Na noite de sexta-feira (4), a primas Emily Victória Silva dos Santos, de 4 anos, e Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, de 7 anos, foram assassinadas com tiros de fuzil em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Um dos tiros atingiu Rebeca na cabeça e outro acertou o abdômen de Emily.

Segundo apurou a Ponte Jornalismo, um só projétil, disparado muito provavelmente por policiais, matou as duas.

Ainda não há muitas informações sobre mais este caso, uma vez que não houve perícia no local, segundo denunciou em suas redes sociais o coordenador-executivo da IDMJR (Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial), Fransérgio Goulart.

Violência policial que mata mais uma família

A avó de uma das crianças, Lídia Santos, presenciou a cena assim que desceu do ônibus, voltando do trabalho. As meninas a aguardavam na calçada, pois haviam combinado uma saída para comprarem um lanche.

Isso nunca aconteceu.

Rebeca, que ainda respirava, foi levada à UPA de Sarapuí pela família, mas não resistiu.

“Imagine a cena, eu chego do trabalho, salto do ônibus, vejo a polícia parada, atirando pra dentro da favela, e vejo a minha neta de 7 anos com o cérebro no chão, ando uns dois metros vejo minha sobrinha de 4 anos no chão com um tiro no coração. Isso é certo?”, perguntou Lídia, aos presentes em ato realizado no último domingo (6).

Embora a PM afirme que os policiais não efetuaram disparos no local, a avó de Rebeca e testemunhas afirmaram que uma viatura tipo Blazer passou na rua atirando sem qualquer ocorrência ou justificativa.

Em registro do ato, ela indaga à população presente sobre qual era a situação na favela no momento do ataque.

O pai de Emiliy desmaiou várias vezes durante o enterro e foi amparado por parentes.

A criança faria aniversário de 5 anos em 23 de dezembro e foi enterrada com a roupa que usaria em sua festa. Uma fantasia da personagem Moana, de filme de animação da Disney.

Até quando?

Somente neste ano, pelo menos 8 crianças morreram vítimas de bala perdida no Rio de Janeiro, segundo dados coletados pelo aplicativo Fogo Cruzado. Além disso, 22 foram feridas a balas no Grande Rio.

Já a ONG Rio da Paz divulgou que, somado às mortes de Emily e Rebeca, sobe para 12 o número de crianças mortas por armas de fogo no estado do Rio de Janeiro até este sábado (5).

A média de mortes é assustadora. Uma criança é vítima da violência policial por mês no RJ.

12 crianças foram mortas no RJ em 2020

Crédito: Reprodução

Infelizmente, sabemos que cada uma dessas história tendem a seguir o padrão de uma série de acontecimentos: protestos, declarações públicas de indignação, espaço na mídia e esquecimento.

Tão logo, as mortes de Emily e Rebeca podem voltar a ser mais um caso dentre vários do cotidiano desumano que vivenciam os moradores das comunidades no Rio de Janeiro.

Ana Lúcia Moreira, mãe de Emily, disse em entrevista para a imprensa que a família está desolada, e que as meninas, infelizmente, “viraram estatística”.

“A gente sai pra trabalhar, pra contribuir com esse governo homicida e é isso que eles nos dão de troco, matam nossas crianças, nosso futuro. Isso tem que acabar, isso tem que parar. Até quando vão matar pessoas inocentes? Que preparação é essa que os policiais não conseguem distinguir entre adulto e criança? Não teve troca de tiros”, afirmou Ana Lúcia.

Pandemia e genocídio

O Governo do Estado do Rio não deveria realizar operações policiais nas favelas no período de pandemia.

De acordo com decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) as ações no RJ estariam restritas aos casos excepcionais, ainda sob condição de serem informadas e acompanhadas pelo Ministério Público estadual.

Protesto contra o assassinato de Emily e Rebeca

Crédito: Reprodução Redes Sociais

Mas a população negra e pobre das favelas do RJ nunca teve paz. O estado registrou aumento de número de mortes em decorrência de operações policiais em 2020.

Apenas nos primeiros cinco meses deste ano, um recorde foi atingido com o registro de 741 vítimas fatais de intervenções policiais, segundo relatório do ISP-RJ (Instituto de Segurança Pública do RJ).

O maior número de mortes no estado desde 1998. E os alvos têm classe e cor.

Conforme apontado pela escritora Bianca Santana, doutora em ciência da informação e mestra em educação pela USP, 91% das crianças mortas por balas perdidas no Rio de Janeiro são negras.

Em live promovida pela Folha de S. Paulo, Bianca afirmou que as balas nunca são perdidas. “Ela é uma bala que tem um alvo específico. E, nesse período de pandemia, fica ainda mais grave e desolador a gente perceber o quanto determinadas vidas não valem nada.”

Rebeca, à direita, tinha apenas 7 anos. Emily, de óculos, faria aniversário de 5 anos no próximo dia 23

Crédito: Reprodução

 

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