
Massacre de Realengo: um ataque marcado pelo bullying e o feminicídio
Lembrar desse crime é enfrentar as raízes de uma violência que ainda persiste, seja nas provocações que machucam, seja nos discursos de ódio contra meninas e mulheres que continuam se espalhando, inclusive pela internet
Por Amanda Stabile
04|04|2025
Alterado em 04|04|2025
Na manhã de 7 de abril de 2011, a rotina da Escola Municipal Tasso da Silveira, no bairro de Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro, foi interrompida por uma tragédia que o Brasil jamais esqueceria. O que era para ser um dia de celebração pelos 40 anos da escola se transformou em um dos episódios mais dolorosos da história recente do país. Ali aconteceu um massacre cuidadosamente planejado, marcado por dois elementos que continuam urgentes de serem enfrentados: o bullying e o feminicídio.
Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, ex-aluno da escola, entrou dizendo aos funcionários que daria uma palestra. Mas carregava duas armas escondidas na mochila. Dentro das salas de aula, abriu fogo contra estudantes, matando 12 crianças — dez meninas e dois meninos — e ferindo outras 12. Ao ser confrontado pela polícia, tirou a própria vida.
Na carta que deixou, Wellington dizia ter sido vítima de bullying durante a infância, especialmente nos anos em que estudou naquela mesma escola. O bullying, entendido como atos repetitivos e intencionais de violência contra uma pessoa indefesa — com potencial de causar sofrimento físico e psicológico — esteve no centro das discussões após a tragédia. Mas não só ele.
O padrão dos ataques — o fato de que a maior parte das vítimas eram meninas e que, segundo relatos de sobreviventes, os tiros miravam preferencialmente suas cabeças — também levantou outro alerta: o crime possivelmente tinha motivações misóginas – uma forma de pensar e agir baseada no desprezo, na raiva ou na crença de que mulheres são inferiores aos homens.
A cineasta Bianca Lenti, que dirigiu a série “As Meninas de Realengo”, foi uma das pessoas a interpretar o ataque sob essa perspectiva: a de um homem que odiava e se ressentia das mulheres, especialmente daquelas que ele considerava bonitas, e que canalizou sua frustração em violência extrema.
As meninas mortas por Wellington tinham entre 12 e 15 anos. Sonhavam em ser veterinárias, professoras, jogadoras de futebol, atrizes, atletas olímpicas. Seus sonhos foram interrompidos por um crime cruel, mas seus nomes seguem vivos na memória dos que ficaram. Pais, mães e sobreviventes transformaram o luto em mobilização, para que a dor de Realengo não se repita.
Lembrar do Massacre de Realengo é enfrentar as raízes de uma violência que ainda persiste, muitas vezes silenciosa — seja nas provocações que machucam, seja nos discursos de ódio contra meninas e mulheres que continuam se espalhando, inclusive pela internet.
Como disse Adriana Silveira, mãe de Luiza, uma das meninas assassinadas, em entrevista: “O bullying é um monstro que precisa ser enfrentado. Ele existe, é real e vive dentro de nossas escolas. O Massacre de Realengo não pode cair no esquecimento. Lembrar é reagir. Esquecer é permitir”.
Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola
Diante da brutalidade do ocorrido e da urgência em discutir as raízes da violência nas escolas, o Congresso Nacional aprovou a Lei 13.277/2016, que institui o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola, marcado para 7 de abril — exatamente na data do Massacre de Realengo.
A proposta, apresentada ainda em 2011 pelo então deputado Artur Bruno, foi sancionada sem vetos e passou a integrar oficialmente o calendário nacional. A justificativa do projeto destacou que enfrentar o bullying e as múltiplas dimensões da violência exige o envolvimento de toda a sociedade — não apenas da escola, mas também de famílias, profissionais da educação e políticas públicas estruturadas.
Obras para entender e relembrar o Massacre de Realengo
Desde a tragédia de 2011, familiares, sobreviventes, jornalistas e artistas vêm criando formas de manter viva a memória das vítimas e refletir sobre as causas e consequências do massacre. Confira algumas:
O Pior Dia de Todos: escrito pela jornalista Daniela Kopsch, o livro é inspirado em Liliane e Larissa, duas meninas que fugiram de mãos dadas no dia do massacre. A obra busca transformar o horror daquele momento em resistência por meio da literatura.
O Massacre de Realengo: a tragédia que abalou o Brasil: de Vagner Fernandes, o livro é um relato jornalístico detalhado que conta as histórias dos 12 adolescentes que foram assassinados na Escola Tasso da Silveira;
Massacre na Escola: A Tragédia das Meninas de Realengo: dirigida por Bianca Lenti, a série documental investiga a misoginia por trás do crime, ouvindo vítimas, sobreviventes e especialistas, e ajudando a nomear o que aconteceu: um massacre contra meninas, por serem meninas;
O Massacre de Realengo – Marcas de uma Tragédia: Este audiolivro, narrado por Ester Jablonski, oferece uma narrativa sobre os eventos de 2011, explorando as consequências emocionais e sociais da tragédia.