“O ‘novo normal’ será isso e aquilo”. A expressão está pipocando a toda hora na tela do meu celular. Ou, então, nas manchetes dos “modernos empresários”. Todo mundo tentando criar um novo futuro onde possa existir.

Todo mundo? Será?

O “novo normal” é o modo como uma parcela da sociedade tem falado sobre os hábitos que as sociedades que estão saindo do isolamento agora estão adquirindo. Ou, então, como alguns especialistas estão enxergando o mundo para em um futuro pós pandemia. Não podemos negar as inúmeras mudanças que estão por vir, é verdade. Mas será que elas serão benéficas para todos?

Em uma reportagem sobre educação na Alemanha, as mesas eram separadas por uma distância suficiente para evitar contágio, como recomenda a Organização Mundial de Saúde (OMS).

No Brasil, as salas chegam, muitas vezes, a comportar até 50 alunos. Alguns nem ouvem a professora, de tão cheias.

Segundo Censo da Educação Básica de 2019, o Brasil  possui quase 48 milhões de estudantes (47.874.246), nas redes pública e privada, sendo que a maioria (81%) dos estudantes da educação básica estão na rede pública. Vocês acham que teremos um “novo normal” nas salas de nossas periferias?

Empresários falam em novo normal do trabalho, o famoso “home office”. Falam até que isso será a “forma de trabalhar do futuro”.

Dados do IBGE mostram que o Brasil iniciou 2020 com 11,9 milhões de desempregados. Outro dado aponta que o país tem mais de 38 milhões de pessoas no trabalho informal. Milhares são mulheres.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (Pnad) Contínua, do IBGE, o trabalho doméstico chegou a 6,3 milhões de pessoas. Minha mãe foi diarista a vida toda, parou quando a fibromialgia lhe atacou. Eu tenho certeza que tem a ver com o trabalho doméstico pesado de todo dia.

Mas é esse trabalho que sustenta diversas famílias. São 11 milhões de mães solo no país, sendo que 57% vivem em vulnerabilidade extrema. Não existirá novo normal para essas mulheres.

Não pode existir “novo normal” quando a estrutura de um país é construída a partir da desigualdade social, racial e territorial. Não me venham construir uma nova sociedade remendada.

Meu povo é o mais afetado pela Covid-19, pois, além de estarmos historicamente nas margens, nós, negros e negras, também estamos mais expostos às doenças crônicas como diabetes e pressão alta. Uma reportagem da Agência Pública mostra essa disparidade.

De 11 a 26 de abril, o número de pessoas negras que morreram em decorrência da Covid-19 subiu de 180 para 930. “Para cada morte em Moema, na zona sul, quatro morrem na Brasilândia, zona norte de SP”, aponta um trecho da matéria, que mostra a disparidade entre os bairros nobres e periféricos da capital de São Paulo. Na Brasilândia, 50% da população é negra.

Não temos acesso a serviços básicos de saneamento básico, pois sempre estivemos esquecidos nos rincões. Aqui, o normal é o desemprego, a fome e omissão do Estado, presente apenas nas mãos que matam, diariamente, nossos jovens negros.

Não me venham falar de novo normal.

Jéssica Moreira, 28, é escritora, jornalista e uma das fundadoras do Nós, mulheres da periferia.

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Comentários

  1. O novo na periferia sempre será a mesma periferia. Parabéns pela análise com fatos, excelente texto!

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