Por Redação | 08/09/2020

Desde criança eu fui ensinada que não deveria gostar de onde eu nasci. Diziam que eu deveria odiar Belford Roxo, a periferia, que o Brasil não prestava, e que o bom era estrangeiro. 

– “Olha, quando chegarmos lá, pelo amor de Deus não fala que moramos em Bel City, pode dizer Nova Iguaçu, mas em hipótese nenhuma mencione a nossa cidade”.

E meu jeito abusada, dizia o tempo todo e para qualquer: ó eu vim de Belford Roxo, lá na Baixada Fluminense e, automaticamente, sentia o tratamento das pessoas mudando comigo e com quem estivesse junto. 

Belford Roxo

Belford Roxo

Crédito: Arquivo

Eu poderia simplesmente começar a falar que morava em outro lugar, ou apenas omitir onde moro. Mas machuca. Porque se eu não pudesse falar onde eu nasci e sou cria, não poderia falar de mim, da minha história, da minha vida.

Se eu não falar da minha cidade, não posso jamais ser eu mesma. 

Vivi um processo familiar de privação (por ser menina-mulher, LGBT+ e outras coisas), mas com 17 anos comecei a dar meus pequenos ‘perdidos’ e tentar conhecer alguns lugares. Só que até hoje fico triste por perceber o quanto não conheço quase nada, e mal sei sobre onde eu moro, sobre as pessoas que já viveram ou ainda estão aqui… Há um apagamento histórico recorrente! 

Um dos meus maiores sonhos é que nós não sejamos mais vistos como a “cidade perigosa” e a “cidade dormitório”. Nós produzimos, criamos, pensamos, fazemos.

O que falta são políticas públicas para realizarmos tudo dentro da nossa própria cidade. Para não haver necessidade de sermos mão-de-obra de lugares que só nos escravizam e gastam nosso tempo. 

Já escrevi um ou mais textos sobre ser e estar periférica, só que nem sempre uma só fala tem de ser suficiente. Não sei. Só sei que é difícil o entendimento quando tem algo enraizado há mais de uma década dizendo que a pessoa nunca vai ser ‘alguém na vida’ por conta do lugar em que nasceu. 

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Algumas vezes me pego pensando que deveríamos ler e aprender sobre nossas produções latino americanas, e em outras fico achando que estou querendo enfiar minhas ideias nas goela dos outros. É que fico cansada de ver tanta gente achando que é culpada por estar numa péssima situação. Só que o fato é que não somos culpados por estarmos numa periferia dentro de uma periferia (latino-americana). 

Aonde meu mundo cabe num mundo que vi e ouvi ser o ideal para mim? 

Sem mais expressões de minha subjetividade, me pergunto quantos autores e autoras latines eu já li, e quase nenhum vem na minha cabeça (mesmo sabendo que tem muita gente). 

Os filmes então, até choro pela quantidade de vezes que vi filmes Hollywoodianos e me submetia (ainda me submeto) a um processo de não compreensão da minha realidade.  Onde falta entendimento, talvez falte observação, questionamento, conhecimento, escuta, espaço, acolhimento…

Com isso, deixo a minha pergunta: você já leu algum livro, assistiu algum filme, ouviu alguma música de alguém da sua cidade?  Se nós não começarmos  -URGENTEMENTE – a consumir e investir mais nos nossos, quem vai consumir e investir mais na gente? 

Gabriela Pontes Benvindo da Silva, mais conhecida como Gaby Benvindo, é moradora de Belford Roxo, na Baixada Fluminense (RJ). 

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