Por Redação | 06/05/2020

Este relato integra a reportagem Covid-19: professoras da periferia explicam por que a educação está em risco

Foram poucas as aulas lecionadas, porque a história toda começa no início de março. Um vírus que assola, vira pandemia e chega até a América Latina, ao nosso país, a São Paulo. E nos faz tomar medidas drásticas.

Fomos avisados no final de semana. Na segunda-feira, 16 de março, já recebemos poucos alunos. Uma semana antes nós já havíamos começado a trabalhar a questão do vírus de maneira interdisciplinar. 

‘Pegou todo mundo de surpresa’

Alguns professores já começavam a introduzir a prática de lavar as mãos, de informar e de fazer até folders, que não chegaram a ser entregues. Nós não tivemos tempo de falar ‘vocês ficam em casa durante esse período e o ensino será assim, assim e assim’, porque pegou todo mundo de surpresa. Não só na China, mas todos nós nesse processo.

Eu só me recordo que, na quarta-feira, 18 de março, um dia que teve ainda menos alunos, nós pedíamos para eles voltarem para casa, para cuidar das pessoas mais velhas, mas eles não queriam ir para casa. 

Geralmente, a gente, que dá aula em escola integral, encontra muito dessas falas. Os alunos não querem ficar em casa. Eles ficam oito horas do dia dentro da escola e nas férias pedem para ir para a escola.

Comecei a refletir sobre como seriam esses dias de quarentena. Até então, eu não sabia quanto tempo seria. Me recordei do afastamento que fizemos durante o surto de gripe H1N1, em 2009.

Eu estava na escola particular e me recordo que foram quinze dias. Não foram dias estendidos como nós estamos passando agora. Eu me recordo que a escola pegou o hábito de colocar uma máquina de álcool em gel no corredor. Antes de entrar em sala, nós passávamos nas mãos e, assim, eram os cuidados. 

Foi um momento de olhar a escola vazia, bem no começo do ano letivo e pensar ‘caramba, quando é que a gente volta, quando é que isso vai passar, como voltaremos’?

Na quinta e sexta-feira, 19 e 20 de março, nós já não tínhamos mais alunos, alguns responsáveis iam até a escola para saber quais seriam os próximos passos. Era muito ruim, porque nós também não tínhamos a possibilidade de sanar essas dúvidas dos responsáveis, porque também eram dúvidas nossas.

Foi um momento de olhar a escola vazia, bem no começo do ano letivo e pensar ‘caramba, quando é que a gente volta, quando é que isso vai passar, como voltaremos’? Para mim, foi muito tocante. Acostumada à rua, como é que eu iria ficar em casa?

Na rede estadual de educação, a primeira semana foi bem atípica. Depois, entramos com o período quinzenal de recesso, e nesse recesso foi solicitado que nós entregássemos, de alguma forma, atividades para os alunos fazerem.

O desafio do ensino à distância onde não há sequer internet

Dentro da escola da qual estou hoje, criamos um blog, onde colocamos atividades para os alunos terem acesso. Para mim, trabalhar com um blog também foi outra coisa muito dolorida e muito conflitante, porque sou ativista e ‘como mandar atividades por blog?’ Sendo que nem todos os alunos têm acesso ao computador, ao celular, à internet ou lugar específico para o estudo? 

Eu moro em um bairro bem periférico de Caieiras, e eu fico pensando como é que essas pessoas vão fazer essas atividades? Tem pessoas que não têm celular. Há casas que não têm mesas. Há famílias que não são letradas. Então, como vão auxiliar?

E eu ficava pensando ‘se a gente entrar nesse barco, a gente pode perder nossos lugares, com esse ensino à distância’. Mas eu entendo que se fosse em uma escola particular, nós teríamos que fazer também — e muitas vezes nem questionaria.

Tem pessoas que não têm celular. Há casas que não têm mesas. Há famílias que não são letradas. Então, como vão auxiliar?

Mas também me fiz outra questão. É justo com as pessoas que têm esse acesso? Os estudantes que têm esse acesso? Será que é justo com eles?

Depois desses quinze dias, nós entramos no período de férias e foram mais 15 dias, não houve corte salarial, não houve corte das férias, todos os funcionários receberam suas férias da forma que deveriam.

Nós entramos em período de férias e voltamos agora no dia 23 de abril, com orientações inúmeras, gigantescas, muitas informações da Secretaria Estadual de Educação. Eles voltaram com uma parte educacional à distância, televisiva, eu vejo um movimento muito assertivo, como uma tentativa que esse ensino chegue a todos os alunos.

Professora Joice Aziza em atividade sobre questão racial junto aos estudantes

Crédito: Arquivo pessoal



Na escola onde estou foi adotada a seguinte prática: além das atividades no blog e aquelas oferecidas pela Secretaria de Educação, aquelas atividades que vão para o blog são impressas e vão para a casa do aluno. Então, o secretário da escola faz a ligação para todos aqueles alunos que ele possui contato, porque é muito difícil você ter contato de todo mundo na periferia, eles mudam de telefone frequentemente.

Então, qual foi a orientação paralela a isso: aqueles alunos que tinham contato com outros mais próximos que avisassem que o kit deles estava lá e que poderia ser retirado. Então, com aqueles alunos que a gente conseguiu contato, a gestão e secretaria, a movimentação é que esses alunos recebam as atividades de qualquer forma.

É o momento de aprender com as pessoas mais velhas que estão em casa. É o momento de aprender com aquela pessoa que não tem um recurso financeiro para comprar determinados itens de limpeza, mas consegue fazer em casa

 

A orientação da Diretoria Regional de Ensino (DRE) e Secretaria Estadual de Educação é que façamos atividades que os alunos consigam fazer de forma autônoma.

Mas, para mim, é um momento de ressignificar o próprio aprendizado, em um momento de mudança constante, porque eu vejo que é o momento desses alunos — até mesmo os que não vão ter acesso educacional e acadêmico —  de aprender outras coisas.

É o momento de aprender com as pessoas mais velhas que estão em casa. É o momento de aprender com aquela pessoa que não tem um recurso financeiro para comprar determinados itens de limpeza, mas consegue fazer em casa. Ouvir as histórias daquelas pessoas que estão em casa.

Eu não me preocupo com o que eles estão fazendo agora. Se essas atividades vão chegar. De fato, eu não estou. Existe uma preocupação, mas ela não é bitolada. Porque eles precisam ter outros aprendizados. A gente precisa parar para recebê-los não na questão afetiva, mas de uma questão sobre o que esses estudantes têm para trazer para nós.

Que é o momento de escuta atenta. Como é que a gente vai receber esses alunos? Porque quando a gente volta das férias, é uma coisa de contar o que fizeram. Mas, agora, nós estamos mais que o período de férias afastado. Então, como é que vai ser esse retorno, como iremos recebê-los?

‘A base da escola é o aluno’

Vamos ter que ter um olhar diferente, um novo olhar para a Educação, para nós, para a gente se ressignificar. A base da escola é o aluno. Se a gente tirar os alunos é escola? Não, não é. Não é uma escola. Pode tirar direção, vice-direção, coordenador/a, professores, mas se não tiver os alunos não tem porque existir escola. 

A base são os alunos. Sentir aquela ausência dos alunos foi muito tocante, muito triste. Estando em casa agora, voltando a lecionar de forma bem diferente, de forma remota, e cuidando da minha sobrinha de 5 anos me faz pensar no outro, porque a gente fala que pensa no outro, mas não é tanto assim. 

A gente só pensa mesmo quando está no lugar desse outro. Hoje, eu me preocupo muito mais com quem cuida desses alunos. Quantas crianças tem nessa casa. Eu, com oito horas de trabalho em casa, cuidando da minha sobrinha alguns dias, fico pensando em como me dividir em tudo — cuidando dela, da comida, reunião — e isso porque é criança de 5 anos.

Então, o cuidado com essas crianças que estão dentro de casa também precisa pensar nisso, porque essas crianças muitas vezes estão sendo abandonadas dentro dos próprios lares. A parte ociosa dessa criança, ou, então, só a televisão ela precisa ver como essa criança está estudando de forma remota, como está chegando para ela. 

O não adiamento do ENEM é um processo de seleção, um processo de seleção do qual vai entrar somente a elite

 

Espero que exista uma conscientização dos profissionais da rede estadual, que olhe com carinho esses alunos que têm acesso. A gente não pode ficar sem fazer nada, a gente tem que fazer alguma coisa.

Nós temos alunos do ensino médio que vão fazer Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), pois o governo estadual não adiou o Enem. E, pelo que vejo, não vai adiar, o não adiamento do Enem é um processo de seleção, um processo de seleção do qual vai entrar somente a elite.

Se a gente não respaldar esses alunos, principalmente os que vão entrar no Enem, mais uma vez é a elite que vai estar nas universidades públicas. Então, a gente precisa dar o básico para que esses alunos possam ter o mínimo.

Para mim, enquanto ativista, não basta eu ir para as ruas, pedir várias reivindicar várias questões e onde eu trabalho também. Então, pra mim, eu estou sendo ativista também para dar subsídios para que esses alunos possam, no mínimo, fazer esse Enem. 

Se a gente não respaldar esses alunos, principalmente os que vão entrar no Enem, mais uma vez é a elite que vai estar nas universidades públicas. Então, a gente precisa dar o básico para que esses alunos possam ter o mínimo.

Porque os nossos alunos da periferia precisam ter pelo menos garantida essa oportunidade de fazer o Enem, já que eles não vão cancelar. O interesse deles é separar mesmo, colocar o pobre cada vez mais pobre, eu não vejo uma política educacional efetiva para a periferia, a não ser que nós, professores, façamos o nosso papel.


Joice Aziza, 40, é coordenadora e professora de História em uma escola de educação em tempo integral da rede de ensino estadual de São Paulo. É feminista e ativista do Movimento Negro.

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