Sou negra. Hoje eu sei. Me orgulho, solto os cabelos armados e com eles me armo contra todo e qualquer preconceito. Sou negra. Levanto a bandeira, a balanço com força e vou pra cima de quem preciso for.

Sou negra, mas cresci uma criança branca. No cartório, só viram a cútis clara de meu pai. Fizeram questão de apagar dos papeis a memória preta de minha família. O nariz largo de minha mãe. O cabelo crespo de minhas tias. Sou negra. Mas durante toda a minha infância me gritaram por “moreninha”, a mais moreninha entre as primas brancas, magras e de cabelos lisos na cintura.

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Jéssica Moreira/ Créditos: Tamiris Gomes

Sou negra. Independentemente do tom de minha pele misturada – preta, vermelha, amarela – sou negra. Nasci cabeluda, cresci com mais cabelo ainda. Cabelo ruim. Cabelo embaraçado. Cabelo crespo que cobria todas as minhas costas e o meu coração dolorido de insulto. Logo, se transformou também em cabelo preso. E preso permaneceu até os sete anos, quando cortei chanelzinho, com uma única esperança: vai crescer liso. Ledo engano.

Lava, prende pra trás, penteia o cacho enroscado pra ir para a escola. Até que, aos 9, eu conheci o quente da chapinha e a felicidade artificial que ela me proporcionava. Só estava bonita, quando a madeixa estava lisa. Antes, já havia tentado relaxamentos, nada pegava. Era volumoso demais, diziam as cabeleireiras.

Começou aí a ditadura da minha vida. Até que, aos 17, foi a vez do formol, da escova progressiva que prometia milagre eterno. A primeira deu certo, enquanto a segunda quase me matou asfixiada, salva pelas promessas de que nunca mais alisaria o cabelo com química. Foram três anos esperando o cabelo crescer, suportando a raiz enrolada com o restante liso.

Nesse processo, ainda fazia escova e chapinha toda semana. Cabelo enrolado pra ir para a faculdade, pro trabalho. Mas cabelo liso para o fim de semana, pra balada, pro encontro. Pra mim, ninguém jamais se interessaria por mim de cabelo enrolado. Até que, em um belo dia, eu descobri que ali, do lado de minha casa, um quase vilarejo chamado Comunidade Cultural Quilombaque concentrava um tanto de mulheres de cabelos enrolados, cacheados, black power, trançados e volumosos. E como elas eram bonitas!

Descobri ali que eu também poderia ser bela, também poderia me libertar das correntes que ainda hoje escravizam, ainda hoje mutilam memórias e destroem nossa identidade. Dos meus 20 anos pra cá, as escovas e chapinhas foram diminuindo. Ter feito uma entrevista de emprego na qual a chefe tinha cabelos crespos também me fez crer na revolução dos fios. Em 2013, só me alisei duas vezes. E neste ano, nenhuma vez.

Jéssica Moreira/Créditos: Bruna Martinho

Jéssica Moreira/Créditos: Bruna Martinho

Meus cachos hoje parecem artigo de luxo. No trem, no busão ou até no avião. “Nossa, o meu era assim. Mas eu só acho bonito nos outros”. “Licença moça, com todo respeito, mas muito legal seu cabelo assim, diferente mesmo”. Diferente? Esse é o cabelo natural da maioria das mulheres desse Brasil. Mas que, como eu, foram criadas em uma sociedade racista, que esconde a beleza por trás de nosso sofrimento.

Quantos anos eu sofri. Quantas vezes me tranquei no quarto pra maldizer do meu cabelo até minha última geração de antepassados. Quantas vezes eu me neguei, eu prendi minha história dentro de mim, dentro dos padrões dos filmes de Hollywood.

Me culpei de uma culpa que não era minha. Já que “esqueceram” de fazer a Barbie com nariz de batata; a novela com mulheres negras no poder; o cabelo enrolado como atração do domingo à tarde. E hoje, ao ouvir de minha mãe que minha tataravó era escrava, armar meu cabelo é resgatar o meu eu perdido entre as tentativas de alisamento; é me encontrar com a memória perdida no meio das fotos em preto e branco. É a certeza de que as correntes daquela tataravó estão sendo destroçadas por meus fios, hoje, enrolados.

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