Com a pandemia do coronavírus (Covid-19), diversas mulheres da periferia começaram a se reinventar e criar alternativas de proteção às suas famílias e comunidades. Para muitas delas, a confecção de máscaras caseiras foi o caminho para atravessar a pandemia também financeiramente.

Quando a costureira Eliana de Oliveira Santos, 62, recebeu o pedido de uma amiga, que  teve o filho com suspeita de infecção e também precisava para o trabalho, ela não pensou duas vezes. A produção de máscaras para doação passou a ser uma das tarefas em sua quarentena.  

Em uma semana, a moradora do Parque do Peruche, zona norte de São Paulo, produziu mais de 70 máscaras. A distribuição é gratuita e acontece entre seus conhecidos, vizinhos e para ex-colegas da Fundação Casa, onde se aposentou.

O uso de máscaras caseiras foi recomendado pelo então Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, cujo cargo é agora ocupado por Nelson Teich, após decisão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A medida tem a intenção de evitar a compra dos modelos cirúrgicos, que devem ser procurados apenas por profissionais da saúde.

O  objeto de proteção, antes facultativo, é agora uma recomendação a toda a população, sendo um modo de diminuir a disseminação de casos assintomáticos ou pré-sintomáticos.

Dona Elaine durante a criação das máscaras de proteção, no Parque Peruche (z/n)

Crédito: Juliana dos Santos


No caso da Dona Elaine, que costura há mais de 15 anos, quando as pessoas buscam as máscaras ela já começa uma nova remessa. O trabalho voluntário, no entanto, é realizado em etapas. Ela mescla a confecção aos serviços de casa e outras tarefas, por necessidade e cuidado com a saúde. 

“Eu costuro um pouco, faço comida. Dou uma cochilada, limpo a casa. Tudo que eu vou fazer em relação à costura eu mesclo”, conta. “Não posso ficar o dia todo na máquina porque tenho outras coisas para fazer e também tenho problema na coluna. Aí começa a doer as costas”, conta. 

O autocuidado também se repete em relação à pandemia em curso. Eliana adotou todas as medidas recomendadas, principalmente as de limpeza, tanto que ri quando lembra da filha, Juliana, dizendo “para com esse negócio de passar cândida toda hora”. 

Além de idosa, a costureira é hipertensa e, portanto, parte do grupo de risco da Covid-19. “Minha filha nem está deixando eu entrar no mercado. Ela vai e eu fico esperando”.

Mas, na visão da costureira, muitas são as pessoas que não acreditam na letalidade da doença na periferia e poucas estão utilizando máscara. “Eu acho que a periferia tem um risco maior em relação ao vírus. As pessoas ficam muito juntas, não tem como distanciar. Eu evito sair e quando eu saio, saio de máscara”. 

Fonte de renda e saúde mental

No Jaraguá, região noroeste de São Paulo, a dona de casa Maria José Benevuto, 66, separou a fronha mais recente que havia comprado. Com suas próprias mãos, costurou a máscara que agora o filho, Rodrigo Benevuto, utiliza diariamente para trabalhar em um supermercado atacadista.

Maria José Benevuto usou fronhas novas para confeccionar as máscaras para seu filho

Crédito: Arquivo Pessoal

“Como estou em isolamento, fiquei preocupada com o Rodrigo, que sai todos os dias para ir trabalhar. Então, resolvi fazer a máscara. Peguei uma fronha nova e fiz à mão mesmo. E ficou boa para ele se proteger”, conta.

A costureira Maria de Lourdes Romão, 61, moradora do Butantã, zona oeste, fez do quarto sua oficina pessoal. Sem tirar as mãos da máquina, nem errar a linha da costura, o desejo de Maria Lourdes soa mais alto que o barulho do equipamento: “Deus vai abençoar e isso (a máscara) vai ajudar alguém”.

A dona de casa, que perdeu a mãe há menos de um mês, tem utilizado o trabalho com os tecidos para atravessar o período do luto.

“Mesmo com uma dor muito grande por conta da minha mãe, eu tento me dispôr. Estou fazendo isso para ajudar alguém. Não pelo dinheiro, mas pela saúde de todo mundo”, explica, enquanto termina a máscara de cor verde dizendo “tudo vai dar certo”.

O custo da unidade é de R$5 e as encomendas de vizinhos não param de chegar. A princípio, a dona de casa não queria sequer cobrar, mas a filha a convenceu, já que, com a crise de saúde, a renda familiar também ficou comprometida.

“Tudo isso está prejudicando a gente financeiramente. Então, combinamos dela fazer as máscaras, e eu conversar com as pessoas [para divulgar]. A gente tem uma parceria, sempre fizemos artesanato”, conta a filha, Luana Romão.

Maria de Lourdes Romão perdeu a mãe há poucas semanas e costurar tem sido uma distração

Crédito: Arquivo pessoal

A esperança carregada nas mãos de Maria de Lourdes se repete também nas de Quitéria Gomes, 48, em Osasco, na grande SP.  Ela resgatou a máquina de costura que estava guardada e colocou as mãos na massa.

Com vergonha, permitiu que a filha gravasse um vídeo mostrando o processo, mas preferiu não falar, porque não gosta de aparecer. A importância da feitura das máscaras, no entanto, é sentida na voz da filha, a jornalista Ariane Gomes, 25.

“É mais uma forma de proteção para mim e para a minha família. Meu pai é hipertenso e minha irmã mais nova tem problemas respiratórios. Então, toda forma de proteção que temos acesso contra o coronavírus, nós estamos adotando”, conta Ariane, que entende o processo como uma distração para a mãe, que reutilizou materiais que já tinha.

O Ministério da Saúde adverte: faça sua própria máscara

Procure as costureiras da sua região, comércios ou faça você mesma

Crédito: Juliana dos Santos

“O processo de elaborar a máscara é muito acessível. Na internet, é possível encontrar com muita facilidade. Cada um consegue fazer, desde que tenha tecido e faça testes, para ver se o tecido suporta um espirro, por exemplo. A gente está fazendo teste com desodorante sem odor. Espirramos no tecido para ver se passa. Se não passar, está bom pra ser utilizado”, Luana Romão recomenda.

No começo de abril, a Anvisa publicou um material trazendo orientações sobre a confecção e o uso de máscaras caseiras ou artesanais feitas com tecido. O objetivo da organização é estimular a população a encontrar caminhos de baixo custo para se proteger contra o vírus.

O guia mostra também quais tipos de tecidos podem ser utilizados, quais são os procedimentos de produção, os cuidados e a forma adequada de uso de máscara caseira ou artesanal. Há, ainda, dicas sobre o manejo, limpeza e descarte do material, como não compartilhar sua máscara, adotar medidas de higiene e realizar descarte adequado.

Algodão

A máscara deve ser feita nas medidas corretas para cobrir totalmente a boca e o nariz, sem deixar espaços nas laterais. Deve ser confeccionada com tecido confortável e adaptar-se bem ao rosto, para evitar sua recolocação toda hora.

Para a confecção da máscara, são recomendados tecidos 100% algodão ou cotton. Também pode ser utilizado o “tecido não tecido” (TNT), feito de material sintético, desde que o fabricante garanta que o produto não causa alergia e seja adequado para uso humano. Devem ser evitados os materiais que possam irritar a pele, como poliéster puro e outros tecidos sintéticos.

Cuidados

As máscaras podem ser feitas em casa, adquiridas no comércio ou diretamente de artesãos. É importante lembrar que seu uso é por um período de poucas horas, em situações de saída da residência, e sempre se respeitando a distância entre as pessoas. Além disso, não devem ser manipuladas enquanto a pessoa estiver na rua e, antes de serem retiradas, deve-se lavar as mãos.

Sobre o vírus 

O coronavírus pode ser espalhado por gotículas suspensas no ar quando pessoas infectadas conversam, tossem ou espirram. Essas gotículas podem ter sua formação diminuída pelo uso de máscaras não profissionais.

Passo a passo para produção de máscaras

O Ministério da Saúde publicou um manual de como produzir máscaras trazendo os seguintes passos, que pode ser feito com uma camiseta ou outros tecidos em bons estados de conservação.

Modelo 1: usando camiseta

 

 

 

 

 

 

  1. Corte a camiseta e espessura dupla usando como base as marcações indicadas
    na figura;
  2. Faça um ponto de segurança na parte inferior (para segurar ambas as toalhas);
  3. Insira um papel entre as camadas;
  4. Amarre a alça superior ao redor do pescoço, passando por cima das orelhas;
  5. Amarre a alça inferior na direção do topo da cabeça.


Modelo 2, usando costura e elástico:

  1. Separe o tecido que tenha disponível (tecido de algodão, tricoline, TNT, outros
    têxteis), se possível, dê preferência ao tricoline.
  2.  Faça um molde em papel de forma no qual o tamanho da máscara permita cobrir
    a boca e nariz, 21 cm altura e 34 cm largura
  3. Faça a máscara usando duplo tecido.
  4. Prenda e costure na extremidade da máscara um elástico, ou amarras.

*Colaboração de Semayat Oliveira 

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