Venezuela: “O que nós queremos acima de tudo é viver com dignidade, sem violência, sem fome e sem repressão”

Mulheres venezuelanas no Brasil falam sobre medo, exílio e esperança após nova crise no país, que reabre feridas de quem precisou deixar a Venezuela para sobreviver

Por Amanda Stabile

09|01|2026

Alterado em 10|01|2026

Em 3 de janeiro de 2026, Isairis Rojas, de 22 anos, acordou com a sensação de que algo estava fora do lugar antes mesmo de entender o motivo. Ainda estava escuro quando ouviu a mãe falando ao telefone, em voz baixa, na cozinha. Era cerca de seis da manhã. O corpo reagiu primeiro: um aperto no peito, um frio súbito. Isa virou para o lado e tentou continuar dormindo.

“Decidi não acreditar e continuei dormindo, porque se fosse mentira seria mais uma decepção”, conta.

Isa nasceu em Puerto la Cruz, no estado de Anzoátegui, na Venezuela. Vive no Brasil há sete anos. Veio ainda adolescente, empurrada por uma crise econômica, social e política em seu país que esvaziou as prateleiras, encurtou futuros e transformou a vida cotidiana em um exercício permanente de resistência.

Chegou um momento em que ficar significava apenas sobreviver e o Brasil acabou sendo uma possibilidade de recomeço.

Hoje, Isa mora no Paraná, onde tenta reconstruir a vida longe da instabilidade que marcou sua adolescência.

Nos últimos anos, viver na Venezuela era acordar sabendo que, no dia seguinte, tudo estaria mais caro — e que algo sempre faltaria. Comida, remédio, dinheiro, tranquilidade. A crise não era apenas econômica. Era também emocional. “Viver na Venezuela era viver em constante tensão”, lembra. “Eu era adolescente e isso atrapalhou várias etapas da minha vida que todo jovem merece viver”.

Quando finalmente pegou o celular naquela manhã, a confirmação veio. O que estava acontecendo na Venezuela não era boato: por ordem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, forças militares norte-americanas lançaram uma operação militar em Caracas e sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, no que chamou de “Operation Absolute Resolve” (“Operação Resolução Absoluta”, em tradução livre).

“Quando percebi que era verdade, parecia que eu estava num sonho. Eu não podia parar de chorar”, diz.

A cabeça vai longe: pensei na minha família. Agora posso pensar em voltar a vê-los novamente.

Reações dentro e fora do país

Forças especiais dos EUA, com apoio aéreo e naval, entraram em território venezuelano sem autorização do governo nem do Congresso americano e levaram Maduro para os Estados Unidos. Na sequência, ele foi apresentado em um tribunal federal em Nova York, onde se declarou inocente das acusações que enfrenta, entre elas narcotráfico e conspiração relacionadas ao tráfico de drogas.

O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos declarou que a ação “viola normas fundamentais do direito internacional” ao usar força contra a integridade territorial e a independência política de outro Estado, ressaltando que isso pode “tornar o mundo menos seguro” e que o futuro da Venezuela deve ser determinado pelo próprio povo venezuelano, sem interferência externa.

Países como Brasil, Chile, Colômbia, México e Espanha emitiram declarações conjuntas condenando a operação e pedindo que a crise seja resolvida por meios pacíficos e negociações internas, sem uso de força externa. Os países alertam que a operação cria um precedente perigoso para a paz regional, colocando a população civil em risco.

Por outro lado, apoiadores de Maduro foram às ruas de Caracas em 5 de janeiro para demonstrar apoio ao governo. As manifestações ocorreram no mesmo dia em que a vice-presidente Delcy Rodríguez foi empossada como líder interina do país, e reuniram centenas de pessoas com bandeiras e faixas pró-Maduro.

O governo da Venezuela denunciou a operação dos Estados Unidos como uma “agressão militar”. Em comunicado oficial, Caracas acusou Washington de tentar se apoderar de recursos estratégicos do país, como petróleo e minerais, e classificou a ação como uma tentativa de impor uma mudança de regime pela força.

Diante das explosões registradas em Caracas e em outros estados, o governo decretou estado de Comoção Exterior, convocou mobilização interna e anunciou que levará denúncias a organismos internacionais, como o Conselho de Segurança da ONU e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), pedindo reação da comunidade internacional.

“Não é uma notícia que se recebe com tranquilidade. Ela mexe com feridas que ainda estão abertas”, afirma Isa. “Eu vejo tudo isso com sentimentos contraditórios. Nossa intenção era que o poder fosse entregue de forma democrática e justa. A intervenção estrangeira não era a primeira opção, mas foi a única que funcionou”, diz.

Há esperança de que algo finalmente mude, de que o sofrimento acumulado encontre um ponto de virada. Mas há também medo. As conversas com a família também seguem atravessadas por essa ambiguidade.

“Eles estão apreensivos, com muito medo, mas também com um pouco de esperança. O que mais aparece nessas conversas é o medo do pior, de mais violência, mas também a felicidade de que iniciou o começo do fim da ditadura, o desejo de que finalmente algo mude”, conta.

Ninguém quer vingança ou caos. Queremos paz, trabalho, liberdade de expressão e uma vida normal. Onde não sejam necessários dois trabalhos para poder sobreviver.

“O que nós como povo queremos acima de tudo é viver com dignidade, sem violência, sem fome e sem repressão”, diz.

As raízes da crise venezuelana

A crise que marcou a vida de Isa e de milhões de venezuelanos não começou agora. Nicolás Maduro está no poder desde 2013, quando assumiu a Presidência após a morte de Hugo Chávez. Herdou um país profundamente dependente do petróleo e, poucos anos depois, enfrentou a queda abrupta do preço do barril, a principal fonte de renda nacional.

Sem reservas suficientes e com uma baixa produção interna de alimentos e medicamentos, o país entrou em colapso. Vieram a hiperinflação, o desabastecimento, os apagões e a perda acelerada do poder de compra. A crise econômica se transformou também em crise política, marcada por protestos reprimidos, concentração de poder e questionamentos internacionais sobre a legitimidade do governo.

As sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos também impactaram o cenário, afetando diretamente a população. O resultado foi uma das maiores crises migratórias do mundo: mais de 7 milhões de venezuelanos deixaram o país nos últimos anos. Cerca de 1,38 milhão entraram no Brasil entre 2017 e setembro de 2025, sendo que mais de 732 mil permanecem no país (migrantes e refugiados).

Viver sem água, sem luz e com medo de falar

Se a trajetória de Isa revela o impacto emocional da crise, o relato de Gabriela Lotito, de 29 anos, que hoje vive em São Paulo, expõe o colapso material e a repressão cotidiana que marcaram a vida de milhões de venezuelanos.

Natural de Valência, no estado de Carabobo, ela deixou a Venezuela há cinco anos, após conhecer o marido brasileiro na Argentina, durante a pandemia. Os últimos anos antes de emigrar foram, segundo ela, “momentos críticos, de sobrevivência, de muito estresse, de incerteza”.

Ela lembra das filas intermináveis para abastecer o carro. Não havia gás para cozinhar e, mesmo recorrendo à cozinha elétrica, faltava luz com frequência. “Na minha mãe [que ainda mora na Venezuela] sempre tá faltando luz e água. Um dia tem, um dia não. E as estradas e ruas são muito mal feitas, esburacadas, perigosas”, conta. “Já aconteceu comigo: o carro caiu e quebrou as rodas”.

A crise do petróleo, que deveria ser a principal fonte de riqueza do país, segundo ela, nunca se traduziu em melhorias. Refinarias paradas, PDVSA – Petróleos de Venezuela S.A., a estatal de petróleo do país – quebrada, infraestrutura abandonada. “Todo o dinheiro que eles pegavam do petróleo, eles não investiam no país”, diz.

A repressão também fazia parte da rotina. “Minha mãe comentou que se você vai na rua e os policiais te pegam, olham o telefone e se você está falando mal do regime, eles te metem na cadeia”, conta. Gabriela participou de manifestações e viu pessoas morrerem ou serem agredidas por militares.

Quando a operação militar dos EUA começou, Gabriela também foi acordada de madrugada. “Minha irmã me ligou dizendo: ‘Gabi, olha as notícias, estão bombardeando’”, conta. O sentimento que veio não foi medo — foi algo que ela já não esperava sentir.

Meu primeiro sentimento foi liberdade. Pensei: talvez eu possa voltar para a Venezuela um dia.