Foto mostra alunas andando em campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro Foto, um lugar que denunciaram por falta de segurança para mulheres contra violência

6 casos comprovam que não há lugar seguro para ser mulher

Nas ruas, no trabalho, na igreja, na comunidade ou até em casa, as mulheres enfrentam diferentes formas de violência todos os dias, mostrando que não há lugar onde elas estejam completamente seguras ou protegidas

Por Amanda Stabile

01|04|2025

Alterado em 02|04|2025

A violência contra as mulheres não acontece por acaso. Ela faz parte de um problema muito maior: uma sociedade que normaliza agressões e ainda culpa as vítimas. No Brasil, um estupro é registrado a cada seis minutos e, a cada 24 horas, ao menos oito mulheres são vítimas de violência

Mesmo assim, muitas mulheres ainda enfrentam desconfiança quando denunciam, principalmente em casos de violência dentro de casa e sem testemunhas. Isso faz com que muitos crimes fiquem impunes e que o medo continue fazendo parte do dia a dia das mulheres.

Frases como “se ao menos se desse ao respeito isso não aconteceria” ou “você deve ter provocado” são exemplos de como a culpa da violência muitas vezes recai sobre a própria vítima, e não sobre o agressor. É essencial destacar que a responsabilidade pela violência é sempre de quem a pratica, e reconhecer isso é o primeiro passo para um futuro mais seguro para todas.

Reunimos seis casos que comprovam e denunciam que não há lugar seguro para ser mulher. Veja a seguir:

1

Em espaços de lazer
Uma jovem de 23 anos denunciou o ex-jogador Daniel Alves por tê-la estuprado no banheiro de uma boate em Barcelona, na Espanha, na virada de 2022 para 2023. Ele foi condenado a quatro anos e meio de prisão e passou 14 meses detido, mas foi absolvido em março de 2025, quando o Tribunal Superior de Justiça da Catalunha considerou que as provas não eram suficientes para sustentar a condenação.

A decisão considerou que o depoimento da vítima apresentava inconsistências e contradições, o que, segundo os juízes, enfraqueceu a acusação. Mas Daniel Alves chegou a apresentar cinco versões diferentes em depoimentos. Outro ponto questionado foi a “insuficiência de provas”. A defesa da vítima classificou a decisão como um retrocesso na luta contra a violência sexual.

2

Em casa
Embora o lar seja frequentemente idealizado como um espaço de proteção e conforto, a realidade é que ele também se torna cenário de inúmeros casos de violência contra mulheres e crianças. Dados alarmantes revelam que o Disque 100 recebe, em média, duas denúncias de estupro de vulneráveis por hora, sendo a maioria desses crimes ocorridos dentro do ambiente familiar. Os agressores geralmente são parentes ou conhecidos da família. Além disso, a subnotificação (baixo número de denúncias) é um problema recorrente, dificultando a real dimensão da gravidade dessa violência.
Um caso recente  (março de 2025,) que ilustra o problema, aconteceu em Peruíbe (SP), onde um policial militar reformado foi preso sob suspeita de estuprar uma menina de 13 anos. O exame de corpo de delito confirmou o estupro e detectou a presença de substâncias conhecidas como “Boa noite, Cinderela” no organismo da vítima. A mãe da menina flagrou o ex-PM, vizinho da família, sobre a filha – que estava desacordada e com sinais de abuso.

3

No trabalho

O ambiente de trabalho é outro espaço que deveria garantir segurança e dignidade, mas também se torna cenário de violência contra as mulheres. O assassinato brutal de Carla Gobbi Fabrete, de 25 anos, dentro da loja onde trabalhava em Vila Velha (ES), também em março de 2025, reforça essa realidade.

Carla foi esfaqueada por Wender Rodrigues, que entrou no estabelecimento fingindo ser um cliente. Imagens de segurança mostram que ele riu e mostrou algo no celular antes de segui-la até os fundos da loja, onde a atacou violentamente com múltiplas facadas. A jovem chegou a ser socorrida e levada para um hospital, mas não resistiu aos ferimentos. Ela não tinha nenhuma ligação com o agressor e não foram descobertos indícios de motivação para o crime.

4

Em espaços religiosos

Os espaços religiosos, que idealmente deveriam servir de refúgio e acolhimento, são frequentemente eclipsados por denúncias de abusos cometidos por líderes religiosos ou membros da comunidade. Os casos de violência nesse contexto geralmente envolvem manipulação emocional e social, o que dificulta ainda mais o processo de denúncia e busca por justiça.

Um exemplo é o caso do líder religioso Kléber Aran Ferreira da Silva que, em novembro de 2024, foi condenado a 20 anos e 5 meses de prisão em regime fechado em Salvador por abuso sexual de seguidoras. Ele manipulava e abusava de mulheres que frequentavam seu templo, “Amor Supremo” e, sob o pretexto de realizar “cirurgias espirituais”, as convencia de que atos sexuais eram necessários para os tratamentos.

5

Nas comunidades

Até dentro de suas próprias comunidades, onde constroem laços e criam suas famílias, as mulheres são alvos constantes de brutalidade. A violência se manifesta de diferentes formas: feminicídios, agressões domésticas, assédio, abusos e até a violência institucional. O medo é uma presença constante, e a culpa frequentemente recai sobre as próprias vítimas, como se a localização geográfica ou as condições sociais justificassem as brutalidades que sofrem.

As histórias de mulheres que perdem a vida em circunstâncias brutais reforçam essa realidade. Cláudia Silva Ferreira, por exemplo, moradora do Morro da Congonha (RJ), foi morta pela Polícia Militar em 2014 enquanto saía de casa para comprar pão. Seu corpo foi arrastado por uma viatura por cerca de 300 metros, na frente de seus familiares, amigos e vizinhos. Até hoje o crime continua impune.

6

Nos espaços públicos

O medo constante de assédio, agressão e feminicídio acompanha as mulheres em seus deslocamentos diários. A violência em espaços públicos, como ruas, transportes e estabelecimentos comerciais, é uma realidade que restringe a liberdade e o direito de ir e vir.

O caso de Vitória Regina de Souza, uma jovem de 17 anos que foi brutalmente assassinada em fevereiro de 2023, enquanto voltava para casa em Cajamar (SP), reacendeu esse debate. Ela trabalhava em um comércio e estava a caminho de sua residência, localizada em um bairro periférico, quando foi atacada e assassinada por um homem que a perseguia.

O caminho que Vitória percorria até sua casa era perigoso, com trechos escuros e isolados, características que aumentam a vulnerabilidade de qualquer pessoa, mas, especialmente de mulheres. O caso também alerta para a falta de medidas de segurança em áreas periféricas e o descaso com a iluminação pública, o que contribui para que tais crimes aconteçam com mais frequência.