por Luiza Lemos 

Considerado um dos países mais ansiosos do mundo, o Brasil tem mais de 18,6 milhões de pessoas diagnosticadas com transtorno de ansiedade. No relatório da Organização Mundial da Saúde, os brasileiros estão no quarto lugar do ranking de pessoas com depressão.

Por ano, mais de 11 mil pessoas decidem tirar a própria vida no país. Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil, uma pessoa comete o ato a cada 45 minutos.Muitos pensam que essa realidade é reservada apenas a classes mais altas, que são as que normalmente conseguem acesso a tratamentos psicológicos e psiquiátricos.

Com serviços inacessíveis para pessoas com baixa renda e em situação vulnerável, muitos sofrem com problemas psicológicos sem saber que aquilo é um problema  psicológico de fato. A situação é tão grave que não há dados da OMS ou do Ministério da Saúde sobre a saúde mental na periferia ou em regiões de baixa renda.

Pensando nessa problemática, a psicóloga Natália Silva fundou o Grupo Reinserir, que hoje é uma Clínica de Psicologia Ampliada voltado ao público periférico,  atendendo majoritariamente mulheres pretas periféricas, LGBTs e pessoas com baixa renda que necessitam de atendimento psicológico especializado a valores acessíveis.

Ela conta que a ideia do grupo surgiu com situações que viveu em ONG’s, setores de recursos humanos e empresas que trabalhou. “Vivi muitos impasses em minha carreira, convivendo com estigmas contra a população periférica, preta e LGBT. Tudo isto, em junção a minha formação acadêmica e política, me fizeram repensar meus caminhos, como e com quem eu gostaria de atuar”, conta.

A partir destes impasses, Natália criou o Reinserir. “Tudo isto, em junção a minha formação acadêmica e política, me fizeram repensar meus caminhos, como e com quem eu gostaria de atuar. E aí eu escrevo o Reinserir. Que hoje é uma Clínica Ampliada de Psicologia, que além de oferecer atendimento psicológico a valores acessíveis a todas estas populações, também se preocupa com a (re)inserção destas pessoas no mercado de trabalho”, diz.

Ela considera a clínica um ambiente de transformação acessível. “O Reinserir é uma Clínica diferenciada: é popular, acessível, crítica, inclusiva e humanizada”, aponta.

Resultado

Thamara Prado faz atendimento psicológico

Crédito: Arquivo pessoal.

A anfitriã da Arena Corinthians Thamara Prado, de 28 anos, nunca havia feito acompanhamento psicológico antes. “Ano passado eu estava procurando um local para fazer terapia e uma amiga encontrou na internet e me recomendou. Nunca tinha feito acompanhamento psicológico, não tinha interesse, mas do ano passado para este senti a necessidade de procurar um especialista”, diz.

Ela diz que primeiro se sentiu interessada e depois necessitada. “O ano de 2019 foi pesado
para mim, tinha crises de choro, não aguentava mais. Tive que procurar um psicólogo e foi
aí que o Reinserir caiu como uma luva para mim. Me sinto uma pessoa mais calma hoje em dia, mais leve e mais cautelosa, principalmente com a ajuda do Reinserir. Depois que entrei no Grupo, me sinto muito bem”, diz.

Como mulher preta e moradora do Parque Jandaia, em Carapicuíba, Thamara pensa que a
pressão pode ter influenciado na necessidade de auxílio psicológico.

“Em vários momentos da minha vida, principalmente adulta, comecei a entender que muitas coisas aconteceram justamente por ser preta. Então há uma certa necessidade psicológica de ter um amparo e apoio para poder lidar com certas situações. Tanto no trabalho como na faculdade, relacionamentos amorosos e mais acontecem dentro do racismo e acabamos sentindo muito”, afirma.

Ela conta que em um dos relacionamentos, o namorado a escondia e ela entende que foi por racismo. “Ele não postava foto comigo, me escondia e não me assumia nem no Facebook. Após terminarmos, ele começou a namorar uma garota branca e fez questão de mostrá-la ao mundo. Passei muitas situações nos meus 28 anos em que precisava de apoio psicológico, mas agora eu comecei a aprender a lidar e sinto que faz totalmente a diferença”, conta.

Por 50 minutos e 1 dia por semana, Thamara faz as sessões com uma psicóloga que a atende. Ela também sente que o Grupo  mudou o estilo de vida dela.

“Hoje eu sinto que reajo com mais cautela, com mais calma. É aquilo, não coloco mais o carro na frente dos bois, tudo isso acaba refletindo em todos os outros cantos da minha vida, tanto profissional, que é uma batalha que travo nas sessões até no campo pessoal, onde tenho dificuldade de me relacionar, então preferi me afastar de boa parte para eu poder cuidar de mim, para eu estar pronta para o que vier em todos os setores da minha vida”, conta.

O atendimento humanizado também foi algo importante para a melhora de Thamara. “Me sinto mais à vontade, porque acho que a questão de conhecer e não passar pelos  problemas de forma rasa e superficial é muito mais importante, então eu prefiro e me sinto muito confortável”, diz.

Como funciona o serviço

Dentro da clínica e inclusive nas sessões, Natália conta que há a montagem de um currículo  do paciente, feito com conjunto com ele e orientações para entrevistas, disponibilização de acesso a sites de empregos, etc.

“Atuamos com algumas empresas parceiras que passam todo o processo de recrutamento e seleção pra gente. A nossa prioridade são sempre os pacientes para ocuparem essas vagas.

Todas as empresas parceiras conhecem e respeitam nosso trabalho e premissas, logo entende que reinserir uma pessoa trans ou preta no mercado de trabalho vai muito além de contratá-la. É aí que o Reinserir entra para orientar estas empresas no que diz respeito a acesso, espaço físico, respeito a nomenclaturas, informações a todos da empresa”

Para que os pacientes se sintam representados, confortáveis e acolhidos pelo serviço, Natália preza pela diversidade dos psicólogos e da equipe da clínica.

“Temos uma equipe de psicólogos bem diversa no que diz respeito à gênero, raça,  orientação sexual e identidade de gênero.  Além da formação acadêmica em si, essencial para desenvolver as nossas principais atividades dentro da clínica, os psicólogos estão em constante processo de  aperfeiçoamento acadêmico que também vai atravessar o campo da política e das temáticas sociais, como homofobia, racismo, transfobia, machismo”.

Além do auxílio psicológico e também no setor do trabalho, o Grupo Reinserir busca aumentar o interesse dos pacientes pelas questões sociais.

“Para que ele possa se reaver quanto sujeito e sociedade, perceber que é agente capaz de transformar a realidade na qual está inserido. Gostamos sempre de pontuar que o espaço da terapia é sim uma rede de apoio e um espaço de transformação, mas a importância de procurar redes e possibilidades de transformAÇÃO em outros espaços também: coletivos, centros acadêmicos e outros”, conta.

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