Por Redação | 14/09/2020

Nesta segunda (14), dia em que se completa 30 meses do assassinato de Marielle e Anderson, o Instituto Marielle Franco lança uma agenda pública de políticas e compromissos voltada ao engajamento de candidaturas do país que tenham ações práticas vinculadas ao legado de Marielle, como a justiça racial, gênero, sexualidade, direito à favela e saúde.

A pandemia de Covid-19 e o agravamento das desigualdades econômicas e sociais em todo o Brasil marcam a conjuntura que antecede as eleições municipais de 2020, porém, para a família de Marielle e para milhares de pessoas que se indignaram com o crime que tirou sua vida, esta também será a primeira eleição municipal desde o dia 14 de março de 2018 e desde a eleição de Marielle, que se tornou um símbolo da representação de mulheres negras periféricas e LGBTs nos espaços de poder do país.

Para Anielle Franco, irmã de Marielle e diretora do instituto, o assassinato brutal – ainda sem respostas sobre o mandante – não impediu que a memória e o  legado de Marielle deixassem de exercer uma enorme influência também nas eleições de 2020. “Candidaturas em todo o Brasil se inspiram em Marielle: se em 2018 o aumento de candidaturas de mulheres negras foi de 93% comparado com as eleições anteriores, a estimativa é que esse ano esse número seja ainda maior”, diz.

“Candidaturas em todo o Brasil se inspiram em Marielle: se em 2018 o aumento de candidaturas de mulheres negras foi de 93% comparado com as eleições anteriores, a estimativa é que esse ano esse número seja ainda maior”.

Dedicada a estruturar o Instituto Marielle Franco como uma organização de referência para a memória e o legado da vereadora, Anielle anunciou no início do segundo semestre o lançamento da PANE (Plataforma Antirracista nas Eleições). Um conjunto de ferramentas e ações para incidir nas estruturas do sistema político.

Depois da primeira ação chamada “Eleições Antirracistas”, que articulou mais de 10 mil pessoas e centenas de organizações a pressionar o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) pela aprovação da consulta que garantiria recursos e visibilidade proporcionais para candidaturas negras, a família e o Instituto se preparam para lançar a Agenda Marielle Franco.

“Foi uma longa caminhada reunindo os projetos de leis da Mari, a sua atuação
enquanto vereadora e presidenta da Comissão da Mulher da Câmara Municipal e escutando algumas das suas assessoras”, diz Anielle.

“É transformar a retórica em prática. Esperamos que muitas candidaturas se inscrevam e se tornem defensores dessa agenda”.

A agenda vai ser disponibilizada no site agendamarielle.com para candidaturas de todo o país que queiram  honrar e multiplicar o seu legado, não apenas no discurso, mas também nas suas práticas. “É transformar a retórica em prática. Esperamos que muitas candidaturas se inscrevam e se tornem defensores dessa agenda”, aponta a irmã.

Para ajudar a cobrar as candidaturas, qualquer pessoa poderá se inscrever no site como uma defensora da Agenda. A ideia é que eleitoras e eleitores de cidades de todo o país ajudem a levar esse legado adiante, ficando de olho nas candidaturas e se articulando em torno de pautas que Marielle defendia.

O modo de fazer política Marielle Franco

As candidaturas que assinam a agenda se comprometem a desenvolver práticas com o objetivo de:

  • Diversificar não uniformizar;

Priorizar os princípios de pluralidade, diversidade e representatividade nos processos de formação da equipe. Lembrando que uma equipe deve retratar em seu corpo atuante o retrato das populações que compõem as grandes lutar por acesso à políticas públicas de inclusão no país. Sua equipe deve ter raça, classe e gênero, não somente nos cargos técnicos, mas também nos espaços de decisões no gabinete.

  • Ampliar, não limitar;

Buscar construir amplas alianças com organizações do terceiro setor e instituições públicas que sejam comprometidas em garantir o acesso da população aos seus direitos, construindo espaços como audiências públicas para estabelecimento desses canais de trocas.

  • Honrar, não apagar;

Resgatar e honrar a memória e os passos das que vieram antes, celebrando e homenageando figuras ancestrais que estão conectadas a esses povos originários e fomentando uma cultura política que esteja aberta para a inovação nas linguagens mas não para o apagamento da nossa história.

  • Coletivizar, não individualizar

Lembrar-se de que o trabalho na política é um bem público, não privado. Que estamos ali para servir ao povo e não para nos servirmos para os nossos projetos pessoais. Que os avanços na garantia de direitos e acesso se dão de forma coletiva, feito por e com muitas mãos e mentes. Como representante do povo, seu dever é fortalecer uma democracia ampliada e não personalista.

  • Puxar, não soltar

Quando finalmente chegarem a esse lugar, potencializar aqueles que ainda estão por vir. Não se fechar em seu próprio mandato ou em seu próprio grupo. Promover aproximações entre a juventude, a população periférica e todos os grupos interessados no funcionamento de um mandato e esse espaço que, pode ser hostil e pouco acolhedor, mas que acreditamos ter um enorme potencial de construção coletiva, aprendizagem e transformação.

  • Cuidar, não abandonar

Encarar as tarefas e processos de gestão de equipe com profissionalismo, fazer checagem com a equipe sobre como estão se sentindo no trabalho, entender os limites de cada um e ter humildade e respeito para saber ouvir a opinião de quem está lhe ajudando a construir sua campanha e mandato. Além de procurar um acompanhamento terapêutico individual e ter momentos de troca coletiva na equipe com facilitações externas.

  • Encarar, não encastelar

Construir ativamente mecanismos de participação e transparência dos mandatos e da estrutura política que se está ocupando (seja Câmara de Vereadores ou Prefeitura). Além de zelar pelo bom uso dos recursos públicos e organizar encontros abertos periódicos de participação do seu mandato.

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