Para quem não conhece o Candomblé, religião afro-brasileira que nasceu a partir de religiões tradicionais da África, aqui vai um de seus fundamentos: a comida é sagrada. Comer significa dividir, socializar, unir-se aos seu iguais.

Esse é um dos motivos que levam Luciana Bispo, a Luciana de Oya, Ialorixá e assistente social, a entregar cestas básicas para 80 famílias do seu bairro nos próximos três meses. “Eu tenho visto situações graves de fome e miséria”, conta. “Não dou cesta básica porque sou boazinha, quero garantir o direito à comida, o direito ao alimento. Ele é constitucional”.

Moradora do Jardim Mata Virgem, uma das áreas do bairro Eldorado, extremo sul de São Paulo e divisa com o município de Diadema, a crise causada pela Covid-19 tem empurrado vizinhos e vizinhas à escassez. A falta de dinheiro para comprar alimentos tem se alastrado rapidamente.  

Como resposta, o Polo Cultural Lar Maria e Sininha, coordenado por ela, preparou uma ação emergencial. O foco é atender aos moradores e moradoras da ocupação Morro dos Macacos, onde a população encara vulnerabilidade ainda maior.

O Morro dos Macacos reúne pelo menos 600 famílias, mas os números não representam a realidade.

Crédito: Gustavo Moraes

No total, 80 famílias foram cadastradas, já que há um limite no número de arrecadações e na capacidade de atendimento. Com todos os cuidados possíveis, a primeira entrega será nesta semana. A distribuição acontecerá nos próximos três meses e beneficiará as mesmas pessoas.

Para chegar à lista atual, foi preciso fazer um trabalho de campo. As mães das crianças que frequentam o Lar Maria e Sininha são as multiplicadoras da ação. “Atendemos cerca de 30 famílias há mais de um ano. A gente entende que elas são parceiras e fazem parte do processo. São elas que trazem a demanda e que vão dizer quais são as necessidades”.

Todo o processo tem sido coletivo, envolvendo pessoas da comunidade e um grupo dedicado do Lar Maria e Sininha.

O plano emergencial tem dois pilares. Em primeiro lugar está a alimentação, com a distribuição das cestas básicas. O segundo é instruir as pessoas sobre os serviços disponibilizados pelo poder público”, explica Luciana. 

Luciana de Oya durante ação do dia das crianças no Lar Maria e Sininha

Crédito: Gustavo Moraes

Recentemente, o Planalto sancionou a Lei 13.987, de 2020, que garante a distribuição dos alimentos da merenda escolar às famílias dos estudantes que tiveram as aulas na rede pública suspensas. Outro ponto é o auxílio emergencial, que começou a receber cadastros na última semana. 

“No dia da entrega vamos falar dessas coisas, é nosso dever compartilhar informações para a garantia de direitos. Assim que houve a liberação para o auxílio, por exemplo, percebi um não acesso. As pessoas mandaram prints das telas, mostrando quando o aplicativo não funcionava”, diz, enfatizando que muita gente não tem conseguido atingir esse recurso. 

A CUFA (Central Única das Favelas) é uma das parceiras na ação, mas o Lar ainda está recebendo doações. A princípio, não há possibilidade de aumentar o número de atendimento. 

Já não era fácil, mas piorou 

“Temos necessidades urgentes aqui. O bairro Jardim Mata Virgem já é excluído dos benefícios que outras regiões tem, mas o Morro dos Macaco está em condição pior”, endossa. Segundo a Ialorixá, a ocupação sofre todas as discriminações e não recebe nenhum suporte. A prefeitura alega que as pessoas já sabiam que não deveriam estar ali.

Em 2010, após um deslizamento de terra, houve um processo de reintegração de posse. As famílias foram removidas e incluídas em programas habitacionais. Como o terreno, que é da prefeitura de São Paulo, ficou ocioso, o espaço voltou a ser ocupado em 2014. No entanto, as ameaças de despejo continuam constantes.  

Visão do Morro dos Macacos, ocupação no bairro Eldorado.

Crédito: Gustavo Moraes

“Quem está lá não está protegido pelo serviço público, nem de segurança, nem de habitação, nem de saúde”, diz Luciana. Diante da crise imposta pelo Covid-19, soma-se a queda nos rendimentos, que já eram mínimos. Homens e mulheres que são chefes de família não têm condições de garantir a comida na mesa. 

“Tem gente que vende flor e bala na rua, que é cadeirante e pede no farol. As faxineiras foram demitidas sem remuneração, em muitos casos as pessoas que as empregavam também estão com dificuldades. Então, há um impacto financeiro muito grande. Antes se ganhava pouco, agora não ganham nada”.

Ela ressalta: a fome não é algo novo, mas a situação tem sido agravada pelo contexto atual. “A situação dos pedintes, por exemplo, a forma de sobreviver é pedir. Não é alguém que perdeu o emprego”, exemplifica. Um agravante  é o fechamento dos bares e outros comércios, que costumavam ser um ponto de parada para quem vive essa condição.  

Outro desafio é o número de pessoas dentro da casa. Com casas de 20 metros quadrados e muita gente, nem sempre é sustentável “não sair”. “A quarentena na periferia não funciona e não é por falta de querer. Talvez a necessidade de isolamento intensifique quando alguém da comunidade for infectado. Mas esperar é perigoso”.

Lembrando dos vários casos que mexeram com ela, a Ialorixá se emocionou ao dizer que é desolador ver o desespero das pessoas. “Veio uma senhora aqui ontem, uma senhora negra. Ela me disse: ‘eu to com os meus netos passando fome’. É muito dolorido”. 

A solidariedade é ancestral 

Há 30 anos na ativa, a associação foi fundada pela dona Aparecida Bispo, mãe da Luciana. O espaço, que era chamado de sítio por seus familiares e, hoje, reúne as moradas dos Bispo, o terreiro Ilê Oba Asè Ogodo, onde os ritos religiosos acontecem, e o centro cultural para as crianças. 

“Primeiro é importante lembrar quem você é. Eu sou filha da Aparecida Bispo, uma mulher forte, persistente, pouco ambiciosa e extremamente solidária. E minha mãe sempre dizia pra gente: ‘olha quem você é’. O legado da solidariedade está posto na minha família”, endossa. 

Espaço externo do Lar Maria e Sininha, com o Morro dos Macacos ao fundo.

Crédito: Gustavo Moraes

Antes de se transformar em um espaço de cultura, em 2010, o Lar foi um abrigo para crianças. Tudo começou de um ímpeto da dona Aparecida que, décadas atrás, passou a cuidar dos filhos de outras mulheres para que pudessem trabalhar. Mãe, cabeleireira, às vezes atuando como faxineira também, quando ela percebeu, tinha 120 crianças aos seus cuidados. 

“Minha mãe sempre dividiu. Então, o que me fortalece é saber que ela fez isso e muito melhor. Ela ensinou a mim e meus irmãos que a solidariedade é o que a gente tem de melhor. Você precisa de solidariedade para ter um país melhor.

Aparecida Bispo, mãe de Luciana Bispo, fundadora do Lar e do terreiro Ilê Oba Asè Ogodo

Crédito: Gustavo Moraes

Além disso,  a matriarca Aparecida também era mãe de santo, posto assumido por Luciana após a sua morte. “Minha mãe foi uma apaixonada pela divindade, ela confiou e entregou o seu melhor para a divindade. Então, essas duas coisas, que é a solidariedade e a fé em Orixá, é o que tem me alimentado. Me alimentou ontem, alimenta hoje e alimentará amanhã”, disse Luciana. 

E isso é o Candomblé. “Receber as pessoas sem discriminar, matar a fome e dividir. A relação com a comida é muito forte, é uma relação que estabelece os afetos. O candomblé que nasce lá atrás, era o momento de fortalecimento dos nosso ancestrais, o momento de sorrir, da reza”, ensina.

Alorixá Luciana de Oya no terreiro Ilê Oba Asè Ogodo e a imagem de sua mãe ao fundo .

Crédito: Róger Cipó

A princípio, sua meta era conseguir 50 cestas básicas. Mas pelo número de pessoas que apareceram, ela decidiu aumentar. “Eu pensei: ‘Oya, a senhora vai ter que me ajudar’. Só a minha mobilização não é suficiente se não estiver carregada por uma outra energia, por esse Orixá que tem na sua composição a guerra, a luta. Oya venceu grandes reinos, sempre em nome das pessoas desprivilegiadas”.

A religião é o que a fortalece. É o que faz com que ela acredite em dias melhores. “É a história de vida da minha mãe, Dona Aparecida, que é o meu ancestral . É a história de vida de um povo que chega em um país para ser escravizado, que constrói um país e que muda essa condição por luta própria”. 

Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e moradora do Jardim Miriam (ZS)

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Comentários

  1. Sou Grato por Conhecer esse trabalho, e poder ajudá-lo de alguma forma, assim como fui ajudado durante anos da minha vida. 👏🏼👏🏼👏🏼🙏🏼🙏🏼🙏🏼

  2. Nossa. Belo trabalho Semayat.
    Acredito que cada um vem com uma missão aqui na terra e mãe Luciana foi escolhida por orisá, não desmerecendo outras pessoas, mas sim porque orisá sabe da sua capacidade de luta e persistência.
    Assim como você Semayat, foi escolhida para ser sua filha, para ajuda lá nessa caminhada, para somar os esforços. Parabéns!

    1. Primeiramente eu tenho uma imensa gratidão pela dona Aparecida Bispo porque cresci,aprendi muitas coisas com ela, meu amor por ela é Eterno.
      Agora agradeço áela por ter deixado uma filha maravilhosa e uma grande mulher guerreira pra continuar seu trabalho que é a Luciana e tbm agradeço de ter ela como minha yalorixa amo d+ tudo isto.
      Parabéns Semayat pelo seu trabalho que é maravilhoso