Eu acordo bem cedo. Tomo banho por volta de umas 6h. Tomo café. Às 7h, já começo a dar aula. Como eu tenho a manhã cheia, eu paro para almoçar das 12h às 13h, quando eu volto de novo, logo no sistema e vou até às 18h, na maioria dos dias.

É bem cansativo e está sendo bem estressante, embora eu já tenha conseguido me adaptar mais com as aulas online. Agora consigo administrar os slides, apresentar tela. Tudo ficou mais mecânico, prático e rápido.

Mas, no início, foi bem difícil, até mesmo para eu aceitar que estava sendo assistida, porque eu estou dentro de uma tela, sendo assistida por todas as pessoas que querem assistir, não somente para aquele público que eu atendia, naquele período de aula somente, que eram as crianças.

Por meio de um link, hoje você pode ser compartilhada nas redes. Isso me incomoda, porque querendo ou não você se sente invadida. Eu não me formei para isso, a minha intenção não era essa, mas, diante da situação e por precisar trabalhar, aceitamos, relevamos e vivemos um dia de cada vez.

Estou dentro de uma tela, sendo assistida por todas as pessoas que querem assistir, não somente para aquele público que eu atendia, naquele período de aula somente, que eram as crianças.

Perda de autonomia

Eu fui pontuada por sinalizar alguns limites para os alunos na minha aula e reclamaram. Isso eu já não tenho mais autonomia e direito, até porque tem pai e mãe ao lado e acabam tomando a minha autoridade.

Não que a minha função seja educar ou pontuar aluno. Não que eu seja autoridade, que nem gosto de falar assim, mas eu que conduzo, eu vou sentindo como a sala está, vou pontuando uma coisa aqui e outra ali.

Eu estou ali para ensinar, e eu ensino crianças e adolescentes e, às vezes, eles passam um pouco do ponto, e aí é a hora que eu tenho que intervir e em alguns momentos eu acabo sendo não aceita por essa questão na escola e com os pais. 

Leia também: Covid-19: professoras da periferia explicam por que a educação está em risco

Emocional abalado

O dia a dia do professor já é estressante. Até mesmo porque nós lidamos com crianças e adolescentes e cada um vem de uma família, de uma realidade. Uns com muitos, outros com mais ou menos, outros com pouquíssimo.

Eu trabalho em uma escola que atende vários tipos de públicos. É uma mistura. Eles trazem a realidade deles para dentro da sala de aula e a gente tem que saber lidar com cada realidade, ao mesmo tempo, além de ter que ensinar e atingir o objetivo de cada aula.

Aí você se depara com uma realidade na qual tem que atingir todos esses objetivos e alcançar todos es alunos por uma webcam. A cobrança é muito grande, além dos julgamentos.

Para uma pessoa que se cobra como eu, por uma defesa, eu não quero ser julgada, e isso me estressa, eu me cobro também. Em alguns momentos, tem dias que eu estou bem, tem dias que não estou bem, e eu vou levando. Esperando até quando isso vai. Porque a gente não tem uma data específica de quando isso vai acabar. Então, o fio de esperança que a gente se apega é que uma hora isso vai acabar.  


O governo de São Paulo anunciou no mês passado que o retorno às aulas presenciais no estado está previsto para o dia 8 de setembro e terá escolas com 35% da capacidade máxima de alunos. Para isso, estão previstos um rodízio entre os alunos e a manutenção de um sistema híbrido, reunindo o ensino presencial e o ensino remoto. A confirmação da reabertura das escolas nessa data, no entanto, dependerá da permanência de todas as regiões do estado na fase amarela (fase 3) do plano de flexibilização da economia, o chamado Plano São Paulo, por pelo menos 28 dias.


O medo de voltar

Realmente, seria muito bom voltar. É o que colocaria um fim, um ponto final na minha angústia e aflição diária. Porém, mesmo com tudo isso, eu sou contra o retorno à escola no dia 8 de setembro, porque se nós paramos por conta de um ou dois casos que haviam aparecido no mês de março, qual é o motivo que faz com que a gente volte agora?

É só olhar as estatísticas, as estatísticas está aí para acompanhar. Qual que é o motivo que faz com que a gente possa colocar crianças e adolescentes dentro de uma sala de aula com professor. Quem me garante que esse lugar é seguro? 

Eu não vejo necessidade dessa exposição tão precoce, eu acho que se a gente conseguiu esperar até agora, eu acho que mais dois, três quatro meses ou até mesmo o ano que vem. Talvez, o cenário seja outro, a gente não pode perder a esperança, mas eu não sou a favor do retorno no dia 8 de setembro. 

“Medo do vírus se alastrar”

O meu maior medo quando a gente fala sobre o retorno em setembro é obviamente do vírus se alastrar e acabar aumentando o número de casos, o que é muito fácil disso acontecer.

E um segundo, basta um toque para que a gente acabe contaminando alguém até mesmo que a gente ama. Já pensou, eu, por exemplo, pego condução para ir até a escola? Eu acho que toda essa questão tem que ser pensada.

Eu pego condução e vou até a escola, quantas pessoas eu tive contato para chegar até a escola? Lá eu tenho os meus alunos me esperando, eu não sei se eu estou saudável para estar compartilhando o mesmo ambiente, que não tem tanta ventilação, que não tem tantos recursos para que seja um ambiente seguro para eles.

Luciana é professora de inglês na rede privada na região norte da cidade de São Paulo e é moradora de um bairro periférico também na mesma localidade. Por receios de represálias, ela preferiu trocar o nome neste relato.

Leia também

Vai existir o “novo normal” na periferia?

Temas:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *