Por Redação | 22/09/2020

Esse ano poderia ser como os outros anos: estudo, trabalho, minha mãe chamando minha atenção absurdamente, eu cuidando do meu irmão e minha irmã na faculdade, lá em Botucatu. Em março, quando tudo isso começou e entramos de quarentena forçada por causa da pandemia do Coronavírus, pensei que isso duraria 2 meses, e meus pais iriam ver que não havia tanto motivo para preocupação.

Eles ficaram muito desanimados com a notícia de que os shoppings e o comércio iriam fechar durante a pandemia. Não era para menos, o trabalho deles é denominado como autônomo. São costureiros e trabalham fazendo bolsas de couro que são vendidas adivinha aonde? Pois é, já é não todo mês que tem serviço e esse fechamento quase acabou com as esperanças.

maquina de costura

Sabrina relata possível situação de família de costureiros na pandemia

Crédito: Arian Giacomet /Creative Commons

 

Autônomos não recebem de seus chefes nem cesta básica, imagine convênio médico, vale transporte, vale refeição.

Sinceramente, foi eu e meus irmãos que explicamos para os meus pais o que era um “VR”. Eles não precisam se deslocar para trabalhar, a “oficina”, como chamamos o local que eles trabalham, fica no mesmo terreno que nossa casa de três cômodos.

Isso para mim sempre foi muito bom, ter meus pais perto durante todo o dia, a maioria das minhas amigas veem o pai ou a mãe, ou ambos só à noite. Bom, temos aqui um quintal que é bem aproveitado, mas, como eu disse, a casa é pequena; somos em cinco, só tem um quarto; eu, meu irmão e minha irmã, que teve que voltar da faculdade, dormimos na sala.

Já se passaram cinco meses e não tem serviço, mesmo com a reabertura do comércio, não há o que produzir, e parece que a loja do chefe dos meus pais vai fechar, já que ficou muito tempo parada. Como estão fazendo com as contas?

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Algumas se juntaram, eles usam o cheque especial – que a cada dia aumenta mais – tem um dinheirinho que vem de duas casas pequenas alugadas onde eles moravam antes, no Rio de Janeiro. O aluguel cobrado é barato, e minha mãe abaixou porque, assim como ela, as pessoas que moram lá também estão passando por dificuldades.

Minha irmã está tentando ter aula EAD, aqui a internet não é boa, vive caindo, não temos uma internet boa. Enquanto as minhas aulas….Eu estou no terceiro ano do Ensino Médio, estudo em escola pública, e esse ensino à distância está complicado, às vezes tem aula, outras não. Não é sempre que consigo assistir nem enviar as atividades.

Comecei a fazer um cursinho popular em fevereiro, a taxa não é cara, mas tive que parar porque meus pais não estão trabalhando, ou seja, já era o vestibular. Não coloco a cara pra fora de casa, nem na calçada vou, minha mãe morre de medo e fica super preocupada com a gente.

Assim, seria minha pandemia se ela fosse em 2003, com 17 anos, mas estamos em 2020. Aliás isso foi um pouco que consegui imaginar, trouxe somente um 40% do como seria o meu cotidiano.

Esse ano com 34 anos, já formada e desempregada, com uma irmã já formada e trabalhando, meu irmão na faculdade e com meu pai, que conseguiu se aposentar ano passado, as coisas estão um pouquinho diferentes.

Não estão maravilhosas, o trabalho de autônomo dos meus pais ainda é necessário. No entanto, de 2003 para cá conseguimos algumas vitórias, como minha graduação e dos meus irmãos, construir uma casa maior, e moro com minha irmã em um apartamento.

Não passo as dificuldades que passaria se fosse em 2003. O que daqui pra frente vai acontecer, realmente é uma incógnita.

Uma vacina não resolverá os problemas de um dia para o outro, poderá sim fazer que voltemos às nossas vidas, no busão e metrô lotados.

Mas, dizer que isso resolverá todas as consequências que a pandemia trouxe e agravou, está longe de acontecer. Não estou em 2003, mas vejo muita gente vivendo o que eu passaria, e estão em situações, infelizmente, piores. O que você está passando na pandemia hoje, seria o mesmo se ela acontecesse em algum outro momento do seu passado?

Sabrina Silva tem 34 anos, é redatora e moradora de Taboão da Serra.

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