Este relato integra a reportagem Covid-19: professoras da periferia explicam por que a educação está em risco

Eu me recordo do dia 16 de março, foi uma segunda-feira. Um dia muito importante, o meu aniversário. Completei 46 anos. Fui para a escola, eu já estava usando máscara, atenta a todas a essas questões. 

Entrei na sala e os alunos disseram ‘nossa, professora, que exagero a senhora usando máscara, está com nojo da gente, é?’. Eu falei ‘não, gente, não estou com nojo de vocês, de forma alguma. Eu estou aqui usando essa máscara para proteger vocês’.

Eu usei a ideia do nojo e da proteção como um sul — eu não gosto de usar a palavra norte — para discutir os primeiros momentos, as primeiras notícias sobre a a Covid-19 e a necessidade do distanciamento social.

No início, os estudantes foram para suas casas. Alguns preocupados de como ficariam as aulas. Outros falando que iria dar tudo certo, e que iriam voltar logo. Foi um pouco do que eu ouvi.

Eles só começaram a me procurar e a mandar algum tipo de notícia na terceira semana, quase fim de março, e isso também porque eu estava só há um mês na escola, não tinha grupos, eu não tinha grupo formado de Whatsapp com todos os estudantes com as oito turmas.

Por volta de 27 ou 28 de março uma colega me colocou em um grupo de estudantes e começamos a conversar. Comecei a mandar vídeos, trocar ideias, mandar informações, notícias que eu estava lendo e recebendo de outros grupos. 

A prefeitura municipal decretou recesso escolar e aí eu não tive mais contato, mais profundo com nenhum estudante, era só nesse grupo. Só depois do fim do recesso, no dia 13 de abril,  que as coisas mudaram.

Aí foi obrigatório para todos nós começar a realizar o ensino a distância. Foi um choque para mim, porque estava muito tranquilo conversar com os estudantes. A gente foi criando redes de comunicação. Estava tranquilo, gostoso, eles contavam como estavam. A partir do dia 13 isso se tornou obrigatório. E aí começaram, de fato, os desafios.

‘Professora, como é que eu vou fazer lição com meu filho se eu só tenho um celular e eu tenho quatro crianças? Meu celular não é um celular tão potente, então, não posso baixar lição assim para todo mundo’.

 

Educação: substantivo feminino

Os primeiros sentimentos eram das mães. E eu digo que a Educação é formada essencialmente por mulheres, porque são maioria tanto nos quadros do magistério, quanto o quadro de apoio que os estudantes têm em casa, que são as mães.

Tanto que no grupo das oito turmas de Whatsapp que tenho não tem nem um comunicado de pai, não tem um pai que manda uma mensagem querendo saber qualquer coisa da professora ou da lição, ou como está, todas as preocupações são das mães. Começaram as preocupações das mães, as primeiras mensagens eram: 

‘Professora, como é que eu vou fazer lição com meu filho se eu só tenho um celular e eu tenho quatro crianças? Meu celular não é um celular tão potente, então, não posso baixar lição assim para todo mundo’. Ela tem três crianças no Ensino Fundamental 2 e uma no Ensino Fundamental 1, recebendo atividades de todos os professores.

Onde o Google Class Room não chega

Lá para o dia 15 de abril a gente recebeu uma formação online, muito rápida, não deu meia hora, mostrando o que era o Google Classe de Aula, ou o Google Class Room, e como que a gente iria acessar isso, mandar para os estudantes e tudo o mais.

Muitas das nossas famílias têm acesso à internet através de pacotes, então, dependendo do vídeo ou do site que a professora pede para acessar, que pede pra fazer qualquer coisa assim, o pacote acaba


Começaram as novas polêmicas. Os novos desafios do acesso à internet. Para você poder baixar um PDF, assistir a um vídeo, acessar um aplicativo, você tem que ter um ‘celular top’, capa de revista, não pode ser qualquer um e a fragilidade agora se torna candente da tecnologia que está disponível para nós, da periferia, o tipo de aparelho que a gente pode ter e a questão da internet.

Muitas das nossas famílias têm acesso à internet através de pacotes, então, dependendo do vídeo ou do site que a professora pede para acessar, que pede pra fazer qualquer coisa assim, o pacote acaba.  E a outra coisa somos nós mesmos. Nós, professores, nós estamos usando a nossa internet, nossos pacotes de internet para trabalhar em casa nessa pandemia.

A rotina com a quarentena é não ter rotina’

Esse trabalhar em casa é muito louco, eu estou fazendo um diário aqui do meu trabalho, everyday (todo dia, em inglês). Todos os dias são completamente diferentes, não tenho uma rotina, por mais que eu tente.

A escola propôs um horário, então tem lá o dia que eu vou atender cada turma. Eu estou online a partir das 8h, mas meu aluno só consegue acessar a atividade que eu pedi às 2h ou 3h da tarde. E ele fica ali me mandando mensagem, falando ‘professora, professora’, e eu tenho que atender.

Então, não tenho rotina. A rotina com a quarentena é não ter rotina, ou estabelecer uma rotina que é quebrada. Não funciona, em partes por essa questão também do acesso à internet, é algo muito grave e chocante pra mim. 

‘A maioria não tem computador em casa’

A última semana de abril ela foi muito dura. Teve o feriado, dia 21 de abril, aí os alunos começaram a acessar mais e também a contar um pouco das dificuldades deles com acesso à internet e o tipo de eletrônico que tinham: celular. 

A maioria não tem computador em casa, então, acessam mesmo pelo celular. Grande parte desses alunos não têm um celular próprio para eles. Acessam internet através do celular dos pais. 

Em momentos diferentes, duas das alunas disseram o seguinte: ‘eu só vou poder fazer sua lição à noite, quando a minha mãe chega do trabalho, porque eu vou fazer a lição no celular da minha mãe’. Celular é da mãe, mãe sai pra trabalhar, quando a mãe chega ela vai pegar o celular para fazer as atividades.

Um currículo que faça sentido 

Quero falar mais um pouco da questão do currículo. Chegaram atividades, cheguei a enviar atividades para os alunos e essas atividades eu refiz a partir do currículo que me foi colocado para trabalhar com os estudantes. 

A prefeitura mandou um caderno chamado Trilhas da aprendizagem, e essas atividades que estão lá, até poderiam ser disparadoras de discussões com os meus estudantes, dentro de um currículo formal, que é comum se trabalhar na educação básica do ensino fundamental II.

Porém, nós não estamos em normalidade, nós estamos em um período pandêmico, então, eu criei novas atividades para os alunos. Criar essas novas atividades criou um outro mar, pra mim. Enquanto professora de História e professora deles, que foi receber várias mensagens dos estudantes contando como eles estão se sentindo. 

Eu propus uma atividade que se chamou “Minha quarentena”, e as perguntas que norteiam o processo deles de contar como era a quarentena me trouxeram relatos de como eles estão. 

Dentre eles, há estudantes em situação de depressão. Fiquei quase uma hora pela manhã, tentando motivar um deles, à tarde ficamos das 18h até 20h, colocando ideias para ele. Enquanto isso, o meu celular chovia de mensagens de estudantes pedindo o anexo que tinha enviado que sem querer apagou, porque tem que apagar as coisas do celular, porque senão o celular não comporta tudo.

Eles querem muito fazer as atividades, mas tem esse turbilhão de desafios aí. Muitos me disseram, tanto meninos quanto meninas, que estão trabalhando muito mesmo. Limpar, arrumar, cozinhar, serviço doméstico dobrou e para as professoras idem. 

‘Faço almoço com o celular do lado, entre a pia e o fogão’

Agora, trabalhamos dentro das nossas casas, a gente não sai pra trabalhar, a gente trabalha de dentro das nossas casas, o triplo, o quádruplo que a gente trabalhava, sem dizer que é uma pressão psicológica enorme, porque estou dando atendimento para o estudante, porque não quero que o menino fique pior do que está.

Mas tenho minha filha que, de repente, aparece aqui na porta e fala ‘mãe, por favor, vem assistir desenho comigo, quero sua companhia’. O marido também é professor, também está em casa, eu faço almoço, ele o jantar, faço almoço com o celular do lado, entre a pia e o fogão.  À noite, meu marido me chama para jantar e eu não consigo ir, porque estou respondendo a última mensagem, mas nunca é a última mensagem para responder.

Quando o CEP determina o direito à educação

Eu acho que hoje o nosso grande desafio nesse momento de pandemia, enquanto direito à educação dos estudantes, é garantir que eles tenham acesso à internet, que tenham acesso às nossas atividades, e nós não temos como garantir, não dá pra garantir.

O governo municipal está falando todos os dias que vai mandar o caderno Trilhas da Aprendizagem para a casa dos estudantes. Inúmeras mães aqui mandaram notícias até ontem dizendo que até agora não tinham recebido, mães que dizem que o correio não vai chegar na casa delas, mães que dizem que elas dão o endereço de um parente que mora numa área de maior acesso porque ela não pode dar o endereço dela, porque o correio não chega lá, na área que ela mora, por exemplo. 

Uma mãe perguntou quando as apostilas irão chegar. Mas o correio nem passa. A outra mandou o novo endereço me pedindo se poderia indicar na escola, que é de parente, onde o correio passa com mais frequência. Como eu vou entrar aqui e mudar? Não tem como no momento fazer mudança de endereço.

Se essa mulher recebe isso na casa do parente, ela quebra o isolamento social, quando ela sai da casa dela pra ir pra outro lugar buscar o material, por mais que tome cuidado, ela quebra o isolamento social, tão importante nesse momento. 

Quando não chega na casa do estudante é pedem para buscar na escola, outro problema que o governo não se ateve, a escola está funcionando, as diretoras, assistentes, todo quadro de apoio está lá, essas pessoas não têm que ter cuidado com a vida delas, não? Essas pessoas também não eram pra estar em isolamento? Por que a escola está funcionando? 

Aí vão dizer que a escola, nesse momento, é o lugar seguro, é o grande contato com as famílias. A escola é tão importante e por isso que não dá pra dissociar a educação de escola porque por mais que a gente diga, e eu acredito que a educação se dá em todos os lugares de diferentes formas, mas veja o importante papel da escola, tem escolas que nesse momento inclusive se tornaram hospitais, você faz ideia do que vai ser essa escola que se tornou hospital quando voltar pras aulas?


O próprio governo que diz que a periferia não faz o isolamento social, é o que propõe a quebra desse isolamento quando ele fala ‘vai buscar o material na escola’.



Nesse momento, quando o governo manda o cartão alimentação para casa do aluno e o correio não entrega ou não acha a pessoa, aquele cartão-alimentação ou apostila vai voltar para a escola. Tem que ter uma pessoa lá pra atender esses pais que vão lá buscar. Está quebrando o isolamento. 

Aí o Governo vai e diz que o povo da periferia não está cumprindo o isolamento social. Mas como é possível? Como é possível, quando o próprio governo fala ‘vai buscar a apostila na escola, o caderno na escola?’

O próprio governo que diz que a periferia não faz o isolamento social é o que  propõe a quebra desse isolamento quando ele fala ‘vai buscar o material na escola’.

‘Que normalidade as pessoas querem que volte?’

É essa normalidade que o pós pandemia não pode querer de volta. Não pode, porque essas pessoas não estão sem o endereço delas hoje, elas já não tinham antes. Essas pessoas precisam do cartão-alimentação não é de hoje. Elas sempre precisaram de comida, de ajuda. 

Depois que essa pandemia passar queria convidar todas os trabalhadores e trabalhadoras, todas as pessoas para a gente construir um outro jeito de viver, de estar. Me assusta as pessoas dizendo que querem que  pandemia passe para voltar à normalidade, e eu não sei que normalidade é essa.

Não tinha pra mim normalidade alguma, gente passando fome, a saúde doente, o transporte público sem condições de atender a todos, as escolas com inúmeras dificuldades, cortes enormes de investimento que já era pouco, mas com a PEC do congelamento isso ficou ainda mais grave, as pessoas sendo cada vez mais atingidas pela falta de investimento em políticas públicas pro atendimento da periferia, a polícia matando e continua matando mesmo nessa situação de pandemia, isso não pode ser normalidade, que normalidade é essa?


Janaína Aparecida dos Santos*, 46, é educadora da rede pública municipal de ensino. Atua como professora de História há 28 anos. Atuou com formação de professores em universidades, possui mestrado em História e especialização em cultura indígena e africana e pós-graduação pela Unifesp em gestão da educação pública.

*O nome foi alterado para preservar a identidade da fonte.

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