Por Gisele Alexandre, mãe do Pedro Henrique, moradora do Capão Redondo e correspondente na Agência Mural de Jornalismo das periferias.

“Como você dá conta?” Meu marido me fez essa pergunta depois de 45 dias juntos na quarentena, eu, ele e nosso filho de 8 anos, Pedro Henrique. Minha resposta pra ele foi: “Eu não dou”.

Confesso que já tentei dar conta das mil e uma tarefas diárias que tenho como mãe, dona de casa e profissional, mas isso foi antes de perceber que é mais fácil montar um cubo mágico de olhos fechados do que ser uma mulher na periferia. Em tempos de isolamento social, a sensação de que as tarefas nunca chegam ao fim ficou ainda mais forte.

Assim como para muitas mães, a principal preocupação nesse momento é com a saúde da família, especialmente do meu filho e dos idosos mais próximos. Nosso plano de saúde é o SUS (Sistema Único de Saúde) e, por uma triste coincidência, meu filho está na fila de espera para uma cirurgia com o otorrinolaringologia do Hospital do M’Boi Mirim, o mesmo que atualmente é referência no atendimento à pandemia da covid-19 na nossa região. 

O Pedro é o único neto dos meus pais, mas, por serem do grupo de risco devido a idade, está longe dos avós há quase dois meses. Nesse momento, a contaminação não me preocupa tanto, já que a quarentena está sendo cumprida por nós. A depressão causada pela solidão é uma realidade que aflige muitas pessoas nas periferias.

Os idosos que estão isolados em suas casas, longe daqueles que mais amam, especialmente dos netos, precisam de atenção e cuidado, mas a prioridade é que eles não morram pela Covid-19 e não de solidão. Ligamos todos os dias para os meus pais, falamos sobre muitos assuntos, inclusive sobre a minha preocupação. Mas não é a mesma coisa. O almoço do Dia das Mães será estranho sem a presença deles.

Também é preocupante e triste ver uma criança com tanta energia sem poder estudar, brincar, correr e nem interagir com outras crianças. Desde o dia 16 de março, quando o Secretaria Estadual da Educação determinou a suspensão gradual das aulas, o Pedro não frequenta mais a escola municipal e nem a ONG onde ele fica no contraturno escolar, ambas no Capão Redondo. 

Alguns dos nossos privilégios, entre eles ter uma internet de qualidade razoável, torna o confinamento menos doloroso. Os jogos online, que antes eram proibidos por mim, agora fazem parte da rotina dele e do pai. As aulas também ganharam versão online, com a plataforma que foi disponibilizada pela Prefeitura. Sempre ajudei meu filho com a lição, mas nunca tinha usado o computador – ferramenta essencial para o meu trabalho -, e só percebi isso durante a quarentena.

Nunca tinha explicado pro meu filho a quantidade de coisas que é possível fazer com um computador, o que é estranho já que passo mais horas em frente a tela do que fazendo alguma atividade com ele. Essa é uma das coisas que estamos aprendendo juntos na quarentena, eu ensino computação enquanto fazemos a lição e ele me mostra o site com jogos online educativos que a professora de informática usa em sala de aula.

Outro privilégio é ter um companheiro, já que 7 em cada 10 mães paulistanas cuidam sozinhas ou quase sozinhas dos filhos. Meu marido, que trabalha como garçom em um restaurante localizado na parte rica da cidade, durante a quarentena tem dividido comigo as tarefas de casa. Mas, é claro, ele não ocupa o meu papel de mãe e tem consciência disso. Nosso filho exige minha atenção praticamente o dia inteiro. Mesmo quando está ao lado do pai, se precisa de alguma coisa é a mim que ele busca.

Giselle criou seu próprio método de organização

Crédito: arquivo pessoal

Aqui no conforto do nosso pequeno apartamento de 53 m², não falta água na torneira e nem alimentação, direitos essenciais que, infelizmente, pra quem vive na periferia é sim um privilégio. Meu marido teve seu salário reduzido, mas não está no índice de desempregados que só cresce no país. Há mais de cinco anos faço parte da categoria de microempreendedores individuais, ou seja, não recebo nenhum benefício social como FGTS ou Seguro Desemprego e também não tenho estabilidade financeira. Minha renda depende do meu trabalho na área social e na comunicação.

Aliás, nesse período meu trabalho no jornalismo periférico nunca foi tão bem compreendido pela minha família. Entre reuniões, articulações, preparação de aulas, apuração e produção de conteúdo sobre a pandemia, sempre rola um tempinho para um papo sobre desigualdade social, por exemplo. Durante a quarentena, meu filho e meu marido começaram entender que o que eu faço é mais do que escrever notícias. 

Fico entre 10 horas e 12 horas no computador trabalhando. A quarentena me desafiou ainda mais no meu papel de mãe. Acompanho as notícias sobre a pandemia, mas poupo meu filho dessas informações. A vida já está bem difícil, as crianças precisam ser poupadas.

As poucas horas que tenho com o Pedro, busco ter momentos de atenção plena. Confesso que é difícil, muito difícil. Pra tentar equilibrar a rotina, criamos juntos, meu filho e eu, o Relógio da Quarentena. Ao mesmo tempo em que eu o ensinava como as horas funcionam, explicando a diferença entre 2h (manhã/madrugada) e 14h (duas da tarde), a gente definia os horários das atividade dele e, consequentemente, as minhas com ele. Esse esquema nos permitiu organizar nosso dia e evitar as brigas do que pode e o que não pode fazer. 

Estar perto fisicamente e sob o mesmo teto, muitas vezes não quer dizer estar junto.

Nesse tempo de tantas incertezas, em que é impossível saber como viveremos no futuro, ser mãe na periferia nos exige criar alternativas próprias para driblar as dificuldades. Estar perto fisicamente e sob o mesmo teto, muitas vezes não quer dizer estar junto. Estamos aprendendo que a atenção de qualidade é aquela que nos faz esquecer o que está lado de fora, se concentrando apenas nas necessidades uns nos outros, e também que é possível cuidar e demonstrar amor mesmo quando se está longe.

 

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Comentários

  1. As crianças nunca ficaram tão feliz, com tanto aconchego do papai e mamãe.

  2. Ler sobre a realidade de cada mãe na quarentena nos aproxima. A desigualdade, principalmente com quem não tem comida ou água na torneira, nos corrói imensamente. Que este período reforce a luta para uma uma sociedade onde os direitos básicos sejam para todos.

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