A amamentação é a medida isolada que mais combate a mortalidade infantil em todo o mundo. Garante a nutrição completa da criança, protege contra várias doenças, impacta no desenvolvimento infantil e previne, ainda, de enfermidades crônicas na vida adulta.

Não há dúvidas sobre os benefícios do leite materno, mas em tempos de pandemia, muitas mulheres e famílias estão em dúvida sobre seguir ou não com a amamentação em caso ou suspeita de Covid-19.  

Para entender isso melhor, conversamos com a pediatra Sonia Venâncio, diretora-assistente do Instituto Saúde. Embora o Sars-Cov-2 tenha sido detectado em poucas amostras de leite materno até o momento, não existem evidências científicas de que a Covid-19 possa ser transmitida pelo leite materno, explica.

Você sabia? A amamentação pode evitar, por ano, a morte de 1,3 milhão de crianças menores de 5 anos Fonte: Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) realizada até os 6 meses de vida.

“Um estudo publicado no Lancet em julho deste ano acompanhou 120 recém-nascidos, filhos de mães portadoras de Covid-19 que foram amamentados com medidas de prevenção do contágio pela via respiratória e nenhum deles testou positivo para Covid-19 ao final de duas semanas”, explica Venâncio.

Ela também relembra que, crianças que contraem a Covid-19 tendem, em sua maioria, a desenvolver formas brandas da doença. Sendo assim, a recomendação da Organização Mundial da Saúde e do Ministério da Saúde para as mães com suspeita ou confirmação da Covid-19 é que elas amamentem

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) as recomendações sobre a amamentação devem ser baseadas em uma consideração completa, não apenas dos riscos potenciais da infecção da criança por Covid-19, mas também dos riscos de morbimortalidade associados à não amamentação e ao uso inadequado de outros leites.

Como amamentar em caso de Covid?

De acordo com a OMS, as mães não devem ser separadas dos bebês a não ser que estejam muito doentes para cuidar da criança. Isso porque o toque e o contato da mãe com bebê é fundamental para seu desenvolvimento. A organização recomenda também outras medidas, como:

  • Amamentar recém-nascidos com suspeita ou confirmação de Covid-19 dentro de uma hora após o nascimento;
  • As mães devem ter a entrada assegurada nas UTIs neonatais caso o bebê precise de cuidados;
  • Caso o estado de saúde da mãe for grave e impedir que ela amamente seu bebê, o recomendado é que ela retire o leite e este seja oferecido com segurança à criança. Se isso não for possível o indicado é prover a alimentação com leite de outra doadora;
  • Se a mãe tossir, ela deve ser ajudada a limpar o peito com água e sabão antes de amamentar;
  • A mãe não deve deixar de amamentar seu filho mesmo em caso de não ter máscara.

Amamentar não é uma questão individual

Martin, hoje com quatro meses, mamou na primeira hora de vida, chamada de “golden hour”. A prática auxilia nas contrações uterinas, diminuindo o risco de hemorragia pós-parto.

Crédito: arquivo pessoal

“No pré-natal no SUS (Sistema Único de Saúde), eu ficava muito perdida nas informações, era uma consulta muito clínica com o médico. Amamentação era uma coisa que não era nem falada. O médico via se estava tudo bem com os números do bebê e só. Foi no Coletivo Nascer que eu eu fui obter mais informações sobre o parto e amamentação”, conta ao Nós, mulheres da periferia a profissional de relações públicas Bárbara Lima, 27, mãe do Martin, de quatro meses.

“Eu senti muita falta de falarem sobre a questão emocional envolvida no ato de amamentar. Eu ouvia muitos relatos de mulheres que tiveram fissuras, que o leite empedrou, ou deu mastite (inflamação em decorrência da amamentação), coisas físicas que dificultavam o aleitamento”.

Barbara mudou-se há pouco tempo para a Bela Vista, região central de São Paulo. Longe da família, que mora na Vila Medeiros, zona norte de SP, as coisas ficaram ainda mais difíceis quando a pandemia trouxe a necessidade de distanciamento social.

“Nas primeiras semanas, ele ficava horas no peito, eu não tinha mobilidade nenhuma. Era muito cansativo. A pandemia foi o que piorou tudo. Porque além de tudo isso, eu ainda tive que ficar em casa trancada. A gente mora num apartamento pequeno, foi muito difícil”, relembra.

Com o acompanhamento de profissionais e apoio do companheiro, as coisas foram se ajeitando. “A sorte é que estou fazendo acompanhamento com terapeuta, ginecologista e pediatra. Eu consegui passar por isso com uma rede de apoio”, conta. “Por conta da pandemia, ninguém pode vir visitar, ajudar e somos só nós dois cuidando dele desde o começo. O fato do meu companheiro ter acompanhado tudo desde a gestação, consultas pré natal com esse Coletivo Nascer no pré-natal ajudou”.

Apesar aparente importância da amamentação, muitas atitudes desencorajam o aleitamento materno exclusivo. De acordo com a WABA (Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno), esse cenário relatado por Bárbara é um dos fatores que limitam o tempo voltado ao autocuidado, fazendo com que as lactantes interrompam a produção de leite de forma precoce, devido ao esgotamento. O impacto é ainda maior para mulheres que atuam na informalidade ou que exercem a maternidade solo, acumulando mais jornadas de trabalho.

“Fora a amamentação, todo o resto dos cuidados de uma criança um pai pode fazer”

“Então, ele dividiu a carga comigo nestes quatro meses. Agora está bem mais fácil. À noite ele fica com ele, foi o que fez ser possível eu continuar amamentando”, diz aliviada.

É preciso que os profissionais de saúde, em especial as equipes de Atenção Primária, intensifiquem o apoio oferecido às mulheres, principalmente no início da amamentação, período em que podem ocorrer várias dúvidas e inseguranças”, aponta a pediatra Sonia Venancio, coordenadora de um estudo do Programa Primeira Infância para Adultos Saudáveis (Pipas), divulgado recentemente mostrando que no Ceará apenas 23% dos bebês de seis meses recebem amamentação exclusiva.

Diante da impossibilidade de realizar atividades em grupos de apoio presenciais, a pediatra sugere que outras alternativas sejam pensadas, como atendimentos on-line, visitas domiciliares e mesmo grupos em aplicativos que permitam o contato das mulheres com suas pares e  profissionais de saúde. “É importante que as mulheres recebam todo o apoio dos familiares, que as tarefas domésticas sejam compartilhadas e que elas se sintam seguras e fortalecidas para amamentarem seus bebês”, diz.

Amamentar no Brasil

Mesmo antes da quarentena, os índices já eram baixos, sendo que apenas 40% das crianças com menos de seis meses de idade são alimentadas exclusivamente com o leite materno.

A fala de Bárbara sobre o atendimento e falta informações nas consultas de pré-natal representa a falta de assistência que as mulheres brasileiras recebem quando se trata de aleitamento materno. Em razão da falta de orientação e das poucas condições ofertadas às mulheres, a média de tempo de amamentação no Brasil é de apenas 54 dias – atrás da Índia, Colômbia e Uruguai.

Em post no Instagram, a doula Daniella de Oliveira, afirma que falar de amamentação é, ainda, ter que lidar com o machismo cotidiano, dentro e fora de casa. “O machismo diz que nossos corpos existem para o deleite masculino e, portanto, os seios de fora para amamentar é uma provocação, exibicionismo. Somando-se, no caso das mães negras, ao racismo que hipersexualiza seus corpos.”

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Uma amiga – @18denovembro – levantou uma curiosidade depois de uma simples pesquisa com a #SMAM. Amamentar é privilégio branco? Vamos escurecer os fatos: Na época da escravidão havia uma teoria que dizia que o leite da mulher preta era mais forte (obviamente uma teoria completamente absurda). Então, quando uma escrava engravidava, logo era levada pra casa grande para amamentar e cuidar em tempo integral dos filhos de seus senhores. – uma pequena obs: quando eu digo engravidava, nem sempre por livre espontânea vontade e desejo viu? Mt pelo ao contrário. Nao vamos romantizar algo que infelizmente de romântico nao havia nada. Aquela escrava que era levada pra casa grande, dificilmente tinha contato com seu próprio filho e logo não podia amamenta-lo, que por sua vez era cuidado por outras escravas e alimentado por uma papa de mandioca ou por leite de outros mamíferos, o que contribuía para o grande numero de óbitos 😞. As amas de leite, como eram chamadas essas escravas, nao trabalhavam apenas para seus senhores. Quando alguma família da cidade não tinha nenhuma escrava lactante, amas de leites eram alugadas -EXPLORADAS!-. Seus filhos, quando proibidos de morar com a mãe, eram vendidos, doados, abandonados na rua ou na Roda dos Expostos. Depois do “fim da escravidão” mulheres negras grávidas ou puérperas foram muito “valorizadas” no tráfico interno. Eles consideravam ser rentável ao mercado de escravos, porem, o direito de maternar era negado à essas mulheres. Quando não eram “alugadas”, continuavam a trabalhar. Com seus filhos amarrados no corpo, passavam o seio por cima do ombro ou por baixo do braço para conseguirem amamentar sem interromper suas funções. Esse pequeno resumo só mostra como a maternidade foi negada a nos, mulheres negras, ao longo dos anos. Hoje o cenário tem algumas modificações como o modelo da casa grande, mas mulheres negras e pobres continuam sendo exploradas a cuidarem dos filhos de brancos.

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Mayara Penina

Mayara Penina

Mayara é jornalista e moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

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