O rock que atravessa raça, classe e pertencimento
Shows, podcasts, livros, encontros, exposições, documentários, diálogos e movimentos que começam no som e se expandem, formando um corpo político e cultural.
03|08|2026
- Alterado em 12|08|2026
Por Aline Bispo
Para esta coluna, conversei com pessoas para quem o rock das quebradas e do interior das cidades foi parte da construção e da compreensão da música como força de transformação. São shows, podcasts, livros, encontros, exposições, documentários, diálogos e movimentos que começam no som e se expandem, formando um corpo político e cultural.
Conversei com a artista visual, fotógrafa e escritora Daisy Serena; com os integrantes da banda afro-brasileira de punk rock Punho de Mahin; e o com o produtor e editor Rodrigo Corrêa, idealizador do podcast Balanço e Fúria e da editora Sobinfluência.
Começo pela história da artista visual Daisy Serena, que foi adotada por uma família mergulhada em sonoridade e também em cuidado paterno. Referências de rock melódico como Creedence, Dire Straits, Paul Simon e Elton John formaram a trilha do seu crescimento.
Era um rock comportado, ligado à vida de um operário da Embraer e às greves da fábrica. Ainda assim, a ausência de uma politização sindical mais profunda permitiu que ele fosse facilmente capturado por um imaginário conservador do interior paulista.
“Mas havia uma inquietação constante. Eu não entendia por que aquele conservadorismo me apertava tanto. Ser uma jovem negra, adotada por pais brancos, numa classe média baixa de bairro operário, me dava essa sensação dupla de pertencimento e não-lugar”, relata.
Nascida na década de 90 viveu o movimento do skate, o Hangar 110, o new metal, o vinho barato na praça, os agrupamentos punk na Casa da Juventude ao lado do cemitério de São José dos Campos, no interior de São Paulo. Foi ali que viu, pela primeira vez, uma mulher negra tocando rock: a baterista da banda Cólica.
Daisy não entendia a política por dentro do punk. Faltava base, leitura, conversa. A união se dava pelo som, pelo bate-cabeça, pela contravenção aos pais ‘certinhos demais’. “Gritávamos palavras de ordem sem saber nomear teorias. As minas sem saber de feminismo, se fortaleceram no coro: ‘Punk rock não é só pro seu namorado’.”, conta, fazendo referência ao trecho da música “Punk Rock”, da banda punk e feminista Bulimia.
“Mais tarde, entendi que eu ‘não sou uma punk negra; sou uma mulher negra que gosta de punk’”, reflete a artista.
©@arquivo pessoal
A história de Daisy também dialoga com a minha. Minha aproximação entre música e artes visuais percorreu caminhos semelhantes. Através da fotografia, com os primeiros registros de corpos; as meias arrastão no Fotolog, declarando imageticamente sua ideologia. Depois, seu olhar se voltou para quem não estava na capa: grupos de teatro da periferia, dançarinas e dançarinos pretos, o início da Aparelha Luzia. Hoje, Daysi acompanha grupos que admira e com quem construiu amizade, como Rádio Diáspora e Punho de Mahin.
Música: linguagem e método
Já para Rodrigo Corrêa, a música é um ponto de partida epistemológico. O que ele vê, discute e milita passa por um filtro sonoro. Ele sempre se viu como uma pessoa do som e, através dele, tudo se conectou.
Por isso, a editora Sobinfluência e o podcast Balanço e Fúria são extensões desse lugar onde texto e melodia se misturam, mas o audível segue como referência central.
Rodrigo conta que, quando a música chega até ele, chega cheia de camadas: política, literária, artística e também banal — porque era nos sons que ele encontrava as pessoas do cotidiano, gente que ele conhecia e que fazia canções falando da própria vida.
“Quando comecei a me conectar com esse universo, eu me via num lugar de articulação aparentemente comum, mas potente. Depois entendi que havia gente no mundo todo fazendo algo parecido; isso me fez sentir parte de algo maior, parte do mundo, mesmo com todas as dificuldades”, conta Rodrigo.
Punho de Mahin
©Reprodução/Internet
Em uma dinâmica um pouco diferente, a banda de punk preto Punho de Mahin, que tocou no The Town, em 2025, vive a música também como parte de um trabalho que gera renda de modo mais direto.
A banda começou em 2018, no ABC paulista, com a união de Camila e Natália, que, ao convidarem os outros integrantes, perceberam imediatamente que eram pessoas negras em uma banda mista. E isso importava.
Além de fazer punk rock, a banda compreende que é necessário falar sobre o que vivem e acreditam. Suas composições e shows levam Luíza Mahin como figura revolucionária para guiar o nome da banda. Além da música, o grupo busca trocar com o público sobre educação, resgatar figuras negras fundamentais da história do Brasil e discutir essas contribuições para a formação do País.
Luíza Mahin, mulher negra alforriada do século XIX na Bahia, é reconhecida por seu envolvimento nas lutas de resistência negra no Brasil.
Aquilombamento e formação
Além de formatos como a banda Punho de Mahin, trabalhos fotográficos como os da artista visual Daisy e do produtor Rodrigo trazem novas percepções de mundo.
Alguns encontros geracionais e geográficos, especialmente entre pessoas negras e indígenas, parecem hoje mais acessíveis graças à internet e aos aplicativos. Chegam aos nossos ouvidos rappers como Katumirim e Brisa Flow, ou bandas como Black Pantera e MC Taya, que mistura funk e rock.
Sobre essa mistura de musicalidade e instrumentos, Daisy acredita que hoje é mais perceptível e mais livre incorporar elementos como atabaque, berimbau e samples diversos, especialmente no Brasil. Mas isso também tem relação com o tempo em que vivemos.
©Uly Nogueira
Se pensarmos que Bad Brains transitou do punk para o reggae sem pedir permissão, percebemos que, para muitas populações negras, o som preto é múltiplo por natureza. A gente navega entre ritmos sem culpa, e com propriedade.
Natalia, da banda Punho de Mahin acrescenta que, mesmo sendo uma banda punk, já trazia elementos como o atabaque e o berimbau. Antes disso, o baterista Paulo já batucava na bateria de um jeito próprio, e eles ouviam comentários sobre isso.
A banda reforça que, em qualquer ambiente, assumir-se como pessoa negra já pode incomodar alguém. Incorporar elementos afro é natural para eles, não é um desafio interno, porque qualquer movimento da banda já é, por si só, um desafio aceito.
O retorno que recebem, de seguranças das casas de show a funcionários, é imenso. A ideia não é reviver dores, mas ampliar o diálogo e a voz para quem se identifica.
Pertencer também é resistência
Eu, como autora desta coluna, quando penso nas discussões e trocas sobre raça e classe nos espaços da música, vejo mudanças a partir da minha vivência enquanto público, e isso é muito especial. Às vezes penso em como teria sido minha experiência adolescente nesses espaços hoje.
Rodrigo conta que, especialmente a partir de sua vivência interiorana, as diferenças existiam, embora nem sempre em conflitos abertos. Os subgêneros mostravam separações, entre quem ouvia bandas nacionais e quem preferia Nova York, por exemplo.
A presença de pessoas negras era pequena. E, quando você é jovem e repudia o racismo, nem sempre percebe que também pode estar reproduzindo certas coisas.
Com o debate mais aberto, especialmente depois de 2013, Rodrigo diz que isso mudou. Pessoas negras passaram a ocupar esses espaços com mais firmeza, e o público negro, periférico e feminino teve papel fundamental nesse processo.
Já a Punho de Mahin, por muito tempo, via uma dinâmica de exclusão. “Parecia que, às vezes, precisávamos nos encaixar num molde branco.” Hoje, porém, existe um movimento de aquilombamento, de se reconhecer e se aproximar. Cobrar responsabilidade também é necessário: machismo, racismo e outros preconceitos precisam ser enfrentados, mesmo entre aqueles que dizem querer mudar o mundo.
Essa parte do diálogo com todos os entrevistados me fez pensar em como vivemos em um mundo atravessado por processos que nos ensinam a buscar rótulos e padrões, o que faz com que até mesmo espaços de luta estejam ocupados por pessoas em constante transformação.
Essas conversas mostram que nem mesmo os espaços de contestação estão livres de reproduzir desigualdades. A diferença está na disposição para revê-las coletivamente.
Por isso, falamos também sobre o que essa cena, rock, punk e hardcore, nos fortaleceu. Quais frutos e contribuições levamos para a vida, família, cotidiano e trabalho?
Para Daysi, mudar de São José dos Campos para a capital paulista, mesmo tão perto, foi um processo duro e solitário. Foi só depois de três anos em SP que ela se reconheceu como pessoa negra, e apenas depois de cinco se sentiu pertencente a um grupo que se expandiu muito por meio do teatro anticapitalista e da aproximação com pessoas negras.
Daysi acrescenta: “Meu projeto pessoal ainda estava guardado. Em 2022, resgatei um texto sobre as Sista Grrrl Riot. Quando escrevi, em 2016, eu era a única falando disso em português, então deixei o texto escondido”.
A fotógrafa e escritora relembra quando retomou o texto de Tânia Selles, da página Sopa Alternativa e sua percepção sobre que algo estava crescendo ainda que tardiamente. “Falei sobre isso no podcast Balanço e Fúria — que admiro profundamente — e, naquele mesmo ano, fotografei a Rádio Diáspora pela primeira vez. Ali mudou tudo: percebi outra forma de dizer minhas poesias ao mundo.”
Para Rodrigo, tudo é atravessado pela classe — até adultos e crianças. Ele olha para quem era no interior, muito jovem, e vê que aquele lugar de autoestima e aceitação o ensinou a fazer parte de um circuito em que a troca era comunitária: visitar a casa dos outros, receber pessoas… O faça-você-mesmo na prática.
Por um tempo houve a preocupação de parecer com o Norte global ou com a Europa. Hoje, especialmente depois da pandemia, isso mudou. As bandas e o público olham para o mundo de outro jeito. As lutas — de gênero, de moradia, antirracistas — aparecem de modo muito mais aberto. A forma comunitária ensinou que, mesmo sem dinheiro, era possível desenvolver ideias. Isso mantém Rodrigo ativo na atualidade, assim como a editora Sobinfluência e o podcast Balanço e Fúria, que são frutos desse percurso.
Em algumas famílias ainda há dúvidas sobre viver de arte — e isso também aconteceu com membros da Punho de Mahin. Para seus pais, em certos momentos, isso era impensável: a expectativa era que fosse, no máximo, um hobby.
Quando eram jovens, os membros queriam estar nos shows. O sentido político veio com a maturidade. Hoje acreditam que as novas gerações passam por algo parecido — e isso também os motiva: “Hoje entendemos a importância do nosso trabalho e vemos a aproximação intergeracional acontecendo. Algumas pessoas olham para nós e se veem.
Aline Bispo Aline Bispo é artista visual, ilustradora, curadora e colecionadora de arte. Em suas produções investiga temáticas que cruzam a miscigenação brasileira, gênero, sincretismos religiosos e étnicos, partindo do seu lugar no mundo.
Os artigos publicados pelas colunistas são de responsabilidade exclusiva das autoras e não representam necessariamente as ideias ou opiniões do Nós, mulheres da periferia.
Larissa Larc é jornalista e autora dos livros "Tálamo" e "Vem Cá: Vamos Conversar Sobre a Saúde Sexual de Lésbicas e Bissexuais". Colaborou com reportagens para Yahoo, Nova Escola, Agência Mural de Jornalismo das Periferias e Ponte Jornalismo.
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