Já faz quase seis meses que uma parte de nós está confinada em casa. Enquanto a outra, por obrigação ou necessidade, precisa sair todos os dias para trabalhar. 

Aliás, são essas pessoas que, corajosamente, garantiram e continuam garantindo a sobrevivência de quem pode ficar em casa. É a história da Giulliana e da Isabel, mulheres sem direito à quarentena, que trabalham em supermercado e hospital respectivamente. Ou de enfermeiras e agentes comunitárias, que ficam entre o medo e a responsabilidade de seus ofícios.

É claro que tem, ainda, o grupo negacionista: do vírus, da máscara e, desconfio, até da vida. E também existe muita desinformação e notícias falsas, dificultando ainda mais a prevenção ao vírus. Mas isso é assunto para outro texto.

Hoje, porém, quero falar sobre a solidariedade periférica feminina, que não nasceu hoje, mas foi intensificada em razão da pandemia do novo coronavírus. Já trouxemos aqui as histórias de costureiras periféricas que estão produzindo máscaras de pano para doar ou vender a preços baixos entre seus vizinhos. 

Ou então, a história de Luana Vieira, com suas entregas de marmitex no Jardim Miriam, e Luciana Bispo, que disponibiliza cestas básicas no Morro dos Macacos, ambas na zona Sul de SP. Além da criatividade encontrada naquelas que estão produzindo o próprio sabão e distribuindo entre vizinhas e familiares no combate ao vírus. 

É importante, no entanto, dizer que esse tipo de solidariedade entre as mulheres não nasceu com a pandemia. Diferente de outros estratos da sociedade, a solidariedade feminina nas margens existe desde sempre.

São muitos os exemplos pelas periferias de todo o Brasil. Em São Paulo, é possível encontrar alguns deles pelo aplicativo da Rede de Apoio Humanitário nas e das Periferias (RAH), que mapeou mais 70 locais que estão distribuindo alimentos ou produtos de higiene por toda a cidade.

É importante, no entanto, dizer que esse tipo de solidariedade entre as mulheres não nasceu com a pandemia. Diferente de outros estratos da sociedade, a solidariedade feminina nas margens existe desde sempre. Com suas complexidades, criatividade e jeitos múltiplos de se fazer que atravessam os tempos. Aliás, nunca acaba, dada a omissão do Estado e a constante falta que ainda permeia nossos territórios.

Agentes populares de Saúde atuam auxiliando comunidades das periferias de SP

Crédito: Uneafro

As mulheres periféricas sempre se uniram em teias generosas de proteção e ajuda mútua. Se você tem de 20 a 30 anos e cresceu na periferia, deve lembrar da sua mãe ou tia saindo para trabalhar enquanto você ficava com as vizinhas, tias ou avós.

As mulheres periféricas sempre se uniram em teias generosas de proteção e ajuda mútua.

Aqui em casa, éramos em seis crianças no quintal, sem contar as agregadas. Minha mãe era costureira, saia às 6h da manhã e voltava às 18h da tarde, enquanto era a vó e as tias, alternando-se entre si, que garantiam nosso cuidado. 

Ainda são as mães de muitas outras jovens mulheres que fazem esse papel nos dias atuais. 

Se você é um pouquinho mais velha, também deve lembrar, mesmo que vagamente, como as mulheres lutaram (e ainda lutam) para a construção de escolas em ruas que ainda não eram sequer pavimentadas. 

No documentário Nós, Carolinas: vozes de mulheres da periferia, a jovem Renata, então com 17 anos, fala que a mãe é sua maior referência, já que ela foi uma das responsáveis por garantir a construção da primeira escola em sua região.

E se você é curiosa e interessada nesse assunto feito eu, pode ser que saiba que o berço do Sistema Único de Saúde (SUS) é na periferia, mais especificamente no Jardim Nordeste, zona leste da capital paulista. 

Para marcar consulta no pediatra, as mulheres precisavam madrugar em filas quilométricas. Com medo do que o escuro reservava, iam juntas, para garantir a segurança uma da outra. Depois, também passaram a se reunir nas Comunidades Eclesiais de Base (CEB) na reivindicação de unidades de saúde em suas localidades. 

Também podemos citar as aguerridas mulheres da zona Sul de SP, que lutaram bravamente por mais moradia. Ou, as Mulheres Queixadas. Essas eu sou suspeita, porque são daqui de Perus, região noroeste de SP, e estiveram à frente de um movimento contra o pó de cimento da primeira fábrica de cimento do país, que caía sobre suas roupas brancas no varal (uma luta erguida por donas de casa a partir do serviço doméstico).

Antes de romantizar essas lideranças e agentes de mudança de nossos territórios, precisamos lembrar que é a ancestralidade do passado que nos une no presente. Falar sobre solidariedade nas periferias é dizer também sobre as populações africanas e indígenas, e do sentimento de coletividade que costurava as relações nos quilombos e aldeias.

Antes de romantizar essas lideranças e agentes de mudança de nossos territórios, precisamos lembrar que é a ancestralidade do passado que nos une no presente.

 

Sem querer negar a Ciência, e entendendo seu papel principalmente diante da pandemia, mas precisamos reconhecer que o chá de uma mais velha ou as mãos que benzem de uma senhora também ajudaram a cuidar de muita gente nas periferias, sendo isso mais um exemplo da generosidade entre as mulheres. 

Não queremos jamais idolatrar os desafios e dificuldades que nos rondam. Pelo contrário, precisamos continuar denunciando os diversos processos racistas e genocidas que nos matam, a nós mulheres negras, antes da hora. 

Mas é importante dizer que a vivência em meio a todos esses problemas nos deu algo que ninguém pode tirar: a sevirologia, que, como a palavra diz, é a tecnologia de se virar com o pouco que temos, encontrando criatividade na própria  sobrevivência e nas nossas iguais.

No mais, espero que “os atos de generosidade” das demais classes em relação às periferias não sejam apenas sazonais e que a solidariedade que agora descobriram possa realmente ser uma constante durante ou no pós-pandemia. Todas e todos irão precisar.

Jéssica Moreira, 29, é jornalista e escritora e uma das fundadoras do Nós, mulheres da periferia.

Este texto foi originalmente publicado pela Aupa – Jornalismo de Impacto

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