Ano novo, velhos dados: o calendário muda, mas a desigualdade continua
Passada a primeira semana de janeiro, a realidade costuma ser menos generosa e a sensação de que estamos girando em círculos volta a aparecer
06|01|2026
- Alterado em 06|01|2026
Por Jo Melo
Ano novo carrega uma sensação coletiva de recomeço. A gente muda o calendário, renova promessas, faz listas de metas e tenta acreditar que, só por virar a página, algo em nós também “vai virar”. Mas, passada a primeira semana de janeiro, a realidade costuma ser menos generosa. Os hábitos permanecem, as desigualdades seguem intactas e a sensação de que estamos girando em círculos volta a aparecer. É nesse ponto que eu me pergunto se o problema está apenas na falta de disciplina individual ou se estamos insistindo em uma lógica que ignora o essencial: a vida em sociedade exige mais do que vontade pessoal, exige consciência coletiva.
Nos últimos anos, o discurso do autoconhecimento ganhou força. Livros, cursos, terapias e conteúdos nas redes sociais reforçaram a ideia de que olhar para dentro é o caminho para uma vida melhor. E, de fato, se conhecer é importante. Entender nossas emoções, nossos limites, nossos traumas e nossas potências pode ser uma ferramenta de sobrevivência, especialmente para quem vem de contextos marcados por violência, pobreza e exclusão. Porém, quando esse olhar se torna exclusivo e desconectado do mundo, ele corre o risco de se transformar em isolamento e individualismo.
Dados ajudam a lembrar que ninguém vive sozinho. Uma parcela significativa da população está concentrada em periferias, favelas e comunidades urbanas com condições socioeconômicas precárias. No Censo 2022, o IBGE identificou que cerca de 16,39 milhões de pessoas vivem em favelas e outras comunidades irregulares em áreas urbanas, o que corresponde a cerca de 8,1 % da população total.
O Brasil segue entre os países mais desiguais do mundo, com uma concentração de renda que impacta diretamente as oportunidades de vida. Ignorar esse cenário e tratar o sucesso ou o fracasso apenas como resultado de escolhas individuais é uma forma de negar a realidade.
É aqui que entra a necessidade do conhecimento geral. Conhecer o mundo em que se vive não é um luxo intelectual, é uma responsabilidade social. Saber como funcionam as políticas públicas, entender os efeitos do racismo estrutural, reconhecer as desigualdades de gênero e classe, tudo isso ajuda a formar uma visão mais honesta da sociedade. Não se trata de saber tudo, mas de não se manter alheio.
A desinformação e a indiferença também podem ser escolhas, e elas têm consequências coletivas.
Muitas vezes, quando falamos de empatia, ela aparece como um sentimento abstrato, quase decorativo. Curtir uma postagem, compartilhar uma história ou se emocionar com um relato parece suficiente para aliviar a consciência. Mas, empatia não é apenas sentir, muito menos observar de longe. A verdadeira empatia, na minha opinião, se constrói no viver, na convivência e na disposição de escutar sem tentar corrigir, explicar ou minimizar a experiência do outro.
É claro que ninguém sente exatamente o que o outro sente. Por exemplo, uma mulher branca não vive o racismo; já mulher negra, sim. Quem nunca passou fome não entende plenamente o desespero de quem depende de doações para comer. Quem sempre teve acesso à educação dificilmente pode entender o impacto da evasão escolar forçada. Ainda assim, reconhecer essa distância não deveria ser motivo para se afastar, mas para agir com mais responsabilidade.
Mesmo sem viver determinada realidade, é possível estourar a própria bolha. Isso começa com escolhas simples, mas conscientes:
- Prestar atenção em quem você segue, no que consome, em quais vozes são ouvidas e quais são silenciadas.
- Questionar discursos prontos, inclusive os seus.
- Rever hábitos que parecem inofensivos, mas reforçam desigualdades, como naturalizar a exploração do trabalho doméstico, romantizar a pobreza ou culpar as pessoas (mesmo de forma individual) por problemas estruturais.
É possível que a maioria das pessoas nas periferias brasileiras trabalhe mais do que a média da população, mas recebe menos reconhecimento e oportunidades. Isso revela um sentimento coletivo de injustiça que atravessa gerações. Fingir que isso não existe ou tratar como vitimismo é uma forma de manter tudo exatamente como está.
Quando falamos em uma sociedade mais justa e igualitária, muita gente reage com desconfiança, como se essa ideia fosse uma utopia distante ou um discurso vazio.
Mas justiça social não precisa ser um conceito grandioso e inalcançável. Ela começa no mínimo. No acesso básico. No respeito. Na escuta. Na garantia de direitos. E também na recusa em reproduzir violências simbólicas no cotidiano.
Não se trata de salvacionismo, nem de achar que pequenas ações individuais vão resolver problemas históricos. A mudança estrutural depende de políticas públicas, investimento, participação social e pressão coletiva. Mas isso não anula a responsabilidade de cada um. Pelo contrário. Uma sociedade só se transforma quando as pessoas param de se esconder atrás da ideia de que nada pode ser feito.
Ano novo pode até repetir velhos hábitos, mas também pode ser um convite à revisão. Revisar não apenas metas pessoais, mas valores. Revisar o quanto estamos dispostos a aprender, a desaprender e a nos responsabilizar pelo mundo que ajudamos a construir, seja pela ação ou pela omissão.
No fim das contas, autoconhecimento sem consciência social é incompleto. Empatia sem ação é frágil. E mudança que não considera o coletivo tende a ser superficial. Talvez o desafio deste e de todos os anos não seja se tornar alguém melhor apenas para si, mas alguém mais atento, mais informado e mais comprometido com a vida em comum. Porque viver em sociedade não é só coexistir, é escolher, todos os dias, que tipo de mundo queremos sustentar.
Jo Melo É mãe, editora e fundadora do Instituto Mães que Escrevem. Foi diagnosticada com autismo e TDAH na idade adulta. Escreveu e publicou os livros Os Cinco Sentidos e Hipérboles, é organizadora da coletânea Escrevivências Maternas e participa de diversas antologias. @jomelo.escritora
Os artigos publicados pelas colunistas são de responsabilidade exclusiva das autoras e não representam necessariamente as ideias ou opiniões do Nós, mulheres da periferia.
Larissa Larc é jornalista e autora dos livros "Tálamo" e "Vem Cá: Vamos Conversar Sobre a Saúde Sexual de Lésbicas e Bissexuais". Colaborou com reportagens para Yahoo, Nova Escola, Agência Mural de Jornalismo das Periferias e Ponte Jornalismo.
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