Por Jéssica Moreira e Semayat Oliveira

“Quem mandou matar Marielle Franco e Anderson Gomes”? A chuva insistente que lavou a noite desta quinta-feira, 14, não intimidou milhares de pessoas que foram às ruas em busca de resposta a essas dolorosas perguntas.

As organizações que convocaram o Ato “Justiça para Marielle – vidas negras e periféricas importam” que marcou o primeiro ano sem Marielle Franco e Anderson Gomes, assassinados em 14 de março de 2018, indicam que pelo menos 20 mil estiveram a Avenida Paulista, em São Paulo.

Mulheres durante Ato “Justiça para Marielle – vidas negras e periféricas importam/ Créditos: Jéssica Moreira/NMP

“Traz um sentimento de impotência muito grande saber que somos um alvo fácil”, disse a jornalista e poeta Elizandra Souza. “Principalmente a gente que fala, que coloca a voz no microfone. Não queremos ser as próximas, mas é um momento de insegurança”, complementou.

O medo Elizandra também está relacionado com a suposta proximidade entre os criminosos e membros da família de Jair Bolsonaro (PSL). E ela não era a única. Faixas contra o presidente do Brasil indicavam a consternação de muitos e muitas ali. Uma das marchinhas que mais apareceram no Carnaval também foi entoada na manifestação: “Doutor, eu não me engano, o Bolsonaro é miliciano”.

Maria Rosilene, que está acampada em uma ocupação na zona sul, disse que a incomoda ver as injustiças que  ‘grandes homens’ [do poder] permitem acontecer no Brasil. “As pessoas mais pobres do país são mortas e e destruídas. Eles dão mais [poder] para eles mesmos e a população de baixa renda está se prejudicando e ficando sem condições de sobrevivência. A gente se une para fazer a luta valer a pena”.

“As ideias são à prova de bala”. Cartaz durante Ato “Justiça para Marielle – vidas negras e periféricas importam” (Jéssica Moreira/NMP)

E a necessidade de estar com outras pessoas nessa busca por justiça é o que também levou outras mulheres de bairros periféricos para a Avenida Paulista.”Eu sou semente da Marielle”, é o que afirmou Samai Nascimento, 30, moradora da zona leste da cidade.

Ela conta que, após o assassinato da vereadora, se sentiu provocada a parar de “militar no Facebook” e passou a ir para as ruas. “É tempo de luta”, ela afirmou, “tempo de sair de sair de casa e lutar contra esse governo fascista, genocida e miliciano. Tempo de colocar a cara a tapa por todas nós”.

Faixa com os dizeres “Firmeza Permanente”. Produzida pela Comunidade Cultural Quilombaque, a expressão é utilizada em Perus (SP) para simbolizar resistência. (Jéssica Moreira/NMP)

Para Priscila Correia, 34, da Freguesia do Ó, muita gente despertou após 14 de março de 2018. E isso aconteceu pelo fato dessa execução ter acontecido pelas causas que a ativista levantava. “Defendia as mulheres, as periferias do Rio de Janeiro, a população LGBTQ. Então estar aqui é necessário para que a gente comece a ocupar os nossos espaços”.

SOBRE O CASO

O fato de dois homens terem sido presos na terça-feira, 12, acusados pela execução do crime, também não foi um atenuante. Andando na multidão era possível ver as lágrimas nos rostos de algumas mulheres negras, abraços de apoio e acolhimento, e a força do questionamento:  quem foi o mandante do crime?

O sargento reformado da Polícia Militar, Ronnie Lessa, de 48, e o ex-PM, Elcio Vieira de Queiroz, 46, tiveram prisões preventivas decretadas. O primeiro teria disparado os tiros e, o segundo, dirigido o carro.

A polícia não descartou a possibilidade do crime ter sido encomendado, principalmente pela  execução ter sido “meticulosamente planejada” e pelos envolvidos terem um histórico com milícias no Rio de Janeiro.

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