Ainda estamos aqui: Brasil em Harvard por um Estado democrático
Como foi debater o Brasil e suas vulnerabilidades em um simpósio na Universidade de Harvard, nos EUA
03|04|2025
- Alterado em 03|04|2025
Por Victória Dandara
Gosto muito da cantiga Yá Yá Massemba, em que se diz “vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas”. Acredito que o “VI Brazilian Legal Symposium”, organizado pela Associação de Estudos Brasileiros da Faculdade de Direito de Harvard, da qual sou presidenta, concretizou um pouco essa ideia. O evento foi encabeçado por estudantes brasileiros e brasileiras na escola de direito que formou Barack e Michelle Obama e algumas outras dezenas de líderes políticos ao redor do mundo. Porém, neste ano, os debates se deram em um contexto extremamente polarizado e complexo, no qual faz sentido reafirmar valores democráticos e de compromisso com os direitos humanos. É neste cenário que, corajosamente, a HLSBr – Harvard Law School Brazilian Studies Association – organizou dois dias de evento com paineis que foram de “Defendendo direitos LGBTQ+ no Brasil e nos EUA” até “Justiça urbanística e direito à moradia segura”.
Debater o Brasil em um espaço tão complexo e de disputa como são os Estados Unidos de 2025 não é somente uma tarefa intelectual e acadêmica, mas sim uma escolha em prol da democracia e da defesa ferrenha do Estado Democrático de Direito. Organizar um painel histórico composto por três palestrantes mulheres negras brasileiras, a Advogada Flavia Santos Lloyd, a Ministra do Superior Tribunal Eleitoral Doutora Edilene Lôbo, e a oficial da Unicef (pasta de educação da ONU), Isabelle dos Santos, é uma decisão de demarcação de espaços. Assim como o é debater Cooperação internacional na defesa dos direitos humanos ou litigância em direitos ambientais.
O evento não deixou de se voltar a debates jurídicos importantes, como as referências que o Brasil e o sul global trazem em termos de arbitragem e mercado de capitais. Os arranjos que desenvolvemos, em todas as esferas do direito, têm muito a construir e agregar para o debate global sobre justiça e equidade, bem como regulação de novos mercados. Os paineis ainda contarão com o ex-Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.
Talvez o momento mais emocionante tenha sido quando, no painel sobre direitos LGBTQ+, a palestrante Sara York — travesti brasileira, jornalista, professora e ativista referência no movimento social de transexuais no país — foi aplaudida de pé. Dias depois, a Unicamp aprova cotas para pessoas trans e travestis em seu vestibular via ENEM. Temos aqui as duas faces da ocupação de espaços: quanto mais de nós chegam, mais abrimos portas e puxamos umas as outras. Mais falamos sobre nós e as questões que nos atravessam. Se dentre os 10 paineis de discussão deste ano, cinco foram de direitos humanos, não é ao acaso. Que transicionemos as instituições e que cada vez mais, aliados e aliadas nos ajudem nessa jornada.
A mensagem que fica da organização do Simpósio é: ainda estamos aqui. Mesmo com as tentativas de apagarem os debates de direitos humanos e com o movimento global de exclusão de corpos socialmente vulnerabilizados, a Associação de Brasileiros de Harvard tomou um passo importante em defesa do Estado democrático de Direito, no Brasil e no mundo. Sempre me remeto à Lélia quando ela diz: o lixo vai falar, e numa boa. Falemos e ensinemos então, inclusive em Harvard.
Victória Dandara Victória Dandara é travesti, cria da zona leste de São Paulo (SP), pesquisadora em direitos humanos, advogada transfeminista e filha de Oyá. Foi uma das primeiras travestis a se graduar em direito na USP e hoje luta não só pela inclusão da população trans e travesti, mas por uma emancipação coletiva a partir da periferia e da favela.
Os artigos publicados pelas colunistas são de responsabilidade exclusiva das autoras e não representam necessariamente as ideias ou opiniões do Nós, mulheres da periferia.
Larissa Larc é jornalista e autora dos livros "Tálamo" e "Vem Cá: Vamos Conversar Sobre a Saúde Sexual de Lésbicas e Bissexuais". Colaborou com reportagens para Yahoo, Nova Escola, Agência Mural de Jornalismo das Periferias e Ponte Jornalismo.
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