum ouvir histórias como a do menino que apareceu com o dedo e orelha ruídos por um rato.

“Não tínhamos muitos moradores. Vai fazer 17 anos que o posto [de sáude] nasceu por causa do lixo, e a gente continua ainda essa briga”, lamenta.

No início as ações do posto aconteciam dentro da Associação do Bairro, criada por um morador, Seu Agenor. A ideia inicial era a construção de cinco equipes, onde as agentes comunitárias atendessem 150 famílias.

Diante da necessidade de maior fluxo de atendimento, uma nova UBS começou a ser pensada para o bairro, dessa vez no Recanto dos Humildes. Porém, com o crescimento da demanda por atendimento, foi preciso transferir a UBS para um novo espaço, onde fosse possível atender o contingente de pessoas que chegavam. Hoje, o número de pessoas que passam na UBS Recanto já ultrapassou os 35 mil usuários.

‘Uma andorinha só não faz verão’

Ainda há muitos desafios, mas Lenilda segue persistindo na garantia de saúde para a sua comunidade.

“Eu peguei gosto, vai fazer 17 anos que estou lá. Tudo que for preciso fazer para melhorar minha comunidade eu estou lá lutando.

E peço a Deus que sempre aumente essa força. Seria melhor sim se todo mundo tivesse o mesmo objetivo. Precisamos de mais gente no conselho, para lutar, para ter coisa melhor. Uma andorinha só não faz verão.  Melhorou bastante, mas precisamos melhorar mais e principalmente essa parte de lixo”, é o chamado de Lenilda para a comunidade.

 

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