Este conteúdo integra o especial “Racismo Ambiental: mulheres indígenas e quilombolas na proteção de seus povos contra a Covid-19″

A situação das barragens no Brasil ganharam notoriedade com os crimes ambientais de Mariana e Brumadinho, em 2015 e 2019 respectivamente, ambos em Minas Gerais, sudeste do Brasil, deixando centenas de mortos e populações inteiras contaminadas. 

Com o rompimento de Brumadinho, o alerta se acendeu também em São Paulo, inclusive nas regiões periféricas, porque duas das 7.449 barragens do estado estão localizadas aqui em Perus, região noroeste, onde moro. 

Mesmo após 30 anos da instalação, a maioria da população nunca tinha sequer ouvido falar sobre elas, gerando grande preocupação em todo mundo. 

À época, produzi uma matéria para os nossos parceiros da Agência Mural, mostrando que, diante dos riscos, as barragens não tinham um plano de contingência, muito menos discutiam a questão junto à comunidade. E, até hoje, um ano depois e com a população cobrando, ainda não foi apresentado nenhuma estratégia.  

Nessa época,  descobrimos que, sem querer, éramos mulheres atingidas por barragens. 

Quem me explicou isso à época foi Liciane Andriolli, 39, liderança do Movimento pelos Atingidos por Barragens (MAB) e moradora da Casa Verde, zona norte de SP. 

Ela diz que, uma vez instalada, a barragem sempre pode causar efeitos à população que vive ao seu redor, mesmo que não seja de grandes proporções. Seja pelo perigo iminente de seu rompimento, a poluição local ou sonora, e as transformações ao meio ambiente que esse tipo de empreendimento sempre  traz ao local. 

Para explicar como a pandemia ligada ao coronavírus afeta as populações que vivem próximas às barragens, Nós entrevistamos Liciane, que aponta, entre outros aspectos, como o modelo dessas organizações afetam a sociedade e o Meio Ambiente. 

Ela, que também é uma mulher atingida por barragem, entende que, historicamente, as populações afetadas têm sofrido com graves violações de direitos humanos através das construções das barragens, o que se intensifica em um momento como esse. 

“A grande maioria das famílias vivem em áreas com grande produção de riqueza produzida pelas barragens, mas como essa riqueza fica na mão das grandes empresas, o povo vive em áreas com dificuldade de acesso à saúde, alimentação saudável, energia, água, saneamento, moradia, boa infraestrutura de transporte, comunicação, e renda”.


Leia abaixo o bate-papo na íntegra

Nós, mulheres da periferia: Há anos vocês do MAB levantam a bandeira dos povos atingidos por barragem. E, com isso, mostram a importância de se falar de meio ambiente e que a vida humana faz parte disso. Como vocês relacionam todas as questões ambientais ao momento de pandemia que estamos vivendo?

Liciane Andriolli: O momento que estamos vivendo é uma oportunidade de ouvirmos um alerta de que precisamos mudar a sociedade a qual vivemos. A sociedade capitalista que vivemos hoje não faz bem para as pessoas, nem ao Meio Ambiente. 

Vivemos numa sociedade em que o lucro, o dinheiro é colocado acima da vida. O meio ambiente é visto como uma mercadoria se tornando ainda mais vulnerável neste momento da COVID-19, como, por exemplo, o vasto e crescente desmatamento na Amazônia, crescimento desordenado de centros urbanos, o consumo desenfreado,  a grande poluição de nossas águas, terras, as mudanças climáticas e os alimentos envenenados, um ambiente não preservado e contaminado se torna mais vulnerável em momento de pandemia. 

A degradação ambiental existente hoje no nosso país contribui para acelerar ainda mais a contaminação da COVID-19, precarizando a vida. 

É necessário e urgente haver ações integradas do Estado através de suas instituições públicas, empresas privadas e sociedade de proteção ao meio ambiente e a vida humana, só desta forma conseguiremos evitar, superar e amenizar crises como estas que estamos vivendo.   

NMP: Como as populações atingidas por barragem podem ser afetadas nesse contexto? Quem são essas pessoas e onde territorialmente elas estão?

Liciane Andriolli: Para os atingidos por barragens essa situação toda é preocupante. Nós somos pessoas que historicamente tem sofrido com graves violações de direitos humanos através das construções das barragens. 

A grande maioria das famílias vivem em áreas com grande produção de riqueza produzida pelas barragens. Mas como essa riqueza fica na mão das grandes empresas, o povo vive em áreas com dificuldade de acesso à saúde, alimentação saudável, energia, água, saneamento, moradia, boa infraestrutura de transporte, comunicação e renda.

E essa realidade é ainda pior no crescente número de famílias atingidas por barragens que estão no entorno ou nas periferias de grandes cidades. Seja aqui em São Paulo, em Minas Gerais, no Rio ou em Altamira, no Pará.

NMP: Como estão as construções ou manutenção de barragens pelas empresas? Nesse momento, qual seria o caminho que elas deveriam seguir?

Liciane Andriolli: Nesse Momento, as empresas deveriam fazer todo o esforço para colocar a vida acima do lucro. Na mineração, é muito cruel ver empresas como a Vale mantendo sua produção em plena capacidade, colocando a vida de milhares de trabalhadores em risco somente para proteger suas taxas de lucro. 

Na área da geração de energia, que aliás foi basicamente toda construída por empresas estatais com dinheiro público e agora está tudo na mão das multinacionais, é revoltante saber que  poderíamos, neste momento, oferecer energia gratuita ou a preços irrisórios para toda a população, em especial as mais carentes, mas estamos vendo as empresas mais uma vez só visando o lucro. 

Como a Enel aqui em São Paulo, que neste momento de pandemia com a desculpa que não pode realizar a leitura está cobrando das pessoas a conta com base no consumo do ano anterior. É claro que o consumo da sociedade em um ano com a economia toda girando é muito maior do que agora em período de quarentena em que a atividade econômica diminuiu drasticamente. 

Não tem justificativa uma coisa dessa. Se o problema é realizar a leitura, porque então não cobrar só depois da quarentena? Ou cobrar uma taxa mínima de todo mundo e depois do fim da quarentena o consumo realizado?

NMP: Como vocês encaram as ações de benfeitorias de empresas como a Vale, por exemplo, nesse momento de Covid-19?

Liciane Andriolli: Claro que toda ação de ajuda neste momento é importante. E o setor privado tem mais do que obrigação de fazer sua parte. No entanto, é desprezível ver que muitas destas ações são feitas mais para gerar um impacto na imagem da empresa do que a preocupação com a vida das pessoas. 

Por que a Vale não suspende suas atividades e deixa seus milhares de trabalhadores em casa se cuidando? Porque a Vale ainda não construiu as casas dos atingidos de Mariana que, até hoje, estão vivendo de aluguel ou em pensões e hotéis? Quatro anos depois do rompimento da barragem! Por que a Vale luta na justiça pra parcelar, para suspender indenizações que precisa  pagar às famílias atingidas em Brumadinho e de toda a bacia do Rio Paraopeba? 

Essas coisas que são revoltantes. Por que essas grandes empresas não suspendem suas remessas de lucros que são enviados para fora do país e não direcionam esse recurso para o SUS?  Isso que revolta. É importante todos ajudarem neste momento, mas essas grandes empresas pegam uma fração minúscula do seu faturamento para ações de combate ao Covid-19 e querem fazer um estardalhaço como se fossem super comprometidas com a população. Calma lá, né?

NMP: Como as mulheres atingidas por barragens são afetadas nesse momento de pandemia? Há dados de aumento da violência doméstica e muitas são chefes do lar. Como é essa questão em locais de barragens?

Liciane Andriolli: Há estudos que apontam que mulheres são consideradas o grupo social mais afetado pela pandemia do novo coronavírus, pois estão em empregos mais precários e informais. E muitas mulheres são chefes de famílias, o que gera, neste momento de pandemia, uma maior sobrecarga sobre a mulher. Pois, além de se preocupar em garantir o alimento-sustento de sua família, é também quem garante o funcionamento doméstico da casa. 

Outra questão que os estudos têm demonstrado é um crescente aumento da violência doméstica contra a mulher. Nós, do MAB, neste momento, não temos um estudo específico sobre a consequência da pandemia na vida das mulheres atingidas por barragens, mas temos a certeza que são as mais violadas neste momento, pois se encontram neste contexto geral da sociedade.

As mulheres atingidas por barragens carregam em sua história uma trajetória com enormes violações em seus direitos, pois são invisibilizadas pelas empresas donas das barragens. Mas, ao mesmo tempo, através da organização coletiva no movimento, buscamos a superação para estas violações. 

Neste momento de pandemia, temos incentivado os diversos coletivos a desenvolverem planos de trabalho que possam contribuir na orientação às famílias atingidas. O coletivo da ciranda infantil tem construído um plano de trabalho com atividades educativas com o objetivo de contribuir na educação das crianças enquanto estão em casa. Estimulam para que a responsabilidade da educação das crianças seja partilhada pelos pais,  no caso das crianças que contam com a presença da figura paterna. Onde não há, os educadores buscam fazer vídeo conferências com as crianças para contribuir na divisão da tarefa com a mãe que é chefe de família. 

Outra ação, também desenvolvida pelo movimento, é reforçar  em todas as circulares enviadas aos estados a importância da divisão das tarefas domésticas com os homens. O coletivo de mulheres atingidas por barragens também tem se reunido virtualmente para desenvolver reflexões coletivas e orientações políticas e organizativas, fortalecendo o feminismo popular em meio à pandemia. 

NMP: Como a crise atual está ligada ao racismo ambiental que já é muito perpetuado em nossa sociedade? Como esse racismo aparece entre as populações afetadas por barragens? E os trabalhadores/as?

Liciane Andriolli/*Ubiratã de Souza Dias: A crise causada pela Covid-19 tem tido essa capacidade de escancarar as desigualdades e as fragilidades sociais de nossa sociedade. Na questão racial não é diferente. Estamos vendo os números evoluírem dia a dia no Brasil, mas nos Estados Unidos, por exemplo, os números já mostram que quem mais morre pela Covid-19 tem sido a população negra. 

Porque, historicamente, lá é a população que tem tido mais direitos negados, tem recebido os piores salários, menos acesso à saúde, são as pessoas  que vivem nas regiões mais periféricas e com menos estrutura.

No Brasil, tudo indica que não será diferente. Já estamos vendo que as mortes estão se concentrando mais nas periferias agora. Vemos que o distanciamento social é mais difícil de ser mantido nas periferias, nós sabemos que o acesso a saúde e as condições de higiene sanitárias é muito pior nas periferias.

E nós sabemos qual é a cor das nossas periferias. Infelizmente, acho que nosso povo preto vai passar momentos muito difíceis nesta pandemia.  Por isso, é muito importante ampliarmos os laços de solidariedade. É se cuidar e, quem puder, ficar em casa. 

Na população atingida temos poucos dados sobre cor e raça. Até mesmo porque é uma população muito invisibilizada em nosso país. Mas é notório e perceptível a diferença entre quem mora na beira do rio ou do lago e quem vai no lago pra passear. A cor de pele do piloteiro do barco e do turista que é pescador.  Esse mesmo racismo estrutural se reproduz na população atingida de nosso país.

*Ubiratã de Souza Dias Colaborou na resposta

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