Angélica Müller tem 25 anos, é palhaça e moradora do bairro de Perus. Seu relato faz parte do especial “Ser LGBT+ na periferia”. Clique aqui para ler o conteúdo completo.

Sou Angélica (nome que minha irmã escolheu quando eu ainda vivia na barriga da minha mãe), ou Gica (como sou chamada por quem é parça, ou quem acha que é parça), ou Gi (como o pessoal de casa me chama), ou Cangica (o nome que escolhi pra minha palhaça). Tenho 25 anos de vida, e sou nascida e criada do Bairro de Perus, meu quintal de casa, zona noroeste de São Paulo (SP).

Com uns 14 anos de idade me envolvi com uma galera que fazia teatro no CEU( Centro de Educação Unificado) Perus e por esse mundo fiquei. Desde então eu trabalho com Teatro, Produção Cultural e Palhaçaria, tendo como minha “formação de ser artista” o meu trabalho/militância/aprendizado no Território Cultural de Perus, mais fortemente na Biblioteca Padre José de Anchieta, com coordenação de Beth Pedrosa (amiga e mestra da vida) e na Comunidade Cultural Quilombaque (minha segunda casa, coletiva de irmãos e amigos), além de cursos e formações formais nas linguagens de atriz e palhaça. Amo os carnavais de rua e estou no caminho de (tentar) tocar percussão rs. Atualmente dou aulas de Palhaço em um Circo Escola na Cidade de Franco da Rocha (que é vizinha do bairro de Perus) e tenho uma Companhia de Teatro com Daniela Biancardi (que é minha companheira no amor e minha mestra nas artes palhacísticas).

Quando pequena eu era um diabo só! Desastrada, estabanada e vivia sempre encardida e em cima das árvores e dos muros, minha mãe costumava me chamar de “Filhote de Élio”, este que era meu pai, com o qual eu tinha uma personalidade, digamos que, semelhante. Eu me lembro de nesta época da vida, desejar muito que quando eu crescesse, não virar uma menina como as meninas (adolescentes e adultas) que eu via no meu convívio, eu queria ser diferente, eu queria ser eu mesma, eu não queria me adequar.

Quando eu tinha de 11 para 12 anos, eu supus que, por eu não ser feminina como minhas amigas, irmã e primas, teria que condicionalmente ser lésbica. E isso me gerou um pânico, um medo e eu chorei porque não queria. Então fui me adequando (como pude), para ter uma personalidade, e aparência mais femininas e segui minha adolescência me relacionando com homens, alguns legais e incríveis que são amigos até hoje e outros que nem um pouco legais e nem um pouco amigos. Tinha pouquíssimas referências de pessoas LGBTs na adolescência, e as que tinha não eram muito próximas.  Eu sentia atração por algumas mulheres, mas tudo muito vago e eu não me permitia deixar esse sentimento se aprofundar.

Então segui assim, “hétera”, até meus 22 anos. Eu estava muito ativa culturalmente e politicamente na época, acabara de sair de um relacionamento muito adoecedor, e havia feito um trato comigo mesma, de que nenhuma convenção social me impediria de ser feliz. Neste ano, então, voltei a estudar e reencontrei Dani (que já havia conhecido na adolescência, porém com uma relação estritamente profissional) e acho que foi uma conexão instantânea. Nos apaixonamos e eu me assustei um pouco com o que sentia, não estava compreendendo o que passava por mim. Então fomos nos conquistando e eu fui entendendo o que era, eu sinto que foi tudo muito natural, que eu não tive um momento em que falei pra mim mesma “agora vou me relacionar com uma mulher”, simplesmente aconteceu. No início, eu não via a possibilidade de uma relação duradoura, talvez por medo de assumi-la a amigos e familiares, porém não houve outro caminho, pois fomos nos apaixonando cada vez mais.

“O Passo de Duas”trata do cerceamento da mulher através dos tempos históricos, e da paixão de duas mulheres.

Crédito: arquivo pessoal

Então, chegou o momento que precisei contar as pessoas sobre a minha relação, e com os amigos as reações foram as mais diversas, desde “tem certeza que é isso mesmo?”ou “ah mas vocês não podem namorar, você precisa ficar com muitas outras mulheres, essa é só a primeira” e até a mais lindinha que foi “eu já sabia, só estava esperando o dia que isso ia acontecer, bem vinda ao clube!”.

Quando fui contar pra minha família, contei primeiro à minha irmã, por termos grande amizade e sermos confidentes nas questões amorosas. Depois decidi que contaria para minha mãe, por ser ela muito aberta e consciente politicamente. Porém, para minha surpresa sua reação foi muito difícil, e ela se negou a aceitar e tivemos algumas discussões e momentos de tristeza entre as duas. Fui contar então ao meu pai (o qual eu havia esperado para contar, pois achei que não compreenderia) e para minha surpresa (desta vez, positiva) ele foi o homem mais doce e compreensivo que podia ser. Cuidou de meus sentimentos e me apoiou desde então, e fez minha mudança para a casa da Dani, quando mais tarde vim morar com ela (parece que o estereótipo de que as lésbicas “casam” logo é verdade). Então contei aos meu sobrinhos de 12 e nove anos (na época), que acharam o máximo terem duas tias. Pouco tempo depois, e depois de um processo de entendimento muito profundo, minha mãe conseguiu compreender e aceitar nossa relação e hoje me dá um apoio comovente e extremamente sincero e humano.

Dani e eu estamos juntas há dois anos e alguns meses e ela me ajuda e me ajudou muito com essas questões, por ser mais velha e por se relacionar com mulheres há mais tempo que eu.

Atualmente temos um número de palhaças que se chama “O Passo de Duas”, que trata do cerceamento da mulher através dos tempos históricos, e da paixão de duas mulheres, com todas as suas belezas e contradições, terminando com uma ode a todas as mulheres lésbicas que vieram antes de nós. Com este número estivemos em lugares incríveis como o “Boteco da Diversidade – Visibilidade Lésbica” onde ele teve sua estreia, e também integramos uma espetáculo de circo LGBTQI+ que foi “vetado” de ser apresentado em uma das maiores instituições culturais do país, com a justificativa de apresentar conteúdo “muito forte”.

Mais recentemente, fomos aprovadas para um Festival Latinoamericano de Circo LGBTQI+ em Montevidéu no Uruguai, o que foi uma grande surpresa e alegria pra nós, que fizemos uma vaquinha online para conseguir pagar nossas passagens. Estávamos recebendo apoio de muitas pessoas queridas, quando meu pai teve complicações com uma doença crônica que já tinha há algum tempo, e minha cabeça se perdeu dentro de tudo isso. Não sabia mais o que fazer diante dessa situação do meu pai hospitalizado e a viagem se aproximando.

A viagem era o maior orgulho dele, pois nunca ninguém da minha família havia saído do país. No momento que eu disse a ele que estava preocupada com isso, ele disse pra eu me tranquilizar, que quando o dia da viagem chegasse, ele já não estaria mais hospitalizado. E assim foi, porém, não como eu esperava. Quatro dias antes da viagem meu pai faleceu e foi devastador para mim. Eu simplesmente tirei da minha cabeça a possibilidade dessa viagem existir, mas, minha mãe, irmã e familiares mais próximos fizeram um pedido coletivo para que essa viagem acontecesse e assim o fiz, pela conquista de luta que ela representa e pela memória dele.

Esta viagem foi imensamente importante em minha vida, pelo que ela representa. Por ser uma mulher periférica, saindo do país pela primeira vez, junto com sua companheira para apresentar um número que fala sobre o universo lésbico. Número este que foi impedido de ser apresentado no Brasil.

O que estamos vivendo no Brasil é algo perigosíssimo e preocupante, nossos irmãos e irmãs estão morrendo e perdemos direitos a cada dia, porém, simultaneamente vejo em nós, uma força que nunca houve na história deste país, nunca nos afirmamos tanto, nunca tivemos tantas referências políticas, sociais e artísticas de LGBTs, mulheres, negros e periféricos. Acredito que temos uma batalha longa pela frente contra esse fascismo porco que está aí, mas acredito mais ainda que temos um coletivo de enfrentamento muito maior, porque temos profundidade e coerência em nossa luta. Não aceitaremos essa tentativa de retrocesso vazio, liderada por um falso moralismo daqueles que tremem de medo de perder seus privilégios, porque acredito que é pra frente que se ama!

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