eu gosto muito da frase: “ser verdadeiramente a si mesmo”, porque quando a leio sei que para ser verdadeiramente eu mesma não preciso apenas me conhecer, mas sentir.

sei que sou muitas coisas, mas sem dúvida alguma, em todas as particularidades do meu ser, sou intensa. a minha intensidade diz muito sobre o meu sentir, o meu amor pela vida, pelas pessoas, por mim, pelo mundo.

uma vez eu li uma outra frase que dizia: “seu corpo transmite a poesia que sua alma escreve”, no mesmo instante tomei ela pra mim, em meu coração e nunca me desfiz dela. não a esqueci porque meu corpo transborda meu sentir, o sentir da alma, pelo riso, choro e pela arte. 

ah, a arte! eu sempre amei tanto a arte, de todos os tipos e formas, ela me reconecta comigo mesma de uma forma tão forte. eu tenho uma relação muito íntima com ela, a uso para todos os momentos em que a emoção do peito já não aguenta mais dentro e precisa sair.

mas o engraçado é que nunca deixei que ninguém visse minhas tentativas artísticas de expressar meu sentir… até fevereiro desse ano. foi quando eu resolvi aceitar e segui em frente em apresentar uma poesia em público.

sabe, eu sou uma colecionadora de frases e poesias, quando elas me tocam ficam na mente e minha mente não as deixa ir de forma alguma. uma dessas poesias me tocou muito, ela falava sobre viver duas realidades: uma em que há grande privilégio, outra em que só há pobreza.

todos os dias, cruzo a cidade para frequentar a universidade, sou periférica, apesar de ainda gozar de muitos privilégios que só a estabilidade financeira da família traz.

mas atravessar a cidade, sair da periferia para o centro, um centro de elite, e não se sentir pertencente dói, uma dor profunda que, muitas vezes, eu guardo e silencio. mas nesse dia não!

fui a frente das pessoas me apresentar, ia ler a poesia e cantar um trecho com um amigo, outro amigo que vivenciava, como eu, literalmente na pele, a solidão desses ambientes. e eu me senti arrepiar, como se toda a energia da raiva e tristeza que a desigualdade, o racismo e o sexismo me traz e me afogou durante toda a vida viesse à tona.

Slam CT, realizado no CFCCT (Créditos: Divulgação)

só que todo esse sentimento, essa energia foi canalizada em luz e eu pude me sentir a mulher mais forte e capaz do mundo. essa tentativa, essa pequena e única tentativa de verbalizar o sentir em poesia para os outros, me transformou internamente. desde então, já não sou a mesma.

em algum episódio do podcast “Para dar nome as coisas eu ouvi a Natália Sousa dizer que: “ter coragem é agir com o coração”. então, se coragem pode ser definida dessa forma, eu sou um tanto corajosa! porque todo o meu tentar, desde expressar com corpo e a voz uma poesia, até a outras tentativas de pesquisar temas desafiadores na faculdade, começaram a me transformar. e assim, pude perceber ao menos uma fração da força, intensidade e do amor que me habita. 

sou grata por todas as possibilidades e tentativas que me fizeram falar alto para que todos ouçam o meu sentir, o meu eu. 

Franciele Falcão Melo da Conceição tem 20 anos é  estudante de Relações Internacionais (USP) e estagiária na organização Minas Programam . Mora em Itaquaquecetuba – São Paulo.

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