Nos últimos dias, passamos a assistir a um levante nos Estados Unidos. Milhares de pessoas foram às ruas após o brutal assassinato de George Floyd, em Minneapolis, cidade mais populosa do estado norte-americano de Minnesota, localizada no Sul do país. O vídeo – violento e deplorável – chegou até o Brasil, mas ficou longe de ganhar destaque nas manchetes.

Com a onda de protestos que tomou conta da potência mundial, a imprensa brasileira passou a acompanhar os acontecimentos. A história estampou os portais de imprensa tradicional. Com abordagens muito focadas no conflito dos protestos e pouco contexto, o fato é que de alguma forma a morte atravessada pelo racismo estrutural e a supremacia branca daquele país ganhou destaque no Brasil.

A grande questão é: poucos dias antes, João Pedro Mattos, de 14 anos, foi assassinado pelas mãos da polícia carioca dentro de casa. Ele foi baleado nas costas, enquanto brincava com os primos; a residência foi atingida por, pelo menos, 70 tiros durante uma invasão policial. No dia em que o Brasil perdeu os sonhos de João Pedro, os principais veículos da imprensa tradicional se comportaram como de costume: o assassinato como um fato isolado.

Diariamente, o país vive incontáveis perdas que não chegam até nós. O contexto necessário sobre as raízes do racismo estrutural, que mantém o ciclo da violência no Brasil e prioriza pessoas negras como fontes, continua sendo um desafio no jornalismo brasileiro. A palavra racismo, por exemplo, quase nunca é utilizada.

Compreendendo a função do jornalismo para a construção da memória de uma sociedade, fica evidente que a nossa imprensa não tem contribuído para o avanço da discussão antirracista no Brasil. Pelo contrário. E essa também é uma realidade no jornalismo norte-americano.

O artigo “Ahmaud Arbery, Breonna Taylor, and covering Black deaths”, publicado na Columbia Journalism Review, antes mesmo do assassinato de George Floyd, analisou que a maioria das notícias sobre mortes de pessoas negras ganha mais espaço quando há uma foto ou um vídeo (ambos muito explícitos e violentos), como exatamente aconteceu.

Além disso, Alexandria Neason, que assina o texto, afirma que assassinatos de mulheres nas mesmas condições – pelas mãos do Estado – têm menos projeção. Esse foi o caso de Breonna Taylor, de 26 anos, que teve sua casa invadida por policiais e o corpo baleado, em Louisville, Kentucky, no dia 3 de março.

Apesar da movimentação que os protestos dos Estados Unidos causaram no Brasil, principalmente na imprensa e nas redes sociais, é imprescindível reconhecer o quanto as consequências e as origens do racismo são assuntos escanteados em nosso cotidiano.

Em contrapartida, veículos independentes de comunicação têm cumprido um importante papel em priorizar o tema. Só assim será possível caminhar para uma maior compreensão dos impactos e ciclos violentos que o racismo ainda causa em nosso país. Entre eles, destacamos: Alma Preta, Periferia em Movimento, Favela em Pauta, Notícia Preta, Desenrola, Não me Enrola, dentre outras tantas iniciativas ao redor do Brasil.

Falar sobre o genocídio da população negra no Nós, Mulheres da Periferia nunca foi ocasional. Ser um veículo antirracista e antipatriarcal é um compromisso assumido desde o nosso nascimento como gestoras de um negócio de comunicação. Para tanto e, inevitavelmente, esse compromisso se reflete em nossos conteúdos e na forma como nos colocamos no mundo.

Mesmo com estruturas infinitamente menores do que os grandes veículos, é urgente observar o aumento de novos negócios em comunicação e a forma que cada um deles têm utilizado para continuarem de pé, mesmo diante de um cenário tão adverso. Portanto, apoiar a sustentabilidade desses novos veículos é, também, apoiar um futuro com narrativas mais plurais. E não apenas nos conteúdos, mas na estrutura, na gestão e na liderança de novos empreendimentos de comunicação.

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Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e moradora do Jardim Miriam (ZS)

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