Saída do Metrô Liberdade, Santiago do Chile. Foi neste cenário cercado de paredes gritando por mais direitos que encontrei Paola Palacios pela primeira e única vez, em fevereiro de 2020. Não sabíamos, mas, dali a dez dias, o mundo ficaria suspenso em decorrência da pandemia de Covid-19.

Só nos veríamos depois por chamadas à distância, via WhatsApp. Eu no capenga isolamento brasileiro, ela na rígida quarentana chilena. Ambas vivenciando os desafios de sermos mulher, negra e latino-americana em meio à crise social e sanitária.  

Naquele dia, caminhamos por muitas ruas centrais. No caminho, iámos conversando sobre os processos revolucionários que o Chile vivia desde outubro de 2019, vendo, ao vivo, a insatisfação do povo nos lambes, grafites e pixos que compunham, desde então, a paisagem santiaguina.

Plebiscito agora. Esta é a normalidade, as ruas são nossas. ACAB (All Cabs are bastards, todos os policiais são bastardos)”

Os muros traziam denúncias contra as desigualdades sociais ligadas ao sistema previdenciário, à privatização da saúde e da educação e como o poco aguardava ansiosamente pelo plebiscito que votaria novo formato de constituição no país em abril.

Não deu tempo. A pandemia arrastou o plebiscito para 25 de outubro. E o povo chileno, aguerrido que é, compareceu em peso às urnas e mais de 5 milhões de pessoas enterraram de vez a Constituição Federal que havia sido criada em 1980, durante a ditadura de August Pinochet. Agora, Paola e as demais companheiras negras e imigrantes pretendem eleger mulheres afro-chilenas para ocupar uma das 156 cadeiras constituintes que irão escrever a nova carta fundamental.

Da Colômbia ao Chile: uma vida em movimento

Mas naquele dia de fevereiro, no entanto, Paola estava animada. Ao chegar em sua casa, cozinhamos juntas e recebemos mais outras 8 mulheres, algumas integrantes da Negroxentricxs, coletivo fundado por Paola em 2018 para acolhida e luta de direitos de mulheres negras imigrantes. Todas afro latino-americanas. Peru, Chile, Colômbia, Brasil. Um sentimento de pertencimento me tomou. Ao estar em outro país entendemos e nos sentimos pertencentes a um território simbólico que é ser uma mulher, negra, latino-americana, trocando vivências e experiências.

Encontro do Nós, mulheres da periferia com Negrocentricxs, em fevereiro de 2020

Crédito: Arquivo pessoal

Nascida no povoado de Quibdó, Chocó, Colômbia, localizado no pacífico, onde o número de negros é muito maior quando comparado ao restante do país, foi ainda na infância que Paola iniciou sua andança migrante.

Junto à sua mãe, uma empregada doméstica, Paola passou por diversos locais colombianos, andou de mochila pela América Latina e hoje é uma das lideranças das mulheres negras migrantes no Chile.

Com uma infância permeada até mesmo na selva colombiana, onde sua avó vivia, Paola logo cedo experimentou as faces do racismo, quando chegou a uma escola onde ela e o filho da patroa de sua mãe eram os únicos pretos.

Colombiana, Paola chegou no Chile em 2017 em busca de melhores condições de vida.

Crédito: Jonathan Contreas

“Em Cocorná (Colômbia), me dei conta que era negra. O povoado era muito pequeno, e nós éramos as únicas  quatro pessoas negras do local. No caminho, as pessoas ficavam nos olhando pela janela e, na escola, tocavam minha pele e cabelo. Algo muito estranho. Mas minha mãe sempre disse para eu caminhar e olhar para a frente, assim eu não olhava para as pessoas”.

“Nascer no corpo de uma pessoa negra e ter relacionamentos branco faz você ter que se defender sempre.

Agora, já adulta, consegue entender que o racismo sempre permeou suas relações, mesmo quando não era tão perceptível. “Nascer no corpo de uma pessoa negra e ter relacionamentos com pessoas brancas faz você ter que se defender sempre. Desde muito pequena eu tenho lembranças de me defender por ser negra. Eu fui a única negra de todos os espaços onde estive sempre. Por sorte, eu tive uma mãe negra muito consciente. Eu dizia que as crianças riam do meu cabelo e ela dizia que ninguém poderia rir de mim, da minha boca, do meu nariz, da minha pele”.

Dos 12 aos 17, limpava os salões da escola adventista onde realizou o Ensino Fundamental e Médio, já que sua mãe não tinha condições de pagar a escola de maneira integral. Depois, foi com uma bolsa do governo que Paola alcançou o Ensino Superior em Design gráfico.

Com as difíceis condições salariais e de vida na Colômbia, em 2016, Paola decidiu sair de seu lugar de origem iniciando uma saga por Peru, passando pelo Equador e Bolívia até chegar no Chile, em 2017, onde fez dos desafios encontrados no meio do caminho sua militância em prol da vida de mulheres  imigrantes no país sul-americano.

Racismo e xenofobia andam juntos 

Quando chegou ao Chile, tinha apenas 20 mil pesos (o equivalente a R$ 100) e uma amiga, com quem dividia a procura de casa. Seu primeiro trabalho foi na periferia chilena, em um espaço onde só contratavam imigrantes sem documentação. Logo percebeu que faziam isso porque assim podiam organizar o trabalho daquelas pessoas da forma como bem entendiam.

Foi nesse período que ela começou a enfrentar as faces do racismo unidas às da xenofobia no Chile. “Desde o primeiro dia no país, já senti o racismo. Depois, comecei a me dar conta do tema racial andando pelas ruas. Eu ouvia coisas como ‘você é prostituta, volta para seu país’. Aqui, as pessoas olham para você em excesso, os assentos ao meu lado no metrô nunca eram ocupados, por exemplo.”

Em outra ocasião, já trabalhando como designer em uma papelaria, Paola notou que os clientes preferiam pegar mais fila para serem atendidos por outro funcionário, em vez de optar por seu atendimento.

“O mais complexo de migrar é a falta de redes. Você chega, não conhece absolutamente nada. Não consegue emprego, não consegue uma casa para morar, não tem com quem contar.”

“Falavam que não iriam se atender com uma mulher negra. Certa vez, um homem começou a cantar para mim no balcão ‘por que não vai embora, por que não vai embora’. Eu me levantei e perguntei se ele estava falando comigo, então ele respondeu que não sabia por que existiam tantos negros na cidade. Eu comecei a gritar, enquanto ele me xingava de ‘negra morta de fome’. Foi horrível. E o chefe ainda o defendeu, dizendo que eu não poderia gritar com os clientes. Eu fui embora. Aqui, a xenofobia e o racismo andam juntos”.

Unido a isso, ela também enfrentou o machismo de alguns homens, que aparentemente diziam que iriam ajudá-la, mas tinham outras intenções, beirando o assédio sexual. Paola conta que isso é muito comum no país, uma vez que as mulheres chegam sozinhas e sem redes de apoio.

“O mais complexo de migrar é a falta de redes. Você chega, não conhece absolutamente nada. Não consegue emprego, não consegue uma casa para morar, não tem com quem contar. Eu tive até ataques de pânico. Tinha vontade de chorar repentinamente e isso perdurou por muitos meses”.

Redes de acolhida e movimentos sociais

Em 2017, conheceu outras mulheres imigrantes e, por meio de eventos sobre cabelos afro, passaram a se reunir em coletivo. O primeiro deles foi o Mulheres Negras Empoderadas. Por conta de objetivos distintos de suas integrantes, o coletivo logo se rompeu.

“Eu estava em busca de uma comunidade para as mulheres como eu, que haviam chegado e se sentiam sozinhas. E estar em uma coletividade era uma maneira de estar próxima de mulheres que haviam vivenciado as mesmas experiências. Eu não queria isso e me retirei”, conta.

Foi em uma marcha para imigrantes que ela viu uma pessoa carregando uma placa que dizia “nenhum ser humano é ilegal” e iniciou uma conversa, que a aproximou da presidente da Coordenação Nacional de Migrantes no Chile.

Ela, que nunca tinha feito parte de movimentos sociais antes, foi encontrar no país chileno sua entrada nesse novo universo. De princípio, as reuniões longas e cheias de egocentrismos dos homens a fatigava, fazendo-a se integrar com outras mulheres, fundando a Secretaria de Mulheres Imigrantes do país.

“Criamos uma ala feminina de mulheres imigrantes. De princípio, era um grupo de mulheres que se reunia para chorar e falar mal do Chile. Nos reuníamos de casa em casa para realizar a troca cultural e conhecer algo típico da cultura uma da outra. Conheci mulheres de todos os lugares. Começamos a militar fortemente, organizar marchas, a estudar os feminismos e compreender melhor quão precária era a situação das mulheres imigrantes aqui”, conta.

“As mulheres imigrantes mais precarizadas, as babás, as que trabalham nas ruas, se você fala sobre feminismo, elas correm. Por isso, começamos a falar de movimento de mulheres e de emancipação feminina.”

Entenderam nesse processo que as mulheres que chegavam no país não tinham necessariamente formação política prévia e que, por isso, teriam que ser mais estratégicas para conseguir chegar nas que mais precisavam de apoio. “As mulheres imigrantes mais precarizadas, as babás, as que trabalham nas ruas, se você fala sobre feminismo, elas correm. Por isso, começamos a falar de movimento de mulheres e de emancipação feminina, a partir de atividades que aproximava mais mulheres”.

Negrocentricxs

Depois, sentiu ainda a necessidade de afunilar as discussões e conexões e se aproximou de outras mulheres negras, tentando entender as particularidades do racismo e xenofobia para essas mulheres especificamente.

Foi em busca de trocas ainda mais significativas que Paola e outras mulheres negras criaram, em 2018, o coletivo Negrocentricxs. Formado apenas por mulheres negras, em sua maioria imigrantes, mas também afrochilenas, a coletividade tem como propósito acolher as mulheres negras de outros países que chegam no Chile.

“Não temos um projeto que seja uma camisa de forças, mas é um guia de projeto para todas que integram o Negrocentricxs. Participamos de marchas, realizamos encontros e também nos conectamos com outros movimentos da América Latina. Em 2019, fui para o Uruguai em encontro com Angela Davis junto às Miçangas, um movimento de Montevidéo”.

Lambe de protesto nas ruas chilenas (2020).

Crédito: Jéssica Moreira/NMP

As mulheres negras nas manifestações de 2019

Quando as manifestações chilenas de 2019 tiveram início, em outubro, Paola e as demais companheiras de coletivo iam quase todos os dias às manifestações. Em novembro, no entanto, ela começou a se dar conta do risco que corria, já que a violência policial estava ainda pior com a continuidade dos atos.

“Aqui, se você não é branco ou com um sobrenome conhecido, a polícia te massacra. Esse tipo de violência foi instaurada no Chile durante a Ditadura de Pinochet. É uma forma de controle da população e também uma forma bem patriarcal”.

Assim, o papel das coletividades, para além de ir às manifestações, foi o de organizar as mulheres territorialmente, a partir de assembleias menores pelos bairros com a temática dos direitos das mulheres.

Solidariedade feminina na pandemia

Com a pandemia, o trabalho mudou de forma. Em março, tiveram que transformar as lutas nas ruas em redes de solidariedade capazes de dar uma resposta mais imediata para as populações que mais precisam.

Mesmo tendo mantido um lockdown rígido nos últimos meses, permitindo apenas três horas em local público mediante autorização prévia, o país ocupou os primeiros lugares no ranking de mais contaminados do mundo, retrato da política privatista de saúde que vinha sendo denunciada nos protestos.

“O governo usou a pandemia para fazer controle social. Para que um fuzil em meio a uma pandemia? É uma forma de controle, já que eles estavam diante de um levante social”.

Diante da situação, movimentos sociais recorreram às cooperativas organizadas também por imigrantes, que realizaram as entregas de alimentos e de itens de higiene diretamente para as famílias que precisavam. “Colocamos nas cestas produtos elaborados por outras mulheres imigrantes, fazendo um circuito de apoio e colaborando com a economia entre as próprias pessoas imigrantes”.

Com o assassinato de George Floyd, em maio de 2020, Paola e suas companheiras viram a questão racial também se ampliar no Chile, fazendo com que o Negroxentricxs fosse visto pela primeira vez pelas mídias tradicionais e população como um todo. O Instagram do coletivo passou de 3.500 seguidores para 17 mil só neste ano.

“Nós, ativistas negras, já estávamos aqui durante muito tempo nos defendendo das violências de raça, classe e gênero. As pessoas olham para os Estados Unidos, mas esquecem que aqui também são mortas pessoas negras pelas mãos da polícia”, explica.

Diante do ocorrido nos Estados Unidos, as integrantes do grupo aproveitaram a situação para contextualizar o racismo territorialmente, apontando em artes gráficas nomes de casos recentes. Com isso, alcançaram um público ainda maior e agora têm utilizado esse espaço para ampliar as discussões antirracistas no país.

 

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⚠️Nos sumamos a la indignación mundial por el asesinato a sangre fría de George Floyd a manos de Derek Chauvin, el SUPREMACISTA BLANCO, parte del personal de policía de Minessota, quien tenía un historial de denuncias por uso excesivo de la fuerza y abuso de poder, pero a pesar de eso nunca recibió medidas disciplinarias; es precisamente así como opera la estructura racista y capitalista que aniquila nuestras vidas de segunda categoría; mientras sostiene en sus posiciones privilegiadas e incluso premia a los evidentes perpetradores del odio. Consideramos fundamental no extranjerizar el racismo, no alejarlo de la realidad cotidiana en Chile y en el resto de América Latina, es por esto que hemos hecho unas gráficas, refrescando memorias sobre casos de racismo en Chile con resultados fatales para personas negras y otros casos de odio racista. Lo hacemos porque denunciamos a diario la violencia racista culturizada y arraigada en el territorio, denunciamos las políticas asesinas del Estado en contra del pueblo nación Mapuche, la invizibilización histórica del pueblo Afrochileno y de todas las corporalidad que no encajan en la hegemonía que han pretendido establecer como historia única desde la fundación del Pais. Sabemos que la violencia es tanta y los casos muchísimos, que estos rostros representen a todos los que faltan, a quienes sus seres queridos no volverán a abrazar, quienes nos han sido arrebatades por el racismo estructural. Cuestionen también las dinámicas diarias, los ‘chistes’, el día a día y el silencio cómplice de la violencia racista naturalizada. LAS VIDAS NEGRAS IMPORTAN • • Repitan este ejercicio de memoria en cada uno de sus paises y tendremos un mapeo general de lo que sucede con la violencia racista actualmente en la región. • • Favor difundir 📣 [En la primera imagen, Corregimos la edad que tenía Joane Florvil al momento de su muerte, tenía 27 años. Pedimos disculpas] #lasvidasnegrasimportan #blacklivesmatter #antirracismo #negrocentricxs #redmujeresafrodoasporicas #feminismonegro

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“Existe um não reconhecimento das pessoas negras no Chile, como se aqui não existissem negros. Com a visibilidade que alcançamos, estamos nos organizando para ser um projeto ainda maior e levar essa discussão mais adiante”.

 

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