Nós, mulheres da periferia

‘Sabotando o sistema’: como Tamires Sabotage dá continuidade ao legado do pai

O nome Sabotage abre muitas portas

Andando pelas vielas da favela do Boqueirão, na zona sul de São Paulo (SP), Tamires Rocha demonstra intimidade com o lugar e com as pessoas. Não deixa de cumprimentar pelo nome nenhum dos moradores que estão em frente às suas casas.

Uma criança começa a acompanhar a reportagem, achando que se tratava da gravação de um clipe. Um senhor comenta com ela sobre o descaso do governo com a favela. Em alguns postes estão cartazes com foto das duas cadelas de Tamires, desaparecidas há algumas semanas.

Paramos na casa de sua infância, no meio de um dos becos. Pelas frestas da janela com grades ela me mostra onde ficava a cama dos pais, a dela e o espelho. Hoje, com dois andares, o lugar conta com um graffite na fachada.

A arte homenageia o falecido Sabotage, rapper e pai de Tamires, de 27 anos, que é cantora, líder comunitária e empresária. Também na Câmara Municipal de São Paulo, na função de assessoria parlamentar, em que verifica demandas locais com moradores, como iluminação, melhorias de ruas e revitalizações de praças.

Tamires recebeu o Nós, mulheres da periferia em sua casa e contou sobre seus projetos, memórias de infância, vivências na comunidade e como busca honrar o legado do Maestro do Canão.

Vontade de cantar veio ao participar das criações do pai

Mauro Mateus dos Santos, mais conhecido como Sabotage, foi um rapper brasileiro. Dono de um único disco solo intitulado “Rap é compromisso”, o cantor encontrou nesse gênero musical uma saída do tráfico. Participou dos filmes “O Invasor" e "Carandiru", além de ganhar o Prêmio Hutúz em categorias como Revelação e Personalidade do Ano. Mesmo com uma curta carreira, se tornou um dos maiores nomes do rap nacional ao cantar sobre o cotidiano periférico.

O gosto pela música veio de casa. Sempre que chegava da escola, via Sabotage cantando, compondo ou performando. Em todas as novas letras, ele pedia sua opinião, de seu irmão, Anderson, e de sua mãe, Maria Dalva. “A gente fez parte da criação da música, da criação da performance, acho que isso gerou a vontade de ser aquilo [cantora]”, diz.

Brinca que quando ele estava compondo Um Bom Lugar, ela já não aguentava mais ouvir a batida da música. Todos os dias seu pai trabalhava para melhorar a letra.

Tamires também lembra de alguns shows em que Sabota chamava ela e o irmão para cantar no palco. Só sabiam o refrão de Rap é compromisso. “Eu ia sem vergonha, meu irmão, já era bem mais tímido”.

Além dos ensinamentos, Tamires também convive com a pressão de ser filha do rapper. Relata que muitas pessoas falam que ela tem que ser como ele. Por muito tempo não mostrou as letras que escrevia para ninguém, por achar que não tinham potencial. Isso mudou no ano passado, com a criação da Lusalz Produções, selo em que vem lançando suas músicas no gênero gospel, com o nome artístico Tamires Sabotage.

Entre as músicas da cantora estão: Poder e Tu És Real. Também tem lançamentos fora do ramo religioso, como O Chamado, Love Song e a participação em Paz para as Comunidades.

A escolha pela religiosidade veio cedo. Aos nove anos decidiu seguir o cristianismo, na religião evangélica. A vontade veio a partir de um convite da avó, que a levou para um culto. Sua mãe, da Umbanda, respeitou a decisão. “A gente andava o beco da favela, ela ia para o terreiro e eu ia para a igreja. Nós trocando mó ideia, conversando de boa, a favela parava”.

"O rap é compromisso, não é viagem / Se pá fica esquisito, aqui, Sabotage / Favela do Canão, ali da zona sul / Sim, Brooklin. "

Trecho de Rap é Compromisso, música de Sabotage

O jeito de compor

Em seu processo de composição, Tamires também tem inspiração no pai. “Ele escrevia sobre tudo. Sobre o que acontecia na casa de lado, o que ele ouvia no camarim. Costumava andar com uma caneta, mas nem sempre com um papel. Muitas vezes ele bolava o baseado dele e aí vinha algo. Ele desbolava o baseado, guardava, e escrevia. E às vezes, ‘eu quero fumar, o que eu vou fazer? Eu vou fumar minha letra’ ''. Sabotage esquecia os papéis com as letras que escrevia nos lugares onde passava.

Dentro de casa, o modo como compunha também era peculiar. Ligava as duas televisões, uma no desenho para os filhos assistirem, e outra no jornal. Também ligava dois rádios, um tocando músicas e outro no noticiário.

“As vezes eu chegava em casa, meu pai estava de cueca branca, o negão alto só de cueca, sentado na cama fumando um baseado, com o rosto cheio de pasta de dente por causa das espinhas, fumando e escrevendo”. Quando Tamires e Anderson chegavam da escola, a comida já estava quente, ele os servia e voltava a escrever. A ‘mistura’ costumava ser linguiça frita, e Tamires se recorda dessas cenas quando come o prato hoje em dia.

Havia também os momentos em que o cantor ensaiava as músicas em frente ao espelho, desde as expressões até a forma que iria segurar o microfone no show. Tamires ao lado, fazendo lição de casa ou brincando, sempre observava o pai e às vezes dava risada de suas performances.

Assim como ela olhava atenta para o pai compondo, sua filha Alice, de cinco anos, também a observa quando está escrevendo suas músicas. “A história se repete”.

Processo de luto

Toda infância de Tamires foi vivendo em favelas, boa parte na favela do Boqueirão. Lembra de acordar ouvindo tiros, de no caminho da escola começar um tiroteio e ter que ficar deitada no chão esperando passar.

“Como meu pai veio do crime, ele tinha muito medo da gente ficar na rua”. Por isso, passava boa parte do tempo em casa brincando com uma revista infantil, dois ursinhos de pelúcia e um boneco do Baby, personagem do seriado Família Dinossauros. “Minha infância foi crescendo dentro de um barraco ouvindo meu pai cantando e dançando”, completa.

Em agosto de 2021, Tamires lançou a música Lembranças em homenagem a Sabotage. Em uma das partes diz: “quantas vezes ouvia País da Fome trancada no quarto ouvindo você dizer meu nome”. Nessa canção, o cantor menciona o nome dos filhos. Após a morte do pai, que ocorreu quando ela tinha oito anos, ouvia essa música para escutar a voz dele chamando por ela. Depois, passou a entender que a música falava sobre perdas de amigos e familiares de Sabotage.

“Eu entrava dentro do guarda-roupa e ficava ouvindo, porque eu não queria que minha mãe visse”, conta. “Todas as datas comemorativas eu estava dentro do guarda-roupa ouvindo ‘País da Fome’, porque eu precisava ouvir ele”. 

O luto para Tamires foi um processo longo. No início se prendia a sensação de que seu pai estava fazendo shows e logo iria voltar para casa. “A minha ficha caiu mesmo, depois de oito anos que meu pai faleceu”. Sabotage foi assassinado no dia 24 de janeiro de 2003, com quatro tiros que atingiram o ouvido, a boca e a coluna cervical. 

"Brooklin, Brooklyn, agora sem o Deda / Só o Júlio e o Paulinho / Brooklin, Brooklyn, Larissa, o Anderson, / Tamires meus filhos / Brooklin, Brooklyn, Natasha, Willian, / Beatriz meu sobrinhos / Brooklin, Brooklyn, 2001 / O Rap é um portal, é meu caminho. "

Trecho de País da Fome, música de Sabotage

Um bom lugar se constrói com humildade

Há 13 anos Tamires lidera o Instituto Todos Somos Um, que atua promovendo doações, eventos, esportes e cursos para famílias da comunidade do Boqueirão. A iniciativa começou com a união de algumas mulheres para promover uma festa de Dia das Crianças. Hoje tem parceiros que apoiam o projeto com doações. “O nome Sabotage abre muitas portas, a maioria dos doadores chegam através disso”.

A líder comunitária vê na atuação social uma maneira de dar continuidade ao legado de Sabotage. “Quando ele andava pela favela, sempre falava ‘quando melhorar pra mim vai melhorar pra vocês’. Ele via a necessidade das família e viu que precisava ter um espaço de recreação para as crianças, que elas poderiam se refugiar para não ter acessibilidade mais fácil para o tráfico”. Um pouco antes de ser assassinado tinha conseguido um barraco na favela, para funcionar como um espaço de cultura. A primeira oficina foi de axé.

Mesmo aos cinco anos de idade, a filha de Tamires já entende a importância da atuação social. Um dia, colocou todos doces e bolachas que a mãe havia comprado para ela comer durante o mês em um carrinho de brinquedo. Falou para a avó que iria na casa da prima, e saiu distribuindo todos esses itens nas ruas da favela.

A casa da cantora é repleta de caixas de doações do Instituto Todos Somos Um. Mas isso deve mudar: ela conseguiu a concessão de um espaço para servir de sede para a iniciativa. Lá, pretende montar salas para cursos de capacitação, uma biblioteca e um museu em referência ao Sabotage.

Também trabalha em outro projeto em homenagem ao pai: a criação do beco Sabotage. Em uma das vielas da favela, as casas serão rebocadas para receber graffites relacionados ao rapper. A ideia é que se torne um ponto turístico.

Trabalhando na Câmara Municipal, como assessora parlamentar, Tamires conseguiu trazer algumas melhorias para a comunidade, como iluminação e asfalto. “A gente precisa de um apoio parlamentar para fazer as coisas acontecerem”. É a vivência na prática do que canta em sua música “Lembranças”, no trecho: “sabotando o sistema que nos destrói, trazendo o amor e esperança que nos constrói”.

Reportagem: Beatriz de Oliveira
Imagens: Naná Prudêncio

Reportagem publicada originalmente em Expresso na perifa


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