Entre ondas de calor e aumentos de tarifa: 5 acontecimentos que abriram 2026
Dos conflitos internacionais aos impactos no custo de vida, os primeiros dias do ano já revelam desafios que afetam de forma desigual a população
Por Amanda Stabile
06|01|2026
Alterado em 06|01|2026
O ano mal começou e já trouxe mudanças que muita gente sente no corpo e no bolso. Entre decisões tomadas longe dos bairros e acontecimentos que cruzam fronteiras, os primeiros dias de 2026 ajudam a entender como o mundo e as cidades seguem impactando, de forma desigual, a vida de quem mora nas periferias. Confira cinco deles:
1. Estados Unidos sequestram o presidente da Venezuela
O início de 2026 foi marcado por uma grave crise internacional após uma operação dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou no sequestro e na prisão do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. A ação ocorreu sem mandado de prisão, sem pedido formal de extradição e sem autorização do Congresso estadunidense. Maduro foi levado para Nova York, onde passou por sua primeira audiência e se declarou inocente.
Especialistas em direito internacional afirmam que a operação viola normas básicas do direito internacional. Chefes de Estado em exercício, como Maduro, têm imunidade e não podem ser julgados por tribunais nacionais estrangeiros. A Organização das Nações Unidas (ONU) declarou que a ação violou o princípio da soberania dos Estados. Mesmo assim, o governo dos EUA sustenta que não reconhece Maduro como presidente legítimo e o acusa de envolvimento com narcotráfico (comércio ilegal de drogas) e narcoterrorismo (tráfico de drogas combinado com práticas de terrorismo).
2. Transporte público fica mais caro em São Paulo
A partir de 6 de janeiro, o custo do transporte público aumentou em São Paulo. A tarifa do ônibus municipal passou de R$ 5,00 para R$ 5,30, enquanto o valor do metrô e dos trens metropolitanos subiu de R$ 5,20 para R$ 5,40. Os reajustes foram definidos pela Prefeitura de São Paulo e pelo governo do estado, respectivamente.
Os aumentos afetam milhões de pessoas que dependem diariamente do transporte público para trabalhar, estudar e acessar serviços essenciais. Embora a SPTrans informe que créditos comprados antes do reajuste seguem válidos por até 180 dias, o encarecimento do deslocamento pesa especialmente no orçamento das famílias de baixa renda, que gastam uma parcela significativa da renda com mobilidade.
3. Calor extremo escancara desigualdades nas cidades
O começo de 2026 também é marcado por uma forte onda de calor em várias regiões do país. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) manteve alerta vermelho em oito estados, com temperaturas até 5 °C acima da média histórica. Em São Paulo, os termômetros registraram quase 36 °C no fim de dezembro, o maior valor para o mês em mais de 60 anos.
Os efeitos do calor não são sentidos de forma igual. Estudos mostram que bairros periféricos da capital paulista registram temperaturas até 8,8 °C mais altas do que áreas de alta renda, resultado da urbanização desigual, da falta de áreas verdes e da alta concentração de concreto. Essa desigualdade térmica agrava problemas de saúde, sobrecarrega o sistema público e reforça a urgência de políticas urbanas voltadas às periferias diante da emergência climática.
4. Sistema RTO é definitivamente extinto na Grande São Paulo
A partir de 1º de janeiro de 2026, a Reserva Técnica Operacional (RTO) deixou de existir oficialmente na Região Metropolitana de São Paulo. Criado em 1999 como Operador Regional de Coletivo Autônomo (ORCA), o sistema funcionava como um reforço ao transporte intermunicipal, especialmente em regiões periféricas e horários de menor oferta, utilizando vans e micro-ônibus.
Com o passar dos anos, a RTO passou a ser alvo de críticas constantes por problemas como veículos em más condições, falhas na fiscalização e ausência de licitação. O encerramento do sistema ocorreu após entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre irregularidades jurídicas. Agora, a fiscalização e a oferta do serviço ficam sob responsabilidade da Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), com expectativa de que as concessionárias absorvam a demanda sem prejuízo aos usuários.
5. Conta de água fica mais cara em São Paulo
O ano começou também com aumento nas contas de água. Desde 1º de janeiro de 2026, as tarifas da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) tiveram reajuste de 6,11% em todo o estado. Para residências com consumo entre 11 m³ e 20 m³ por mês, o valor do metro cúbico passou de R$ 6,01 para R$ 6,40.
Na prática, isso significa que, em uma cidade onde as residências consomem, em média, 14,5 m³ de água por mês, por exemplo, o reajuste representa um aumento de aproximadamente R$ 5,70 mensais apenas na cobrança da água. Como a taxa de esgoto costuma ter valor equivalente ao da água, o impacto total na conta pode chegar a cerca de R$ 11,30 por mês, mesmo sem qualquer aumento no consumo.
Segundo o governo estadual, comandado por Tarcísio de Freitas, o reajuste corresponde apenas à reposição da inflação acumulada nos últimos 16 meses, e não representaria um ganho extra para a empresa. Ainda assim, o encarecimento das contas pesa no orçamento das famílias e reacende o debate sobre os impactos da privatização dos serviços básicos no custo de vida da população.
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