No Jardim Oratório, bairro do município de Mauá, na Grande São Paulo, as moradoras e moradores chegam a passar de três a quatro dias sem água, com pandemia ou sem pandemia. A falta de regularidade no acesso à água é uma dificuldade que o território enfrenta há décadas.

Maria Aparecida, 36, gestora de serviços gerais, é moradora do bairro desde o início de sua formação, quando não tinha asfalto, nem saneamento básico. Quando era criança e sua mãe ainda estava viva, o que salvava era a bica. ‘Lembro que ela ia com o meu irmão mais velho lavar as roupas e voltava com um balde com água pra fazer a janta”, conta.

Nas suas contas, o saneamento básico chegou no Jardim Oratório há uns 15 anos. “Antigamente, não tinha esgoto, era fossa. Até hoje ainda tem a fossa aqui atrás da minha casa, mas agora está coberta”.

Segundo o Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB, BRASIL, 2019), documento norteador das ações para a área, 43% da população brasileira não possui atendimento adequado a abastecimento de água. Isso corresponde a 86 milhões de pessoas.

Como a gente se previne de uma doença dessa se não tem nem água pra beber? Quem dirá pra lavar a mão?!”

Quando o assunto é saneamento básico, o número é maior: 52%, ou seja, 107 milhões de pessoas não têm acesso a serviços adequados de esgotamento sanitário. Esses número e outras análises estão no relatório Saneamento 2020, publicado pelo Instituto Água e Saneamento (IAS).

Nesses milhões e milhões de brasileiros e brasileiras, temos a Maria. Ela, suas duas filhas, o marido, o irmão que mora no mesmo quintal. “Desde que eu me entendo por gente falta água aqui onde eu moro, mais de 30 anos”, disse. E esses episódios não são raros.

No dia 6 de maio, Maria publicou em uma rede social a chegada de um caminhão pipa. Na gravação é possível ouvir sua voz dizendo “olha a nossa situação. A gente paga e fica quatro dias sem água. Como a gente se previne de uma doença dessa se não tem nem água pra beber? Quem dirá pra lavar a mão?!”.

O que ajuda a reduzir os danos, para ela, é o fato de ter uma caixa d’água, coisa que nem todas as suas vizinhas têm. Mesmo assim, às vezes não dá conta. “Com a caixa d’água, dura três dias. Então eu só faço o necessário que é tomar banho, almoço e janta. Lavar roupa não tem como, então vai acumulando”.

Problema antigo 

No dia seguinte à publicação do vídeo, a água voltou. Procurada neste período, a prefeitura de Mauá informou que “foi identificada uma ocupação irregular, onde as escavações para as construções atingiram uma rede de água. Os reparos foram feitos em uma obra emergencial. Foi realizado boletim de ocorrência para responsabilização dos envolvidos”.

Quando perguntados sobre a recorrência e se isso voltaria a acontecer, a resposta da assessoria de imprensa foi: “Esperamos que não, contudo, Mauá tem um problema de falta de água de mais de 30 anos. Estamos trabalhando para solucionar esse impasse, que foi ignorado por gestões anteriores. Em breve, assinaremos o acordo com a Sabesp para que o abastecimento de água volte ao normal”.

Hoje, a gestão da água e saneamento básico em Mauá é feito pela SAMA  (Saneamento Básico do Município de Mauá). Mas no final de 2019 houve uma votação que aprovou a concessão dos serviços de água à Sabesp. As recorrentes faltas de água teriam relação com uma dívida da autarquia municipal com a estatal, na ordem de R$ 2 bilhões.

Notícia divulgada pelo Diário do Grande ABC em dezembro de 2019 afirma que a expectativa é que a chegada da Sabesp também inclua a execução de quatro obras para  reduzir – ou até zerar – as falhas no serviço nos bairros Jardins Silvia Maria, Sônia Maria, Zaíra, Oratório, Santa Cecília e Parque das Américas. As regiões são distantes dos reservatórios e falta pressão para chegada de água nas tubulações.

Nesta matéria há uma declaração do prefeito da cidade, Atila Jacomussi (PSB), em que ele afirma que “será um novo tempo no serviço de água da cidade”. Mas junho está quase aí e nada aconteceu.

No dia 18 de maio Maria estava sem água de novo, “pra variar”, como ela mesma disse. E o que mais incomoda é que as moradoras e os moradores não são avisados. “A gente convive com a insegurança”, conta.

A pia de louça da Maria se multiplica nos dias em que não tem água

Crédito: Arquivo pessoal

O Nós, mulheres da periferia procurou pela assessoria de imprensa da prefeitura mais uma vez e perguntou: o contrato com a Sabesp já foi assinado? A resposta: ‘informamos que a previsão para a assinatura é para os próximos dias’.

Enquanto isso, Maria continua convivendo com a instabilidade, que a obriga a fazer escolhas simples como lavar a louça ou lavar as mãos. E o estado de São Paulo segue sendo o epicentro da crise de saúde causada pelo Coronavírus.

Mauá não é a única

A Coalizão Pelo Clima São Paulo, articulação composta por diversos coletivos que debatem e promovem ações de informação e combate às mudanças climáticas, criou um formulário para mapear as áreas da grande São Paulo que são afetadas pela falta de água.

Centenas de pessoas já responderam, o que facilita identificar as regiões mais afetadas. Para acessar o formulário, clique aqui.

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Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e moradora do Jardim Miriam (ZS)

Comentários

  1. Adorei a matéria muito bom que existem pessoas que se preocupa com os problemas diários da comunidade não só a minha mas de tds nós da periferia.Obrigado

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