Conheci o Cursinho Popular Carolina de Jesus, o Carol, em um dos saraus organizados na unidade do Capão Redondo, zona sul, em julho de 2017, ao exibir o documentário “Nós, Carolinas – vozes de mulheres da periferia”, aos jovens do projeto. Na ocasião, levei comigo meu filho Joaquim, de cinco anos, que foi muito bem recebido e ficou muito à vontade entre os jovens.

Quase um ano depois, em uma conversa com duas professoras do Carol, Larissa Bernardo e Gabi Costa, descobri que a minha sensação de acolhimento para com Joaquim não estava isolada: além de preparar a juventude local para a universidade, o Carol permite que estudantes mães ou pais possam levar suas crianças também para o espaço, que conta com atividades e brincadeiras preparadas pelos próprios jovens.

Achei muito importante contar essa história, já que pelo menos 70% do total de estudantes do cursinho é de mulheres entre 16 e 21 anos.

Mesmo não havendo dados exatos sobre a a quantidade de gestantes ou adolescentes com responsabilidades sobre crianças, as educadoras puderam identificar ao longo dos anos que essa responsabilidade (seja ela maternal ou requisitada por motivos de gênero) é uma das grandes causadoras da evasão de alunas no Carol. “Ano passado, por exemplo, tivemos mais de 20 casos de adolescentes que evadiram por esse motivo”, disseram.

E essa realidade se amplia por todo o Brasil, a gravidez é um dos principais fatores de evasão escolar de meninas no Brasil. Os dados de 2016 de uma pesquisa do Instituto Unibanco mostraram que apenas 2% das adolescentes que engravidaram deram sequência aos estudos.

“A creche é um projeto muito importante para o cursinho e para essas jovens, pois possibilita que mesmo sob condições adversas elas mantenham vivo o sonho de estudar, construir uma educação e ainda assim ter a certeza quanto à segurança e cuidado com as crianças que são responsáveis. A creche também é uma grande experiência para nossas educadoras e educadores pois possibilita a elas e eles acesso à uma nova perspectiva de educação (infantil) e um novo campo para o desenvolvimento de nossas perspectivas socioeducativas”.

Das 414.105 meninas de 15 a 17 anos com pelo menos um filho, 309.374 estão fora da escola. Dentro desta faixa etária, as mães adolescentes que não trabalham nem estudam apresentam os piores índices de escolaridade, com menos perspectiva de ascensão social. [FONTE: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

O Cursinho Popular Carolina de Jesus, o “Carol”, foi criado em 2010 como parte integrante da Rede Emancipa, no Capão Redondo, zona sul da cidade de São Paulo, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Terezinha Motta Figueiredo.

Em 2016, o projeto se tornou um movimento autônomo e, dado o aumento da procura de jovens na região, em 2018 foi aberta mais uma unidade no Jardim Ângela, na Escola Estadual Professor Luis Magalhães de Araújo.

 

Galeria

Confira o bate-papo que tive com os organizadores

Quem são os professores do cursinho? Como é feita a coordenação e planejamento do projeto?

Nossas educadoras e educadores são também em sua maioria jovens periféricos (grande parte da Zona Sul de São Paulo) que se mobilizam durante todo o ano para construir um projeto de educação democrática e libertadora que conjuntamente com nossas estudantes e com a periferia possa edificar através do diálogo, reflexão, desconstrução e construção as bases de uma nova proposta de educação pensada e criada coletivamente por todos nós e para nós da periferia. Portanto, nosso planejamento, táticas e estratégias são construídos de forma coletiva entre todas e todos, estudantes, educadores e educadoras e quem mais quiser soma

Vocês comentaram que o cursinho também tem a intenção de formar o jovem para o ambiente universitário, para além da prova do vestibular. Como um jovem da periferia se sente ao entrar na universidade? Quais são os desafios que ele enfrenta? Como essas questão são abordadas nas aulas?

Nossa proposta é de ser um cursinho pré-universitário e não só pré-vestibular. Ou seja, nos propomos não só a instrumentalizar as estudantes para serem aprovadas em uma prova classificatória e injusta (afinal, entendemos que a educação, assim como o conhecimento não podem ser medidos sob uma só perspectiva). Entendemos que a educação deve formar para além do vestibular, deve formar também para a vida e os desafios universitários que se sucedem a essa fase. Esses desafios são inúmeros. Porém, percebemos também que a formação coletiva em nosso espaço não se restringe apenas ao espaço universitário, mas também forma educadoras e estudantes para uma vida repleta de desafios, contradições e novas experiências. Entendemos que em nossas universidades, ou o conceito mais geral de universidade como se apresenta hoje, não estão preparadas para acolher o estudante periférico, entenda-se que a universidade hoje tem o papel de rejeitar seus conhecimentos e experiências prévias, tornando-se assim um espaço violento à esse jovem. Sendo assim, buscamos entender esse processo e transição em toda sua complexidade ao desenvolvermos com as estudantes a percepção de nossa realidade ao mesmo tempo em que construímos com elas a necessidade de ocupar esses espaços nossos e criar uma resistência à esse processo histórico de segregação da juventude periférica.

 Qual a importância do círculo de debates mensal que você propõem para a formação do estudante que quer ingressar no ensino superior?

O círculo de cultura é nossa principal ferramenta no processo de criação de um espaço de reflexão, crítico, emancipatório e de diálogo coletivo. É nesse espaço que utilizamos toda a metodologia construída em anos de experiência de cursinho (mas também muitíssimo bem fundamentada na obra de educação popular de Paulo Freire) para construir pontes de dialogo com os estudantes, desconstruindo o espaço de sala de aula, sua hierarquia e métodos a fim de realizar uma desconstrução e construção coletiva dos mais diversos temas pertinentes à realidade de nossas e nossos estudantes e educadores. Dessa forma, construímos coletivamente um espaço de educação que transcende os paradigmas escolares atuais e que possibilita a todas e todos alia presentes serem multiplicadores dessa educação e conhecimento nos mais diversos espaços de sua vida, através do diálogo.

Vocês tem números dos jovens que fizeram o cursinho e ingressaram na faculdade?

Nesses oito anos de Cursinho Popular Carolina de Jesus tivemos quase 5000 estudantes e mais de 200 aprovações em universidades (é importante ressaltar que só contabilizamos em nossos números de aprovações estudantes que acessaram a universidade pública e, portanto, gratuita e estudantes que acessaram universidade particulares com bolsa integral, ou seja, também não pagaram por sua educação). Mantemos essa forma de cálculo porque entendemos que a gratuidade da educação é imprescindível e que, portanto, a educação só pode ser um direito de todas e todos se for gratuita e sem pedágios.

 Como vocês se relacionam com os outros cursinho populares da cidade?

Em nossos anos de construção sempre buscamos apoiar novas iniciativas de cursinhos e movimentos sociais de educação e de outras vertentes, pois entendemos que uma luta conjunta é essencial para a transformação de uma realidade tão desigual quanto à brasileira.

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Sobre a autora:

Mayara Penina

Mayara é jornalista e moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

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