Diversas ações e campanhas na internet têm dado visibilidade às candidaturas negras para as eleições de 2020 para vereador e prefeito. Alternativas necessárias, dada a imensa dificuldade enfrentada por essa população que busca espaço para atuar na política institucional.

Confira alguns exemplos de iniciativas que alavancam as mulheres negras no espaço político:

Mulheres Negras Decidem

O coletivo Mulheres Negras Decidem tem amplo trabalho de mapeamento de candidaturas negras e abre espaço para discutir representatividade, racismo e resistência na política.

Com atuação em 16 estados brasileiros, esta iniciativa está longe de ser apenas um trabalho de divulgação de candidatas. Em apresentação do projeto, elas explicam que “por um ponto de vista geopolítico, também ampliamos nosso horizonte de reflexões, com um conjunto de novas preocupações e soluções inovadoras a partir de nossas visões”.

Ainda atuam com formação política, e produzem importantes relatórios e pesquisas de dados acerca do assunto.

 

Bancada dos Sonhos

 

A Bancada dos Sonhos é formada por candidatos fictícios para tratar de uma maneira lúdica projetos nas diversas áreas sociais e que têm plena viabilidade no mundo real.

Essa proposta demonstra como os problemas sociais mais graves nos setores de saúde, mobilidade, emprego, meio ambiente e segurança alimentar, por exemplo, podem ser solucionados se forem temas prioritários na gestão municipal.

A iniciativa faz parte do Laboratório de clima da Purpose, e as propostas da bancada têm como base agendas criadas da sociedade civil, como as propostas do Nossa BH, da Rede Nossa SP, da Agenda 2030 da Casa Fluminense e da Agenda Urbana do Clima.

 

Voto Antirracista

Idealizado por Fernando Xavier, a campanha #VotoAntirracista foi criada para fomentar a candidatura de pessoas pretas, em São Paulo.

A campanha explica quais os papéis dos cargos públicos e realiza lives com candidatos negros, em maior parte mulheres, para que as propostas sejam compartilhadas e o debate sobre representatividade no poder público alcance a maioria da população.

 

Enegrecer a Política

Enegrecer a Política é uma campanha permanente, um trabalho realizado com a participação de importantes organizações do movimento negro e de mulheres com o objetivo de ocupar os espaços de decisão e de poder com as pessoas negras.

Além disso, também discutem a urgência de “democratizar a democracia” e disputar espaços com trabalho de formação e conscientização. O mapeamento de candidatas para o ano de 2020 é bem acessível, com opção de selecionar filtros por estado, cidade, tipo de chapa, gênero e partido.

 

Campanha #EuVotoEmNegra

Mais que uma hashtag, a ‘Eu Voto Em Negra’ se propõe a receber propostas das candidaturas negras para fortalecer campanhas políticas que defendem os Direitos Humanos, pautas feministas e antirracistas.

Eu Voto Em Negra faz parte do Projeto Mulheres Negras e Democracia. A hashtag é utilizada nas redes sociais para que sejam compartilhadas opções de voto e propostas políticas.

Uma série de vídeos, intitulada “Sou negra e candidata nas Eleições” foi publicada nas redes sociais da campanha.

 

Representatividade

O Movimento Mulheres Negras Decidem apresentou dados sobre a falta de representatividade negra na política.

Em 2016, segundo a organização, o número de candidatas negras não chegou a 5%.

Apesar de a maioria da população ser composta por negras e negros –  e portanto o eleitorado mais quantitativo – os cargos públicos não representam essa maior parcela da sociedade.

De 2016, último ano eleitoral, para este ano, foi constatado um tímido aumento de 1,4 porcentual nas candidaturas de mulheres negras.

Os partidos e as candidaturas negras

Muitas dificuldades são enfrentadas também dentro de partidos progressistas e de esquerda. Para Ingrid Limeira, conselheira tutelar e especialista em Direito das Diversidades, há problemas no impulsionamento das candidaturas negras “porque falta o reconhecimento da estruturação e institucionalização da desigualdade racial”. Para resumir, ela destaca uma frase da ativista negra Sueli Carneiro: “entre a esquerda e a direita, continuo negra”.

“É preciso reconhecer que o problema do Brasil é a desigualdade racial, e uma grande parte da esquerda, principalmente os Marxistas, não reconhece isso. Para esta parcela é uma questão de desigualdade social, sem colocar em xeque que as pessoas são pobres exatamente por serem negras”, afirma.

Branquitude e democracia não combinam

O Movimento ‘Mulheres Negras Decidem’ denunciou também que, em 2014, as mulheres negras que se candidataram para o cargo de deputado federal foram 12,6%, com eleição de 1,9%. Mulheres brancas candidatas ao mesmo pleito foram 16,4%, com 8% eleita.

As mulheres brancas tiveram, portanto, 3,2 vezes mais chances de serem eleitas que as negras. E no mesmo ano, o investimento para candidaturas de mulheres negras representou apenas 2,51% das despesas de todos os candidatos ao Legislativo.

A respeito dessa desigualdade, Ingrid Limeira explica que, para as mulheres negras, além do machismo, há o racismo e a desumanização, marcado pelo processo de escravização da história do país.

“Candidatas brancas também precisam reconhecer este lugar de privilégio. Discutir racismo é importante, porém mais importante é discutir a insistência da branquitude em não reconhecer seus privilégios. Sem essa pauta em foco, não poderemos nunca nos intitular como democráticos.”

 

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