Paloma Vasconcelos, 27, é jornalista da Agência Mural de Jornalismo das Periferias e da Ponte. É moradora da Vila Nova Cachoeirinha

O ano de 2018 tem sido um ano diferente. Um ano de reflexão e de autoconhecimento. São 27 anos convivendo comigo e ainda me conheço tão pouco. Faz tempo que não escrevo um textão, mas sinto que preciso falar sobre isso: mais ou menos em agosto de 2008, descobri que gosto de meninas e não de meninos – como me forcei a tentar até os 17 anos; ou seja, há 10 me identifico como sapatão. Dez anos de muitos baixos e poucos altos. Naquela época, era mais fácil me identificarem como mulher lésbica.

Há um ano e meio deixou de ser óbvio. Larguei todas as roupas femininas e cortei o cabelo. E, obviamente, pra sociedade, era ali que estava a minha feminilidade. A partir desse momento, quando abri mão disso, essa mesma sociedade passou a me ler como um homem. Um homem branco e hétero. Parei de receber olhares tortos quando saio de casa, sozinha, ou quando ando de mãos dadas com uma mulher. Mas no banheiro, não. Os olhares ainda me cercam, já que o banheiro feminino deixou de ser um lugar pra mim. Esses dias, no banheiro da rodoviária do Rio, escutei e senti o ódio de uma senhora que gritou “nem é mulher, tá fazendo o que aqui?”. Eu achava que tinha me acostumado com isso. Mas não. E não tem jeito, seja em SP ou no RJ, não sou bem aceita nesse lugar tão binário.

Paloma Vasconcelos

Paloma Vasconcelos/ Arquivo pessoal

Crédito: Arquivo pessoal

 

A invisibilidade da minha sexualidade gerou um caos na minha cabeça. Por muito tempo achei que a cisgeneridade não mais me representava. Pensei que pudesse ser um homem trans, mesmo tendo tanta aversão à figura masculina. até hoje, devo confessar, ainda acho que tô na caixinha errada. Não-binaridade ou gênero fluido parecem me caber. Mas, da mesma forma que descobri ser lésbica pelo olhar dos outros, será que é o outro que vai me dizer se sou ou não mulher?

Engraçado, né? 24h por dia eu luto contra a heteronormatividade branca e é exatamente assim que o mundo me lê. Só que, veja bem, tudo isso é efeito do privilégio branco. Uma mana negra na mesma situação não estaria de boa sendo lida como um homem, porque a gente vive no país mais racista do mundo. Aliás, quando falamos de mulheres negras lésbicas tudo é bem mais pesado, Luana Barbosa e Marielle Franco estão aí pra mostrar isso.

Esse ano, mais do que nunca, percebo a importância de agosto ser o mês da visibilidade lésbica, porque é um ato político ser quem eu sou: sapatão, sim. Lembrando o tempo inteiro que eu sou uma mulher, que o meu cabelo e as minhas roupas não definem quem eu sou.

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