Este conteúdo faz parte do especial #Deixaameninajogar produzido em parceria com o Portal Lunetas e o Think Olga.

Quando criança miúda, era do portão pra dentro que eu existia. Era ali – entre o asfalto quente e o concreto do meu quintal – que se erguiam as grades cor-de-laranja que me impediam de viver a rua. Era no terreiro da vó que a bicicleta girava o mundo, dando voltas e voltas em torno de si mesma.

Enquanto isso, o menino, do lado de fora, ganhava o céu em sua pipa. Descia correndo a ladeira atrás da bola que não parava de quicar. E punha o chinelo na beirada do passeio, pra marcar o gol do futebol improvisado que eu só jogava no um metro quadrado da frente de casa.

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Era nesse chão rústico que eu e minha prima Aline inventávamos grandes partidas de futebol, até que a bola, então, caía na casa da vizinha, o cachorro comia num só impulso ou uma mão invisível a jogava de volta para o nosso lado do muro.

No meu diário, as memórias cotidianas desses dias vêm marcadas de caneta colorida. No início dos anos 2000, já existia a notícia meio solta de que as Olimpíadas poderiam ser no Brasil. “Eu vou ter 20 anos’, ‘eu, dezenove’, a gente dizia, enquanto a esperança dava pulos de corda na escada de chão vermelho, abrindo o sorriso nas meninas que nunca puderam sair do portão para jogar bola.

Garotas que jogam

Eu nunca soube se era boa ou se poderia ser boa. Eu parei antes. Na quarta série, eu, a Cleibisan e a Jéssica Caroline éramos um ótimo trio nas partidas de latinha amassada naqueles quinze minutos que antecedem o início das aulas.

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A gente chegava sem pedir licença. Sem escolha, os meninos começaram a aceitar e até nos chamar para jogar com eles. A brincadeira ganhou ares de campeonato na escola. Pedi uma chuteira a minha mãe, igual a das outras meninas. De cinza, ela voltava para casa amarronzada, de tanto usar o calçado no jogo.

Mas a mãe nunca brigou, e o pai achava engraçado eu falando que ‘era boa de bola’. Aqui dentro, tinha aquele gostinho em saber fazer algo que só era considerado de menino. Mas, no fundo, o que existia era uma necessidade gigante de ser reconhecida pelo meu pai do mesmo modo que os meus irmãos mais velhos eram. É curioso isso na infância de uma menina – e por que não dizer dolorido -, criamos várias estratégias para termos, ao menos um pouco, a credibilidade e atenção que têm os meninos ao nosso redor.

Pois, bem. A primeira etapa do ensino fundamental acabou, eu mudei de escola, nunca mais encontrei minhas parceiras de time. Os meus horários não cruzavam mais com os da minha prima. A sola da minha chuteira rasgou, e eu não pedi uma nova pra minha mãe.

Na nova escola, os meninos não deixavam a gente jogar, e as demais alunas  não tinham interesse no jogo com os pés. Sem me questionar muito, larguei de vez o futebol.

Time de Handebol de Ccaieiras, em 2006. Crédito: Arquivo pessoal

Crédito: Arquivo pessoal

Dois anos se passaram longe das atividades físicas. Mas, em 2004, quando eu já estava na sétima série, uma nova modalidade começou a me abrilhantar os olhos. Eu estudava em Caieiras, um município vizinho de Perus, na região noroeste de São Paulo. Ao lado da minha escola havia o Centro Esportivo da cidade, onde os adolescentes iam quando não havia aula.

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Vira e mexe a cidade sediava os Jogos Regionais de São Paulo. Era tão emocionante a abertura, que eu fazia questão de assistir. Imaginava que aquilo que acontecia naquela cidadezinha era uma amostra do que poderia ser as Olimpíadas no Brasil. Vinham atletas de todos os cantos e nossas escolas serviam de alojamento para todos eles, promovendo uma verdadeira troca cultural entre todos. Havia, então, um sentimento de que nosso lugar era de algum modo importante. E era. E é. 

Handebol, uma paixão

Na mesma época, um tanto de gente da escola começou a treinar handebol. Era uma febre na cidade. Quase todo mundo era um pouco envolvido com o esporte, mesmo quando não o jogava pra valer. Um dia, eu resolvi brincar na aula de Educação Física e alguém me disse que eu mandava bem. Não pensei duas vezes, na mesma semana comecei a treinar no time da escola. 

Confesso com tristeza que, nessa época, minha grande preocupação – mesmo sendo uma menina de 13 anos – era com o corpo. Eu não queria engordar de jeito nenhum e achava que eu tinha que me exercitar por isso. Não tinha a menor ideia das tantas outras coisas que o esporte iria me ensinar dali pra frente.

Era tão gostoso, a gente se divertia um monte e eu comecei a me sentir parte de alguma coisa. A gente brincava dizendo que aquele era o Time das Doidas. Acho que foi nesse convívio que fiz as minhas melhores amigas dessa época.  

O gosto pelo esporte foi aumentando tanto, que não conseguia ficar sem jogar aos fins de semana e, como existia o Escola da Família, a gente não pensava duas vezes e passava tardes inteiras de sábado na quadra de cimento.

Jogos Regionais em Ubatuba, litoral de SP,em 2007.

Crédito: Arquivo pessoal

Em 2005, foi recriado o time de Caieiras de Handebol e quase todas as integrantes do time migraram para lá. No ano seguinte, participamos do nosso primeiro Jogos Regionais. A emoção que eu sentia ao ver as aberturas do evento, agora eu podia sentir representando a cidade onde estudava.  

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Fui, ainda, para dois outros torneios regionais, em Ubatuba e Caraguatatuba, litoral de São Paulo. Eram as primeiras vezes da minha vida que minha mãe deixava eu viajar sozinha. Parece clichê ou tema de palestra motivacional, mas o esporte me ensinou todo o senso de responsabilidade que hoje carrego. 

Cuidar de seus pertences, lavar seu próprio copo ou talheres, organizar seu uniforme, entender seus limites e o dos outros. Tudo isso são coisas que o esporte me proporcionou ainda na adolescência.

“Jogar em um time foi meu primeiro grande trabalho em grupo”

Jogar em um time foi meu primeiro grande trabalho em grupo. Solidariedade com quem cai e entender que andorinha sozinha nunca faz verão.  Não acredito que o destino de todas as meninas que jogam deva ser igual, mas eu sinto que estar em um time fez crescer em mim a necessidade de estar em um coletivo. Hoje, ao integrar alguns movimentos sociais na periferia de SP, sinto que a gênese de tudo isso – ao menos pra mim – está na experiência com o esporte.

Muito se fala hoje em trabalho horizontal nas organizações que atuam na área social. O handebol foi minha primeira experiência com isso. Se todas as sete jogadoras não estão em sintonia, atacando e defendendo, o time não vai ir bem, tampouco ganhar. 

O esporte me ensinou, literalmente, a ter jogo de cintura. Acredito que o corpo guarda as memórias afetivas e isso transcorre em mim nos dias de hoje. Não há perfeição. Eu, que sou muitas vezes considerada deboísta, já até briguei em quadra, mas depois joguei com a menina com quem havia discutido. Aprender a pedir desculpas, a enxergar a pessoa além do adversário que se apresenta. 

Afinal, como diria Sabotage, “Respeito é pra quem tem”. E eu aprendi que a rede que delimita a quadra da arquibancada não pode ser maior que a amizade e o respeito que devemos nutrir pelas demais companheiras de time ou nossas rivais.

E que perder é importante, mas aprender a ser resiliente também. Pois o jogo só acaba quando termina, como diria o ditado por aí. Isso me foi passado por um treinador, que disse um dia que não importava se eu me achava boa ou ruim no time, mas que minha função enquanto jogadora era sempre animar o time. A frase me veio à cabeça anos depois, com o meu pai internado na U.T.I de um hospital público, e eu tendo que reanimar o restante da minha família, mesmo com vontade de desistir.

Diria mais. O handebol me ensinou a ser a feminista que hoje eu sou e a viver da maneira mais prática possível o sentido de sororidade. Sem romanceio ou ilusões, mas sendo generosa às dores ou vitórias de outras meninas-mulheres.

E, por fim, a prática esportiva e a não representatividade me fez caminhar pelo jornalismo.  Não virei locutora, tampouco apresentadora do bate-papo vespertino. Escrevo sobre mulheres, sobre educação e periferia. Mas, olha só, próximo da abertura do primeiro mundial feminino de futebol televisionado, finalmente estou realizando o sonho de escrever sobre essas histórias ainda escondidas nas grandes telas.

“Vamo lá timê, vamo lá, vamo lá, vamo lá!”

Jogos Regionais, em Ubatuba, 2007. Crédito: Arquivo pessoal

Crédito: Arquivo pessoal

Jéssica Moreira, 28, treinou handebol amador por seis anos, é jornalista e cofundadora do Nós, mulheres da periferia. 

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