Garis, varredoras e demais profissionais de coleta de lixo não tiveram pausa. Linha de frente no combate ao novo coronavírus, essas trabalhadoras entendem o papel que desempenham em meio à pandemia, mas contam também sobre os medos e preconceitos que vivenciam diante da crise sanitária.

Segundo a Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (AMLURB), da prefeitura de São Paulo, a capital paulista tem pelo menos 16 mil funcionários trabalhando diariamente para manter a cidade mais limpa.

Nos últimos meses, ao menos 2,2% do quadro de funcionários foi contaminado pela Covid-19, havendo a recuperação de 2,1% e 1 óbito. Entretanto, as trabalhadoras acreditam que os números ainda estão subnotificados.

Esta reportagem faz parte do  ‘Curva das Periferias: Negros e pobres diante da pandemia de Covid-19 em São Paulo’, uma parceria dos portais Nós, mulheres da periferia e Alma Preta. 

‘A gente estava na linha de frente’

Nascida na Bahia e moradora de Itaquera (SP), Bárbara Cristina tem 38 anos. Pelo menos 13 anos da sua vida profissional dedicados à limpeza de ruas da região leste paulistana. Hoje é ajudante de serviços diversos no bairro da Penha.

Para chegar às 6h30 ao alojamento destinado aos profissionais da limpeza urbana, Bárbara acorda antes do sol, às 4h30. Por volta das 5h, ainda pelas ruas escuras, ela toma um ônibus e, dentro de 1h, lá está ela.

“Senti muito medo, já que estávamos em guerra contra um inimigo invisível”, contou Bárbara

Crédito: Arquivo Pessoal

“Chego no alojamento 15 minutos antes, às 6h15. Me troco e um caminhão leva a gente para os lugares onde o trabalho será feito no dia. Eu trabalho na equipe de pintura. Quando você passa e vê poste e quina da calçada toda branquinha, é a gente que fez”, diz, orgulhosa.

Com ou sem pandemia, essa é a sua rotina. O que mudou, no entanto, é o medo de se contaminar pelo Covid-19 ou ainda levar o vírus para dentro do lar, que sustenta sozinha e divide com os três filhos.

“O portão de casa é do lado da máquina de lavar. Minha filha já deixa o chinelo na porta, tiro a roupa, o tênis, entro no banheiro de fora. Só depois abraço os filhos”, lamenta. “Senti muito medo, já que a princípio estávamos em uma guerra contra um inimigo invisível. Meu medo era levar o vírus para a família”, diz. “Mas a limpeza urbana não pode parar”, completou.  

‘Trabalho importante para a cidade, na pandemia ou não’

Mesmo sendo moradora do Rio de Janeiro, a situação da revitalizadora de praças Valdenise Brandão Ferreira, 37, da empresa Colurb (Companhia Municipal de lImpeza Urbana do RJ), não é diferente de suas colegas de profissão de São Paulo. 

“Quando chegou a pandemia, todos nós ficamos um pouco assustados e com medo. A empresa afastou todos os funcionários de grupo de risco e os demais continuaram a trabalhar. Trabalho que é importante para a cidade, seja na pandemia ou não”.

A trabalhadora ainda está vivendo o luto de um tio e de uma tia que faleceram em decorrência da Covid-19. “Mas mantive minha prevenção. O risco é tanto no trabalho quanto na condução, de ida ou volta do trabalho ou uma simples ida no mercado. Não existe uma segurança máxima desse vírus. Somos todos vulneráveis”, conta.

 

Valdenise e colegas de trabalho durante seu expediente, no Rio de Janeiro

Crédito: Arquivo Pessoal

Daniela de Souza, 33, coletora na região da Vila Mariana, zona sul de SP, e uma das diretoras da SIEMACO (Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Prestação de Serviços de Asseio e Conservação e Limpeza Urbana de SP), lembra que, embora não sejam reconhecidos como os médicos e enfermeiros foram, os profissionais da limpeza urbana também cumpriram um papel importante no combate ao vírus.

 “Tem um Brasil que esqueceu que ainda estamos em uma pandemia”, disse Valdenise

“Quando falamos de limpeza urbana, estamos falando de saúde pública. Nossos trabalhadores não são diferentes dos médicos e enfermeiros. O trabalhador da nossa categoria esteve todo o tempo na rua, fazendo coleta debaixo de sol ou chuva e não parou. Também somos linha de frente”, ressalta a diretora.

Assim como Bárbara e Valdenise, ela acredita que um dos maiores desafios enfrentados desde o começo da pandemia tem sido o medo da contaminação.

“Isso porque o profissional está exposto ao problema e tem medo de levar esse vírus pra casa. Medo de pegar o transporte público lotado, mas pega lotado, expondo a si mesmo e expondo a família”.

“Mesmo que velado, o preconceito existe”

Ela relata que, durante os meses mais críticos de pandemia, os trabalhadores contaram diversos casos de estigma e preconceito. 

“No período de pandemia, a população tem reconhecido o trabalho dos coletores e até agradecido. Mas o preconceito ainda existe. Tivemos relatos de trabalhadores que tiveram que sair de restaurantes por conta do preconceito, porque as pessoas achavam que iriam pegar o vírus. O que é uma inverdade. Mesmo que velado, o preconceito ainda existe”, diz.

Bárbara se lembra que, no início do distanciamento social, as pessoas brigavam com ela, dizendo que deveria ficar em casa. “Mas a gente não podia parar. Não tem como deixar a cidade suja. Mas as pessoas não entendiam isso. Ouvi até palavras que não gosto de lembrar. Chamavam a gente de vagabundo, dizendo que poderíamos contrair o vírus. Eram pessoas desinformadas”, diz.

‘Somos minoria nessa luta a favor da vida’, disse Valdenise

Crédito: Arquivo Pessoal

Agora, com a reabertura quase que completa dos estabelecimentos tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, Valdenise receia que parte da população esqueça que ainda estamos em uma pandemia.

Segundo o consórcio de veículos de mídia, até esta sexta-feira (2), o Brasil contabilizou 144.767 mortes por Covid-19. Mesmo em queda, o estado de São Paulo tem 35.804 óbitos. A capital carioca soma 18.567.

“Tem um Brasil que esqueceu que ainda estamos em uma pandemia. As pessoas estão  lotando praias, restaurantes, bares e a gente continua se prevenindo. Em alguns casos, preciso ser assertiva com moradores.Tinha morador querendo chegar perto da gente e falar sem máscara”, relata. 

“Às vezes, peço a eles respeito e distância. Respeite a nossa opinião e mantenha distância, porque nossa equipe mantém distância. Estou ali para proteger a minha vida e a vida das pessoas que eu amo. Inclusive as deles. Esse vírus não está estampado na cara. Faço a minha parte. Mas somos minoria nessa luta a favor da vida”, diz a funcionária carioca. 

Desemprego em plena pandemia 

Algumas das medidas adotadas por algumas empresas da limpeza urbana de São Paulo foi afastar funcionários que integravam o grupo de risco ( pessoas com mais de 60 anos ou com doenças crônicas).

Gilvanete Francisca dos Santos, de 59 anos, não tinha nenhuma doença respiratória crônica, mas como estava próxima de completar 60 anos, foi dispensada. Diferente de outros colegas que foram afastados, a empresa com a qual mantinha vínculo há 10 meses, a Corpus, a demitiu.

Ainda hoje, ela acorda cedo e, mesmo não tendo a obrigação e não recebendo nada por isso, deixa sua própria rua livre de acúmulo de lixo/ Créditos: Projeto Varre Vila

Crédito: Projeto Varre Rua

Gilvanete faz parte dos 13, 1 milhões de desempregados no Brasil, segundo dados da Pnad Contínua divulgada esta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A taxa de desemprego de 13,8% no trimestre encerrado em julho, ou 13,1 milhões de pessoas, é a pior desde que a pesquisa foi iniciada, em 2012.

“Trabalhei na pandemia, depois falaram que a minha idade era de risco e me mandaram embora. Acho que eles queriam escolher alguém para demitir. Eu não tinha problema de falta, por exemplo”. 

Moradora da Vila Santa Inês, em Ermelino Matarazzo, zona leste de SP, Gilvanete tem 3 filhos e 4 netos que vivem todos debaixo do mesmo teto. Com os filhos desempregados, é o seguro-desemprego de Gilvanete e a doação de cesta básica do Centro da Criança e do Adolescente (CCJ) que tem mantido a família.

“Estão dependendo do que eu ganho porque estão desempregados. O dinheiro do seguro eu pago as contas e gás. O resto a gente se vira como pode”, diz a senhora, que colabora com as contas de casa reunindo óleo usado dos vizinhos para a produção de sabão e outros itens de limpeza para vender, como um desinfetante nomeado por ela de “maridão”, que limpa tudo na casa. 

“Tem que lutar, não pode abaixar a bola. Se abaixar, dá depressão. Eu num tava nem conseguindo dormir pensando no desemprego, quando mandaram embora. Não vou conseguir emprego fácil, tenho glaucoma em um olho, artrose no joelho de tanto andar pelas ruas e agora vou ter dificuldade de conseguir a aposentadoria”, diz, preocupada.

Trabalhadora da área de limpeza urbana há quase 9 anos, Gilvanete começou sua trajetória no ramo no projeto Varre Vila, que tem como propósito empregar moradores locais e realizar ainda um trabalho de conscientização ambiental.

Com a terceirização e troca de empresa em 2019, passando funcionárias para a empresa de serviços Corpus, Gilvanete também foi realocada. Deixou de trabalhar em sua própria vila e passou a limpar as ruas de outras regiões.

“Tem que lutar, não pode baixar a bola. Se baixar, dá depressão”, afirmou Gilvanete

Crédito: Arquivo Pessoal

“O que é bom e ruim do meu trabalho? Eu adorava quando chegava meu horário de ir trabalhar. Eu entrava até mais cedo para adiantar o serviço, que era feito com amor porque eu gostava de fazer. A parte ruim é ficar desempregada como estou agora”, diz. 

O costume em varrer sua própria vila quando estava no projeto ainda a acompanha. Ela acorda cedo e, mesmo não tendo a obrigação e não recebendo nada por isso, deixa sua própria rua livre de acúmulo de lixo. Segundo ela, o serviço público não faz isso.

“Num gosto de ver nada sujo. Vou varrendo. Minha rua está toda limpinha. A comunidade pega mais doença por conta da sujeira que está acumulando”, conta Gilvanete, que se orgulha de seu trabalho, principalmente em dias como esta sexta, no qual a população local organiza cinema a céu aberto para as crianças e a rua precisa estar limpa.“Só não te convido porque você mora muito longe”, diz rindo.

Medidas de proteção 

Segundo nota enviada pela Prefeitura de SP, o serviço de varrição, coleta domiciliar comum e coleta seletiva continuaram operando normalmente durante o período de pandemia, assim como as Centrais Mecanizadas de Triagem da capital, que possuem capacidade para operar 500 toneladas dia (250 cada). 

A AMLURB construiu um plano de contingência de gestão de resíduos sólidos para a cidade, com ações que foram divididas em três etapas: preventivas, administrativas e operacionais. 

Dentre as medidas adotadas, está a higienização dos pontos de apoio das áreas de utilização comum, como banheiros, corrimão, maçanetas, mesas, cadeiras, lavagem de todas as dependências com desinfetantes e cloro. O sindicato, por exemplo, colaborou distribuindo 100 mil kits de álcool em gel e máscaras para os trabalhadores da categoria. 

“Além disso, houve um escalonamento dos horários de entrada e saída para evitar aglomerações nas áreas de uso comum. Os funcionários também receberam máscaras de proteção facial e álcool gel para utilização nos trajeto até a residência e durante o trabalho”, aponta a nota enviada pela assessoria da prefeitura.
____

Esta reportagem faz parte do  ‘Curva das Periferias: Negros e pobres diante da pandemia de Covid-19 em São Paulo’, uma parceria dos portais Nós, mulheres da periferia e Alma Preta.

Temas: