Eu voltei no dia seguinte a uma rua de Montevidéu, Uruguai, onde ouvi tambores e vi mulheres dançando Candombe, música típica da população negra deste país, no dia anterior. Era janeiro deste ano, 2016. O bairro se chama Sur, um dos mais tradicionais e com concentração significativa da população Afro-Uruguaia. Eu voltei pelos olhos de uma mulher que quis entrevistar. Foram os olhos mais fortes que eu já vi. Potentes, destes que demonstram fortalezas severas. Eu a reencontrei e pedi uma entrevista, ela concedeu.

Entrei em seu lar pedindo licença e foi uma das entrevistas mais intensa que já tive a oportunidade de fazer até então. Ela estava feliz. A papelada de sua casa tinha saído dias atrás e agora era mesmo dela. Seus filhos já estavam grandes e indo para a escola. Contou que já havia vivido em situação de rua, trabalhado como “prostituta” e que não tinha vergonha nenhuma em me dizer que viveu ambas as situações. Que nenhuma delas tirou sua dignidade. Altiva e sem motivo algum para não estar, foi também com a cabeça erguida que ela me disse: “Só tem uma coisa de que eu não me esqueço e que eu não consigo perdoar…”

Seus olhos marejaram. Os meus também. Eu tinha ideia do que ela poderia me dizer quando voltasse ao rumo do seu pensamento e por fim deixasse seus lábios formularem uma frase. Mas antes mesmo de ouvi-la, meu corpo tencionou inteiro por ver pela janela dos seus olhos – os mais fortes que já vi – que ela estava prestes a me dizer algo que a machucava muito. Era como se tivessem agulhas em sua língua, em seu pensamento. O silêncio reinou por alguns minutos. E eu dizia a mim mesma, mentalmente: “Não chore!”.

Então, ela me disse: “Eu não consigo esquecer do dia em que fui estuprada, eu era menina. Bem jovem. Era um homem branco. Todos os dias, antes de dormir, eu me lembro. Todos os dias, antes de dormir, eu penso. E eu já tentei esquecer, já vivi muito, já perdoei e superei muitas dores, mas essa eu não consigo. É como se houvesse um buraco, uma ferida aberta dentro de mim. E ela não sara. Eu não consigo esquecer, a imagem sempre volta a minha cabeça.”

Ela chorou.
Eu também, contrariando minha vontade de parecer “forte” para escutá-la.

Este desabafo veio depois que ela já havia me contado sua história inteira. Ela me disse porque não aguentava mais guardar. Falou que nunca tinha contado a ninguém, mas que não havia mais motivo para esconder, que eu poderia publicar. Eu guardei esse trecho na minha memória e, quando soube do caso da jovem do Rio de Janeiro, que sofreu múltiplas agressões potencializadas por 30 caras, ou mais, eu lembrei. Lembrei porque os olhos mais fortes que eu já vi partilharam comigo, antes mesmo da fala, a dor permanente que fica em nossa mente, nossa alma, nosso corpo.

Foram 30 homens sobre 1 menina. Uma jovem mulher. Menina. É o mesmo de nos infestar de raiva, de nojo, de dor!

Eu senti ódio. Ódio em saber que, mais uma vez, sento minha bunda numa cadeira para escrever sobre dias em que ouvi mulheres me dizer em entrevista ou em conversas informais: “aí eu fui estuprada”, “minha irmã foi estuprada”, “eu já fui estuprada”, “não confie em homem nenhum, nenhum homem ama as mulheres”, “até que ele me bateu”, “foi quando ele me violentou”, “eu engravidei aí, quando ele me estuprou”, “me bateu e eu estava grávida”, “eu estava no portão de casa, rodando a chave, quando um homem chegou por trás de mim e disse: ou eu entro com você, ou você entra no carro. Ele só me soltou de manhã”.

É de se andar em círculos! E só escrever adianta?
Não! Mas é o que eu posso fazer agora.

Quando lembro de cada uma dessas mulheres eu lembro de mim. De quando um dia eu disse: “Para!”, muitas vezes, e o meu então “parceiro” disse: “Espera! Deixa eu gozar”.

“Espera, deixa EU gozar”. Gozar.

São essas as falas: “Cala a boca!”, “Fica quieta”, “Espera”, “Sua vagabunda!”, “Deixa eu gozar!”. Não há nenhuma justificativa que tire de nós, absolutamente nenhuma, que nos faça ter tomado decisões para viver uma violação. As decisões que me levam até um quarto, um baile funk, um parque vazio, a casa de um vizinho, o caminho de casa, nada pode dar o direito para que outra pessoa pratique um ato de violência, um atentado contra a vida. Nada dá o direito de alguém decidir ignorar o direito de dizer: NÃO. NÃO É NÃO! E ESTUPRO É ESTUPRO.

É preciso refletir que:  

Se uma mulher decidir transar com um homem, dizer sim a princípio e, no meio do caminho, o sujeito a obrigar a fazer coisas que ela não quer: É ESTUPRO!

Se uma mulher estiver de mini-saia, de toalha, sem roupa alguma e alguém forçá-la ao sexo: É ESTUPRO!

Se uma mulher está no meio de uma transa e um cara força o sexo anal, oral ou é violento na penetração vaginal contra sua vontade: É ESTUPRO!

Se um “parceiro” força a transar em um dia que a mulher NÃO QUER: É ESTUPRO!

Se uma mulher está alcoolizada, sob o efeito de drogas e não deu evidências claras de que quer transar ou se, mesmo que tenha dado, o homem é violento: É ESTUPRO!

Se uma mulher escolhe transar com cinco e surgem 10: É ESTUPRO COLETIVO!

Se você cerca uma mulher, encurrala uma mulher, apalpa uma mulher e ela NÃO CONSEGUE NEM DIZER NÃO, mas está visivelmente incomodada e você continua: É ESTUPRO!

Se uma jovem está desacordada, machucada, inconsciente e, assim, seu corpo ficou vulnerável e mais de 30 homens transaram com ela, filmaram, fotografaram e ainda divulgaram nas redes socais: É ESTUPRO COLETIVO, É EXPOSIÇÃO, É CRIME DE INTERNET! 

Se uma mulher já tem filho e um homem acha que pode transar “com força” com ela sem que seja do seu gosto: É ESTUPRO!

Se um homem é violento com uma mulher negra na cama por que ela é negra e “aguenta mais”: É ESTUPRO! É RACISMO!

É ESTUPRO! COMPREENDEM? É ESTUPRO! É CRUELDADE! Buscar outra classificação que não seja essa, contar qualquer outra história que não tenha esta conclusão é ser machista, é ser desumano, é considerar crenças individuais e morais que NÃO SÃO nem um pouco relevantes ou respeitáveis, que são pautadas em truculências históricas: EM NOME DA “MORAL” mulheres morrem e homens podem matar, violentar e estuprar sem punição.

O sexo SÓ PODE SER SAUDÁVEL E VERDADEIRO QUANDO EXISTE reciprocidade. Quando uma mulher não é um pedaço de carne disponível para uma “metelância”, quando há troca, quando ela está à vontade, quando há espaço para que ela faça como ela quer também, quando sente prazer, quando está consciente e quando pode dizer: “ASSIM NÃO!”, a hora que quiser. E nessa hora o outro DEVE PARAR! Se não parar, É ESTUPRO! E ser ESTUPRADOR está, entre outras tantas coisas repugnantes, em priorizar o “ser homem” e única e exclusivamente o seu prazer. E homens sentem prazer em ferir. E ferem, se for preciso, para terem prazer. Precisamos compreender que o sexo deve ser protagonizado por dois ou por todos que decidiram vivê-lo. Com IGUALDADE, com HUMANIDADE. 

Precisamos rever o conceito de sexo e de prazer para, então, ampliar e desconstruir o significado e o ato do estupro. A cultura do estupro está aqui: em homens que acham normal fazer sexo quando o outro não quer, naturalizaram a prática de ignorar os gritos, os empurrões, os “nãos”, os gritos de “PARA!” e a falta de reciprocidade. Eles não param e, pior, sentem prazer nisso!  Seja com violência, seja nas ditas “obrigações matrimoniais”. É perverso.

O estupro pode estar nos ambientes mais íntimos e das formas mais mascaradas que podemos imaginar. O “Eu” do gozo masculino pode ser destruidor. E é por isso que 30 homens olharam para uma jovem desacordada, sem reação, machucada e não voltaram atrás. Por que eles queriam gozar. E se vangloriarem disso. ESTUPRA(DORES). 

E o que mais me dói bem fundo é saber que hoje têm mulheres sendo estupradas. Que eu vou continuar com medo de andar à noite, que os jornais criam manchetes com eufemismos como: “a vítima DIZ ter sido estuprada por 30…”, e a novela continua repercutindo cenas de violência sexual com frequência. Todos sob a égide do machismo, do patriarcado e de uma aliança masculina que é extremamente funcional, inclusive nos momentos de maior crueldade.

As coisas não vão melhorar logo e o meu peito ainda fará muitos nós. Meu estômago ainda vai enjoar muitas vezes. Mas vai ter luta. E que esse ciclo de dores que todas as mulheres sentem quando veem uma de nós ser vítima de tamanha brutalidade possa, ainda que em indignação, se transformar em pensamento positivo para que nossa jovem e outras tantas mulheres consigam seguir em frente!

Desejo tão forte quanto um vendaval que ela receba o amor de milhões de mulheres que pensam por ela nesse momento, que ela tenha uma RECUPER(AÇÃO) do corpo e da mente. Que ela tenha o amparo necessário e que sinta um abraço de flores, chás e ervas de banho. Que ela se olhe e busque em sua iris a força mais potente que há.  E que ela siga e, mesmo que as lembranças voltem hora ou outra, mesmo que haja dor, que ela permaneça altiva e com os olhos mais fortes do mundo.

Enquanto houver vida, haverá luta e, mesmo com dias em que esmorecemos,  violador nenhuma cessará nossa caminhada.

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Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e moradora do Jardim Miriam (ZS)

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