O afeto é, com certeza, um dos elementos que mais sintoniza as mulheres negras à poética musical de Luedji Luna. Em seu novo álbum “Bom Mesmo é estar Debaixo d’água” isso fica ainda mais evidente, com participações de outras artistas, escritoras e poetas que ampliam ainda mais a força poética da cantora baiana.

No 9º episódio do Conversa de Portão, Jéssica Moreira conversa com a cantora, compositora e poeta Luedji Luna sobre a feitura do álbum visual, como tem sido conciliar a maternidade com o trabalho em meio à pandemia e a potência da música e da poesia para as mulheres negras.

“A escrita me salvou, me tirou de um buraco, de um vazio existencial, de um silenciamento num contexto opressivo e racista que é a escola”, afirma a cantora. “Escrevia desde criança, desde adolescente, para poder existir. Porque ninguém me ouvia, eu era uma planta. Então a escrita tem esse papel muito importante, mas venho de uma cidade musical, de uma casa que se ouviu muita música. Tem uma questão mesmo que orgânica, a minha voz ressoa dessa maneira e eu transformei minha escrita em música”, conta ainda a compositora durante a conversa.

Nesse novo álbum, Luedji deixa sua poética mergulhar ainda mais fundo na afetividade, trazendo também referências literárias como Cidinha da Silva, Conceição Evaristo e Tatiana Nascimento, todas escritoras negras braisleiras contemporâneas. Mesmo cheia de poesia, a música de Luedji é também política, assim como era uma de suas maiores referências, Nina Simone.

“A Nina para mim é uma grande referência. Quando assisti ao documentário dela eu chorava, chorava, chorava. Aí vi de novo para compreender a existência dessa mulher”, explica. “Porque é musicalmente completa, poeticamente completa, e o que ela escolheu ser enquanto artista, ser esse corpo político: usar as palavras naquele contexto, fazendo isso deliberadamente, propositalmente, entendendo qual é a sua responsabilidade”.

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