Luciene Pereira José da Costa, tem 29 anos, mora em Franco da Rocha, região metropolitana de São Paulo e é técnica em Nutrição e Dietética. Seu relato faz parte do especial “Ser LGBT+ na periferia“. Clique aqui para ler o conteúdo completo

Sou feminista, não monogâmica. Me considero, atualmente, panssexual. Tive uma infância muito sofrida. Fui criada por uma mãe solo, com a ajuda da minha avó e da minha madrinha.

Cresci diante de muitas dificuldades. Mas graças a elas eu estou aqui. Tudo que sou hoje é graças a elas. Sempre gostei muito de estar com os animais, de cuidar, de ter esse contato. Na minha infância, meu sonho era ser médica veterinária.

Nunca fui uma pessoa de muitos amigos. Sofri muito com o racismo na escola, sempre fui muito excluída dos meios. Então, depois de um tempo, na pré-adolescência, que comecei a ter mais contato, fazer mais amizades e estar mais envolvida nos ambientes.

Adolescência

A minha adolescência sempre foi muito conturbada nesse sentido. Eu sempre tive muito medo. Eu sempre fui muito reprimida e sempre passei por muitas situações difíceis.

E me assumir lésbica na adolescência, assumir que eu gostava de ficar com garotas foi muito difícil. Foi algo que eu escondi até os meus 18 anos, que foi quando consegui chegar na minha mãe e na minha avó e dizer que eu gostava de me relacionar com mulheres e que eu não queria ficar me escondendo de ninguém. Que eu já tinha os meus 18 anos e que era isso que eu queria.

Foi muito difícil, por ser filha única, não era isso que a minha mãe esperava. Ela queria que eu casasse, e tivesse filhos e aquela coisa que os pais acabam projetando nos filhos.

Dos meus 18 até os meus 20 anos eu nunca consegui trazer ninguém que eu me relacionasse para casa. Nenhuma menina. Minha mãe sempre foi muito contra, sempre fez de tudo para que não desse certo. E quando eu terminava as minhas relações ela falava “tá vendo, eu falei pra você, que não ia dar certo.

Foi bem difícil, só depois dos 21 que eu saí de casa, me tornei mais independente e pude viver uma relação, que é a relação que eu vivi até pouco tempo, que durou oito anos. Não tive tantas relações assim. Fiquei com várias garotas, mas relação mais sólida que tive durou oito anos.

Sociedade

Além de ser difícil se assumir para a família, o mais difícil ainda é se assumir para a sociedade, para os amigos na escola.

Justamente por já sofrer por ser a mina negra, da periferia, e ainda gostar de ficar com mina, isso pesou bastante pelo olhar das pessoas.

Embora as pessoas olhassem pra mim e diziam ‘Ah, você não tem cara de quem se relaciona com mulheres’. Foi bem difícil, a princípio, esse primeiro contato.

Mas, pra mim, o que mais importava era a minha mãe e a minha vó [ saberem], porque são as pessoas mais importantes pra mim.

Não me importava tanto o que as pessoas diziam, ou dizem. Mas, obviamente, tem um peso muito grande. Tem o apontamento: ser a mina negra, periférica, e que gosta de ficar com mulheres.

Esse primeiro contato foi bem difícil, mas é encontrar nos amigos, no ciclo que a gente convive forças para continuar e se fortalecer.

Não tinha muitas amigas que curtiam, mas a maioria das minhas amigas eram hétera no tempo do colégio. Aí, depois que eu passei a ter contato com outras mulheres e fiz outras amizades.

Maior desafio

Um dos maiores desafios pra mim foi a questão com a família. Nem tanto no convívio social que eu tinha com a escola e que eu tinha com outras pessoas.

Pra mim, o que mais importava, era ter esse apoio de dentro da minha casa, das pessoas que realmente são importantes pra mim. A princípio não senti tanto assim. Obviamente que os olhares e os comentários em alguns lugares e situações acabam pesando bastante.

Mas ser a mulher negra, periférica e lésbica, como me assumi inicialmente, foi bem difícil. É um peso muito grande em um contexto social mesmo. ‘ah, lá, a negra que gosta de mulher’, tipo, ela tá precisando que alguém dê um jeito nela e coisas assim do tipo que já ouvi antes.

Socialmente falando, precisamos melhorar muito, há muito o que se fazer, há muito o que precisa melhorar na questão das leis, das políticas públicas, no direito à cidadania, a saúde, a condições de trabalho, a condições sociais, precisa melhorar muito.

Avançamos? Avançamos? Melhoramos muito na questão de ter direito de poder nos casarmos, a questão do nome social para os transgêneros. Isso foi um avanço muito importante em pleno século 21. Muita coisa lá atrás tem muita coisa que precisa ser melhorada.

Ser uma mulher preta periférica, LGBT, no Brasil é resistência.

É resistir dia após dia, é lutar e perceber quanto você é importante, independente de quanto você é apontada e julgada, pelo patriarcado, pelo machismo, e por tudo isso que é a nossa sociedade. Então,

 

Ser uma mulher preta, LGBT, na periferia é resistência todos os dias.

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