José Soró faleceu na tarde desta quarta-feira (30). Era educador, articulador e um dos pilares da Comunidade Cultural Quilombaque, importante movimento afro da periferia da região noroeste de SP.

Hoje eu fiquei órfã de novo. O meu pai da militância esqueceu de me dar tchau, depois de me fazer acreditar que eu podia ganhar o mundo. O companheiro de lutas, prosas e sonhos José Soró, 55, fez sua passagem nesta quarta-feira (30).

Quis Soró partir ali, entre os seus, no terreiro da Quilombaque, quando ele e demais integrantes se organizavam para ir para um sarau falar justamente sobre a saúde da população negra nas periferias.

Falar do Soró é falar um pouco sobre mim, sobre como ele contribuiu na minha formação enquanto mulher negra, periférica e, claro, peruense orgulhosa da região noroeste.

Eu lembro muito bem do dia que nos conhecemos. Havia dado uma chuvona no bairro, com enchentes que entraram na Quilombaque. Era meu primeiro ano no jornalismo e fui convidada pela comunidade para cuidar da comunicação. Soró me acolheu e, naquele dia mesmo, já sonhou uns cem metros de comunicação para o bairro. Ele sempre pegava no meu pé, achava que a gente tinha que ter um site só sobre Perus. Ainda não consegui.

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Soró era pai. E pai com tudo que essa palavra pode trazer. Nós sempre conversávamos muito, analisando as conjunturas por meio da nossa visão de periférico. E bebíamos uma juntos e festejávamos quando era hora disso. Em 2013, junto a um montão de gente, criamos o Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento, o movimento mais intenso, plural e territorial que já fiz parte.

A gente ia para as feiras públicas entregar folhetos e também em frente à estação de trem da CPTM em horário de pico. Em 2014, a gente sentia que o nosso sonho coletivo de fazer a fábrica ser nossa está próximo, eram outros tempos, outros governos e tudo fazia crer que a gente ia, finalmente, ter um centro de cultura do trabalhador e uma universidade livre e colaborativa.

Nessa época, eu e Soró tivemos várias conversas acirradas, cheias de opinião, de cara feia e discordância. Em uma dessas, saímos do CEU e fomos tomar uma e se desculpar em um dos bares da estação de trem. Ali, eu aprendi que só há conflito onde não há ditadura. Soró vivia dizendo isso. A gente só briga com quem a gente tem intimidade e a gente nunca nem deixou de se falar. Pelo contrário, tirava proveito, pois entendia que toda prosa era parte de nossa luta, do nosso próprio processo enquanto militante.

Eu vivia enchendo o saco do Soró. Se não era para ser fonte em alguma matéria, era para assinar alguma carta para conseguir um edital, inclusive para o Nós, mulheres da periferia. Soró era minha fonte oficial, o mais sabido, sim, com seus textões gigantes, ótimos para dar mais caldo às matérias que versavam sobre esse outro mundo que Soró tanto acreditava.

Em uma prosa de cinco minutos, no ponto de ônibus, ou voltando pra casa, Soró já me dava uma grande aula. Era vivência, um livro ambulante sobre como fazer Direitos Humanos na prática.

E disso é importante dizer mais. Soró acreditava na juventude de olhos fechados. Acreditava que, independente do lugar onde você cresce e do contexto no qual está inserido, você é potente e tem capacidade de criação. Foi educador social durante muitos anos, trabalhou com jovem em situação de rua e de extrema pobreza e cansei de ver vários desses jovens indo à Quilombaque para conversar com ele sobre projetos de vida.

Soró fez a mim, e a uma multidão de jovens de Perus e do mundo (do mundo), acreditar que a gente também pode sonhar. E não é exagero. O educador de alma paulofreiana sabia ver o além de todo mundo, com ouvido atento e pressa em ver o outro viver sua inteireza.

Soró nunca via a gente pequeno. Nunca via a periferia miúda. Aprendemos a ser sujeitos de nossa história, com capacidade criativa e pulsante, muito inspirados por ele, nosso mestre griot. O território se fez um caldeirão e cada um de nós fogo alto. Aí que ele resolveu criar a hashtag #ferveterritório pra cada pequena-grande ação.

O nosso mestre nunca fazia economia de palavra. Encontro é pra se encontrar, e proseio é coisa longa, “não me venha com aspas, Jéssica”. Soró nunca foi linear. E quando iniciaram as trilhas da memória com gente da gringa, eu dizia pra ele falar menos, pra eu conseguir traduzir. Mas a verdade é que seria impossível traduzir a sabedoria dessa mente inquieta e cheia de vontade de fazer acontecer.

Esse tempo cronológico de vida-morte também não cabe pra ele, não. Soró tá vivão aqui em mim, com ele dizendo “vai”, com ele mostrando caminho num mundo tão pedregoso. Faz uns dez anos quase a gente resolveu sonhar junto. Sabe esse território que hoje é exemplo de luta na cidade? Tem, em cada cantinho, o sonho do Soró. De fazer a economia local girar, as potências de cada um multiplicar, a gente poder ser a gente mesmo.

“Um outro mundo é possível”. E é muito difícil perder uma pessoa que sonha junto com você, que te chacoalha, que briga, que ama, que cuida e que te faz acreditar.
Aqui, uma frase de uma prosa nossa, de 2016, durante o golpe: “A única alternativa é se agrupar, criar mecanismos de sobrevivência e resistência, vivos, tanto quanto nosso ideário, para quem sabe daqui uns anos podemos voltar a bater nas elites”. Por você, Soró, a gente vai continuar a fazer esse território ferver.

Firmeza-permanente, meu velho queixada. Eu vou sentir muitas saudades suas. Eu amo você.

Jéssica Moreira, 28, é moradora de Perus, integrante dos movimentos sociais do bairro, e cofundadora do Nós, mulheres da periferia. 

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