Na quarta-feira (1), entregadores e entregadoras de aplicativos realizam a paralisação nacional #BrequeDosApps, para pedir melhores condições de trabalho.

Dentre as reivindicações estão o aumento do valor pago por quilômetro rodado, fim dos bloqueios e desligamentos sem motivo, seguro de vida, roubo ou acidente e auxílio pandemia em caso de contaminação por Covid-19. 

Apartidários, os atos acontecem em 9 diferentes pontos da cidade de São Paulo, a partir das 9h, e, às 14h, todas e todos se reúnem na Av. Paulista. Além do Brasil, entregadores na Argentina, Austrália, China, México e Inglaterra também vão pausar suas bicicletas e motos.

Trabalhadoras essenciais

Segundo decreto presidencial de março de 2020, os serviços de entrega são considerados “atividades essenciais no combate da disseminação do vírus”. Diante da pandemia, o número de entregadores da capital paulista e Grande São Paulo cresceu ao menos 20%, sendo 280 mil profissionais que utilizam motos ou bicicletas, como aponta o SindiMotoSP, em entrevista ao Valor Econômico.

Para falar sobre as dificuldades que enfrentam essas trabalhadoras e trabalhadores, acompanhamos durante alguns dias o cotidiano da entregadora de aplicativos Hannah* e ouvimos também a história de Raquel, ambas trabalhadoras de apps que mostram que a treta em ser trabalhadora e mulher é ainda maior. 

Paraibana de 31 anos, Hannah vive em São Paulo há 15. A cidade que a acolheu no passado é a mesma que a engole, principalmente agora, diante da crise sanitária e social, tornando a vida de quem entrega ainda mais precária.

“A maior dificuldade de quem faz entrega é a de não ter lugar pra lavar a mão na rua. Não ter acesso a banheiro. Ter que comer sentada na calçada. Não ter lugar pra apoiar a bag (mochila)”.

Só no primeiro trimestre de 2020, o Brasil já contabilizava 12,8 milhões de desempregados, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Bartender de profissão, Hannah precisou encontrar outra forma de pagar as contas quando a quarentena teve início. Dada a urgência, ela optou em realizar entregas por meio de aplicativos, por entender que poderia ter alguma autonomia.

Hannah iniciou com uma bicicleta, em seguida investiu em uma mobilete e agora utiliza uma moto. Acredita que assim corre menos riscos de roubo do que com um veículo não motorizado.

Os gastos com o veículo, somado ao estresse do cotidiano, no entanto, têm feito essa experiência um pouco mais difícil do que ela previa. Se a vida de quem entrega já é difícil, imagina de quem é mulher e precisa percorrer muitos quilômetros em áreas consideradas de risco? 

“Por ser mulher, o risco de ser roubada é muito maior. Já rejeitei duas corridas em área de risco no mesmo turno e fui bloqueada por isso”, destaca. 

Certa vez, enquanto realizava uma entrega próximo à Av. Senador Queiroz, na região central, Hannah foi abordada por dois homens, que pediram para ela descer da bicicleta em uma tentativa de assalto. Dessa vez, ela se safou, acelerando as pedaladas, mas o medo sempre está presente. 

“A gente sofre muito mais com tentativa e sucesso do roubo. Para roubar um cara, muitas vezes, ou ele deixou a bicicleta desassistida, ou vieram armados. Para roubar mulher, basta um cara vir e usar um pouco da força dele, que é mais fácil conseguir”. desabafa.

Ser mulher e entregadora é prender o xixi, não ter lugar para trocar absorvente e ter mais chance de ser roubada /Arquivo pessoal

Crédito: Arquivo Pessoal

‘Não é tão fácil para a mulher fazer xixi na rua’

Para além do constante medo de sofrer um assalto, há outro ponto que prejudica mais as mulheres que realizam entregas por meio de aplicativos.

“Não é tão fácil para a mulher fazer xixi na rua, como os meninos. Nessa época de pandemia, nenhum estabelecimento está deixando a gente entrar para ir ao banheiro. Malemá tem um restaurante ou outro que tem uma pia para você lavar a mão”, expõe. 

Hannah conta que a lavagem das mãos não é só por conta do uso do banheiro, mas também quando precisam realizar alguma manutenção no veículo de trabalho.

Há quem pergunte: mas quem trabalha com aplicativos não é autônomo, portanto, pode trabalhar a hora que bem entender? O discurso das empresas é de uma autonomia integral aos seus funcionários. Mas, na verdade, existem categorias diferentes de trabalho. 

Uma delas é a “nuvem”, quando o entregador ou entregadora é cadastrado, tem horário flexível, podendo escolher sua rotina de horários e não possui um chefe.

A outra categoria, no entanto, é o daqueles submetidos a um sistema vertical de gestão, com a presença dos Operadores Logísticos (OLs), responsáveis em organizar as rotinas, turnos e pausas de quem entrega, como Hannah. 

Quando entrou no esquema, não sabia dessa diferença. A preocupação em pagar as contas junto a pressa de começar a trabalhar, fez ela aceitar a proposta de integrar uma frota com um OL.  Nessa opção, o cadastramento é mais rápido. Por conta disso, tudo, ou quase tudo que a entregadora faz na rua é supervisionado por essa pessoa. 

O Líder OL (operador logístico) é funcionário de uma empresa contratada pelo próprio IFood, e esse líder OL contrata entregadores, que serão chamados de “entregadores OL”, passando a existir uma hierarquia. Diferente dos entregadores cadastrados na “nuvem”, entregadores e entregadoras como Hannah não podem desligar o aplicativo quando querem. 

“Para ir ao banheiro, eu tenho que colocar na minha pausa. Se eu consigo e quando o aplicativo deixa, porque em dia alta demanda por entregas a gente tenta colocar na pausa, mas o aplicativo vem com uma mãozinha vermelha e não dá opção de você pausar”.

Quando isso acontece, ela precisa enviar a solicitação para o OL dizendo que precisa passar em casa. 

“Você tem que esperar o suporte responder pra poder fazer essa coisa. Porque se eu desligo sem autorização ou sem falar nada, logo chega mensagem do operador logístico perguntando por que estou offline, falando também que vai gerar ocorrência na minha conta. Não que ele vai gerar, o sistema do IFood gera ocorrência na conta e abaixa minha pontuação”.

Hannah trabalha 11h por dia, 77h por semana. Seu faturamento mais alto em uma quinzena foi de R$ 840, ou seja, 154h trabalhadas. Para pagar as contas, como aluguel, água e luz ela precisaria de, no mínimo, R$3.500. Hoje, o salário mínimo exigido por lei em SP é de R$ 1.163,55 para 40h semanais, 160h no mês. 

Da zona sul ao centro: 27 km para trabalhar

“Vida de entregadora não é fácil. Entrei nesse mundo das entregas porque, realmente, eu precisava e preciso”, é o que conta Raquel*, 32, trabalhadora de aplicativos de entrega que chega a percorrer 27km para chegar até chegar no centro, onde considera que os pedidos são em maior quantidade do que na periferia. 

“Geralmente, vou de carona até o terminal onde eu deixo a Berenice”, diz. ” Ganho pouco, nem dá para colocar no bilhete único. Se eu fosse contar de onde eu moro até a Vila Mariana, por exemplo, seriam 27km só para chegar”.

Quando estava atuando na região do centro da capital paulista, Raquel chegava a pedalar até 100km por dia. Com profissão no ramo varejista, sente que, mesmo com o crescimento da área, a contratação caiu muito.

Optou em se lançar nos aplicativos antes mesmo da pandemia. “Uso a minha bike mesmo, a Berenice, e eu deixo ela nos bicicletários dos terminais, que são gratuitos e tem uma certa segurança”.

Para ela, se tem um lado positivo, esse é a liberdade. “Sem chefe enchendo o saco, sem pressão que qualquer empresa tem”, aponta a entregadora, que diferente de Hannah, é cadastrado pela modalidade da nuvem.

“O lado ruim são as condições. Eu comecei a trabalhar antes da pandemia, e já tinha muitos entregadores. Em termos técnicos é horrível, porque não temos acesso a água, muito menos a um banheiro, e imagina eu, mulher, estando “naquele dias” pedalando para cima e para baixo com cólica, com receio de ter acontecido alguma “eventualidade” na roupa?”.

Desigualdade em números

Uma pesquisa da Aliança Bike (Associação Brasileira do Setor de Bicicletas), após uma amostra realizada em seis regiões de São Paulo, apontou o perfil social dos entregadores. Segundo o levantamento, os profissionais moram nas periferias, são homens jovens [50% até 22 anos], negros (71%), com ensino médio completo (53%) e estavam desempregados (59%).

Com a atual situação, trabalham sete dias da semana (57%). Em média, a jornada diária é de 9,24 horas, para fazer nove entregas com uma remuneração mensal de R$936,00. Diariamente, eles cumprem uma pedalada que supera os 60 km, sendo 40 km para prestar o serviço e 20 km no trajeto de casa para a região central.

Entre as reclamações estão a falta de segurança no trânsito (44%), ausência de infraestrutura viária (34%) e a falta de segurança contra roubo (20%), ocupam as primeiras posições

*As entrevistadas optaram em não dizer o segundo nome por segurança.


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