Projeto leva futebol de rua para meninas e transforma o direito de ocupar a cidade

Idealizado pela educadora Leila Rodrigues, o Projeto Salve Quebrada reúne aulas de futebol, saúde mental e tecnologia

Por Beatriz de Oliveira

13|07|2026

Alterado em 13|07|2026

Num domingo à tarde, em 2017, Leila e sua esposa Vanessa saíram da zona sul de São Paulo (SP), onde moravam, para a zona norte, a fim de participar de um evento no barracão de uma escola de samba. No percurso para atravessar a cidade, passaram por diferentes quebradas. Ao chegar, Leila sentou na calçada e desabafou: “Vanessa, tá errado”. “Errado o que Leila?”, questionou a companheira. “Não tem menina na rua”, respondeu e explicou que em todo o trajeto só viu meninos brincando, seja jogando bola ou empinando pipa.

Nascia ali a ideia para o que hoje é o projeto Salve Quebrada. A iniciativa, criada pela educadora Leila Rodrigues, atua na promoção do esporte, com foco no futebol feminino, integrando cultura, educação e saúde mental como fundamentos para o desenvolvimento das meninas periféricas.

Mais de 100 meninas já passaram pelos eventos e aulas do projeto. Atualmente, com uma equipe de cinco pessoas, a iniciativa recebe 35 meninas todos os sábados para aulas de futebol, tecnologia e saúde mental.

©Walter Junior

Segundo Leila, a rua é o quintal das quebradas, onde a socialização e o lazer acontecem. Por isso, a falta das meninas nesses espaços representou um alerta para a educadora. Já a escolha por fomentar o futebol passa por uma paixão que remonta à infância e por entender que essa ‘modalidade’ desenvolve a autoestima, a vivência em grupo e a resolução de conflitos.

“O nosso futebol acontece com a essência da rua. É cada um por si. Você tem que saber qual espaço você pode passar, qual horário e se pode estar sozinha. A rua dentro de uma periferia é desse jeito. Enquanto o futebol está acontecendo, raramente o professor apita. Elas se resolvem entre elas. Temos que estar atentas o tempo todo e reconhecer quem está do nosso lado também”, explica.

Enquanto o futebol de rua acontece no asfalto e usa, por exemplo, chinelos como trave, o futebol de várzea é disputado em campos de terra ou grama.

Culturalmente, os meninos são mais incentivados a praticar esportes, e isso se reflete nos dados. Segundo pesquisa de 2023 do Datafolha, apenas 6% das mulheres jogam futebol no Brasil. Já entre os homens, o número sobe para 38%. O futebol feminino também já foi marcado por restrição política: por mais de 40 anos foi proibido no país, entre 1941 e 1983.

Além disso, crianças que vivem em favelas sofrem restrições ao direito de brincar e acabam transformando a rua em parquinho. A pesquisa “O Brincar nas Favelas Brasileiras”, do Instituto Data Favela, de 2021, entrevistou 816 mães de crianças de zero a seis anos, das classes C e D das cidades de São Paulo (SP), Recife (PE) e Porto Alegre (RS). Apenas 29% delas disseram contar com um parquinho em sua comunidade.

Futebol de rua

Quando tinha 13 anos, o pai de Leila a incentivou a jogar futebol. Ele a levava para as quadras para jogar com homens adultos. Apesar de gostar do esporte, ela “morria de vergonha” dessas situações. Mas era só colocar a bola no pé que esse sentimento sumia.

Hoje, a educadora reconhece que esse incentivo fez com que ela se sentisse encorajada a enfrentar um ambiente majoritariamente masculino. “Eu não olhava os meninos como algo imbatível, eu via que era algo só deles, mas não me sentia intimidada de estar ali”.

Com a morte do pai, Leila, ainda aos 13 anos, se afastou das quadras. Foi só por volta dos 16 que o futebol voltou a povoar seu imaginário, desta vez em forma de incômodo, por não ver incentivo ao futebol feminino.

Esse pensamento ficou guardado e voltou com força no ano de 2017, quando Leila teve a ideia de produzir um evento de futebol de rua para mulheres. Foram alguns meses pesquisando sobre como executar essa ideia e buscando apoio da comunidade local. Até que, em 2018, o evento aconteceu.

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© Walter Junior

© Walter Junior

© Walter Junior

© Walter Junior

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“Quando eu vi já tinha os vizinhos na sacada assistindo, tinha a galera com cadeira de praia sentada e a criançada assistindo. Aquilo brilhou meus olhos. Eu falei, cara, me realizei. Me realizei pessoalmente e profissionalmente”, relata.

Salve Quebrada

A partir daí, Leila e os colegas do coletivo passaram a estruturar um evento por ano, chamado Azideia das Minas, até que viram a necessidade de tornar o projeto algo maior. A essa altura, a iniciativa já havia se chamado Projeto Nós antes de se estabelecer como Salve Quebrada, expressão que Leila costuma usar para cumprimentar as alunas.

Em 2025, Leila passou em um edital e conseguiu estruturar melhor o projeto. Hoje, todos os sábados, 35 meninas entre 10 e 16 anos participam de aulas de futebol, tecnologia e saúde mental. Nos encontros, para além das táticas e do condicionamento físico, aprendem sobre a história do futebol feminino e sobre a importância da atuação em coletividade. As aulas acontecem no Jardim Paris, zona sul de São Paulo.

©Walter Junior

O financiamento do edital se estende até o mês de novembro e Leila se preocupa com a dificuldade de encontrar patrocínios para dar seguimento ao projeto. Essa dificuldade se reflete na falta de visibilidade e apoio ao futebol feminino.

“Os campeonatos não são mostrados em um horário que a gente possa assistir. Um jogo feminino passa às três horas da tarde, então não consigo assistir. O masculino é em que horário? Domingo à tarde”, pontua. E acrescenta que a Copa do Mundo Feminina de 2027, que acontecerá no Brasil, não está tendo a divulgação que merece.

Apesar dos percalços, Leila e as meninas do Salve Quebrada mantêm viva a esperança de transformar vidas por meio do esporte e da cultura. Isso se torna visível, por exemplo, no senso de coletividade das participantes.

Serviço

Para conhecer mais sobre a iniciativa ou descobrir como apoiá-la de alguma forma, vale acessar o perfil do Salve Quebrada e de Leila.