Numa sociedade gordofóbica e que lucra com o culto à magreza, a disseminação do uso desses dispositivos esbarra em questões de raça, renda e aceitação social
Reportagem: Beatriz de Oliveira
Edição: Bianca Pedrina
Atualizado em 03|07|2026
A felicidade é magra. É o que diz uma trend que mostra o “antes e depois” de pessoas que perderam alguns quilos. Numa sociedade que cada vez mais cultua a magreza, as canetas emagrecedoras surgem como uma solução rápida para quem quer alcançar o “corpo ideal”. Nas periferias, essa busca e o uso desse medicamento esbarram em questões de raça, renda e aceitação social.
“Estamos vivendo uma onda de busca de um ideal de corpo. Principalmente na perspectiva de que o corpo gordo acaba sendo estigmatizado, associado com adoecimento e com descuido, e as pessoas ficam buscando estratégias milagrosas para fugir desse corpo gordo”, afirma Liliane Bittencourt, nutricionista, doutora em Saúde Coletiva e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Maria Luisa Jimenez, pesquisadora referência no debate sobre gordofobia, aponta para uma crescente romantização da magreza. “Tenho percebido nas minhas pesquisas que, geralmente, quando a extrema direita avança, a romantização da magreza também avança. A romantização da magreza também é uma violência de gênero, disfarçada de cuidado, de saúde e da própria beleza”.
A romantização da magreza também é uma violência de gênero, disfarçada de cuidado, de saúde e da própria beleza
Maria Luisa Jimenez
Acrescenta que o corpo visto como belo na sociedade é aquele branco, loiro e com barriga chapada, além de ser relacionado ao corpo saudável. Nesse cenário, os métodos de emagrecimento rápido são vendidos como soluções ideais para alcançar uma vida melhor.
“Eu que vivi essas experiências de estar magra e engordar de novo, quando eu estava magra era sempre mais respeitada, mais desejada, conseguia bons empregos, conseguia que as pessoas me ouvissem. Então, o mercado percebeu essa urgência e as canetas emagrecedoras oferecem isso”, diz.
A indústria farmacêutica tem lucrado muito com essa urgência em emagrecer. Em 2025, segundo relatório publicado pelo Itaú BBA, o mercado das canetas emagrecedoras movimentou cerca de R$ 10 bilhões no Brasil, o que equivale a 4% do tamanho total do mercado de varejo farmacêutico.
Nas prateleiras das farmácias, o custo médio desses medicamentos varia conforme a marca e a dose indicada, mas comumente é preciso desembolsar acima dos R$ 1 mil para adquirir uma caixa com quatro aplicações, que servem para um mês. Ozempic, Mounjaro, Wegovy estão entre as marcas mais conhecidas. Mais recentemente passaram a ser oferecidas opções nacionais, com preços a partir de R$ 400. É o caso da Ozivy, Olire e Lirux.
Diante dos altos custos do medicamento e um orçamento doméstico limitado, a procura por opções paralelas tem crescido nas periferias. Em 2025, a Receita Federal apreendeu 30 mil unidades das canetas, carga avaliada em mais de R$ 30 milhões. Os produtos contrabandeados vêm principalmente do Paraguai.
“Esses medicamentos precisam de temperatura controlada, não tem como eles atravessarem quilômetros dentro de um pneu de carro e chegarem bem no destino final”, alerta Fernanda Scagliusi, professora das faculdades de Saúde Pública e de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
Outra maneira de obter os medicamentos sem receita médica e por um preço mais baixo é por meio das farmácias de manipulação. “Elas não têm o mesmo controle de vigilância que a indústria farmacêutica, então, não há muita garantia do que está ali dentro, do nível de pureza, e da possibilidade de contaminação”, explica a professora.
Como não são analisados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), não é possível assegurar a efetividade desses medicamentos clandestinos, o que representa riscos a quem faz uso. Já circulam casos de internações e mortes devido ao uso indevido.
“Tenho recebido no meu consultório e no hospital, pacientes com efeitos colaterais não descritos em bula. Quando questiono sobre a origem do medicamento, quase sempre é clandestino: vindo do Paraguai ou versões administradas em consultórios médicos ou de outros profissionais de saúde”, relata Luana Casari, endocrinologista e pesquisadora clínica. Entre as reações observadas pela médica estão lesões cutâneas e insuficiência hepática.
Marina* (nome fictício para preservar a identidade da entrevistada), estudante de design de ambientes, está entre o público que não tem condições de arcar com o medicamento das farmácias e busca por caminhos alternativos. Ela relata que sempre teve dificuldade de perder peso e há quatro anos descobriu que é resistente à insulina, condição que pode causar ganho de peso e antecede a pré-diabetes e o diabetes tipo 2.
Ao ser acompanhada por uma endocrinologista no posto de saúde, entendeu que as canetas emagrecedoras seriam uma boa alternativa para o seu caso, por ter sobrepeso e ser pré-diabética. Como o medicamento não é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a médica informou que poderia receitar o uso, mas Marina teria que ter condições financeiras para adquirir.
“Só que R$ 1 mil é absurdo, né?”, disse. Um tempo após essa consulta, começou a observar a disseminação da venda dos dispositivos. Até que um conhecido informou que estava vendendo e decidiu comprar uma caixa para um mês de uso, no valor de R$ 380.
Aplicando a injeção todas as quintas-feiras, Marina notou emagrecimento de sete quilos em um mês. “Eu tenho gostado bastante. Sei que uma hora eu vou ter que entrar pra academia, porque eu estou ficando flácida”, relata.
A estudante resolveu não contar sobre o uso para sua endocrinologista pelo receio do julgamento quanto à procedência do medicamento e também pelo fato de só vê-la duas vezes ao ano. “Então, tudo que eu aprendi foi vendo médicos no TikTok, pesquisando na internet, vendo quem já obteve bons resultados e aí eu vou adaptando pra mim”.
Marina tem visto com bons olhos a disseminação do uso das canetas emagrecedoras e espera que o medicamento seja disponibilizado amplamente pelo SUS. Para ela, esse dispositivo representa um avanço na saúde da população pobre, como um meio mais fácil de chegar ao objetivo do emagrecimento.
A endocrinologista Luana Casari explica que as canetas emagrecedoras agem de maneira semelhante a hormônios intestinais produzidos pelo organismo após a alimentação. “Essas medicações agem no hipotálamo, uma região do cérebro, aumentando a saciedade, ou seja, a pessoa come uma porção menor e se sente satisfeita mais rapidamente”, diz. As substâncias presentes são a semaglutida, liraglutida e tirzepatida.
De modo geral, esses medicamentos foram aprovados para o tratamento de diabetes tipo 2, pessoas com doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, obesidade e pessoas com sobrepeso associado a doenças causadas pelo excesso de peso. Os efeitos colaterais mais comuns são náuseas, vômitos, diarreia e obstipação.
Ela ressalta que o uso desses dispositivos deve ser acompanhado de atendimento médico regular e orientação para mudança do estilo de vida. “As canetas emagrecedoras podem trazer vários benefícios à saúde de pessoas com excesso de peso e com efeitos colaterais que são toleráveis e que melhoram ao longo do tempo. Então, muitas brasileiras podem se beneficiar desse tratamento. No entanto, o uso deve ser feito por pessoas com problemas de saúde e não por estética”.
Nota-se que o médico pode avaliar a situação do paciente e indicar o uso da caneta emagrecedora mesmo nos casos não previstos em bula. No entanto, o que tem sido visto, segundo a pesquisadora Fernanda Scagliusi, é a prescrição unicamente para fins estéticos. É comum mulheres procurarem endocrinologistas relatando o desejo de perder peso e saírem com a prescrição.
O recomendado é que a paciente comece usando doses baixas do medicamento e vá aumentando até chegar na dose ideal para o seu caso, sempre com acompanhamento médico, boa alimentação e prática de exercícios. Também é importante o uso contínuo, até se chegar ao peso recomendado e então à redução da dosagem, para desmame. Afinal, nota-se que parando de usar abruptamente, a pessoa tende a engordar novamente. No geral, é necessário usar pelo menos um ano.
Numa das pesquisas que conduziu, Fernanda conversou com uma mulher periférica que fez uso do medicamento. Ela contou que nas farmácias de sua região só eram oferecidas canetas com doses mais altas, visto que as pessoas procuravam começar o uso por elas, devido à impossibilidade de pagar por várias caixas do medicamento.
Entre os estudos conduzidos por Fernanda Scagliusi sobre as canetas emagrecedoras, está uma pesquisa internacional que reúne especialistas do Brasil, Estados Unidos, Dinamarca e Japão, e explora os impactos sociais, culturais, emocionais e comportamentais da popularização do medicamento.
No Brasil, foi visto que a procura por esses dispositivos está fortemente associada a padrões de beleza atravessados por questões de raça, gênero e classe. Além disso, os pesquisadores definem que a alta procura pelos medicamentos para uso estético está associada ao fenômeno da “economia moral da magreza”, em que perder peso é percebido como virtude.
“A ideia de economia moral da magreza é que existem valores atribuídos a ser magra e a ser gorda. Então, ser magra está associada com virtude, com disciplina e controle. E ser gorda está associada à preguiça, falta de força de vontade, falta de disciplina, falta de comprometimento e chega até a estereótipos morais, como sujeira, de que pessoas gordas são mais sujas e impuras”, explica Fernanda.
Ser magra está associada com virtude, com disciplina e controle. E ser gorda está associada à preguiça, falta de força de vontade, falta de disciplina, falta de comprometimento
Fernanda Scagliusi
O fator racial também é central nesse debate. Maria Luisa Jimenez explica que a gordofobia está intrinsecamente ligada ao racismo, o que tem raízes na colonização e na escravidão, segundo tese defendida pela socióloga norte-americana Sabrina Strings.
“As pessoas que mais sofrem gordofobia no mundo são mulheres negras periféricas. Isso é muito importante, porque quando vemos essas campanhas do emagrecimento, do combate à obesidade, por exemplo, na verdade existe um combate a um corpo, a um gênero e uma raça”, diz.
A busca pelo corpo ideal se reflete nos dados. Apesar do Brasil ser o segundo país que mais realiza cirurgias bariátricas no mundo, menos de 1% da população brasileira com indicação para o procedimento consegue ter acesso à cirurgia no país. Para fazer o procedimento pelo SUS, há uma fila de espera de anos.
Durante a produção de um artigo sobre gordofobia e canetas emagrecedoras, Maria Luiza obteve variados relatos de mulheres, principalmente periféricas, se endividando para fazer o uso do medicamento. Inserida neste contexto, Valéria* (nome fictício para preservar a identidade da entrevistada), analista de departamento pessoal, ainda está arcando com o parcelamento de compras dos dispositivos.
Ela fez um exame e descobriu que estava com gordura no fígado. Ao passar no endocrinologista, foi indicada a usar o Mounjaro. No primeiro mês de uso, perdeu quatro quilos. Seguiu usando o medicamento pelos próximos dois meses e fazendo o pagamento parcelado em seis vezes.
Quando voltou ao médico, dado os resultados satisfatórios, ele sugeriu que ela continuasse usando o medicamento. No entanto, Valéria não conseguiria arcar com os gastos de mais uma caixa. “Aí ele me ‘autorizou’ a usar as canetas que vêm do Paraguai, mas sabendo a procedência e continuando o acompanhamento com ele”.
Valéria comprou a caneta indicada e seguiu usando normalmente, sem sentir efeitos colaterais. Em quatro meses de uso, emagreceu 16 quilos. Aliado à medicação, faz dieta, pilates e musculação.
“Eu pesava 116 quilos, é muito, mesmo eu tendo um 1,70 m. E ainda tinha comorbidades, estava com a pressão alta, colesterol descontrolado. Então, a caneta pra mim foi um custo- benefício maravilhoso. Mas, eu vejo no meu trabalho mesmo as meninas que querem perder dois, três quilos usando assim, sem medida e sem acompanhamento médico”, relata.
Ainda não é possível precisar os efeitos do uso a longo prazo das canetas emagrecedoras – tanto para quem faz uso estético quanto para quem fez uso por saúde. Fernanda Scagliusi exemplifica que a semaglutida, princípio ativo do Ozempic, é conhecido há pouco mais de dez anos.
Mesmo assim, há uma forte aposta no uso contínuo dos dispositivos. “A indústria farmacêutica passa a seguinte mensagem: ‘Olha, você que tem obesidade, a obesidade é uma doença crônica. Toda doença crônica precisa de tratamento a vida inteira, então você vai tomar esse remédio a vida inteira’. E isso é muito bom pro bolso deles”, pontua a pesquisadora.
O que tem sido visto até o momento em relação ao uso contínuo, é que existem alguns benefícios metabólicos, como a redução do risco de doença cardiovascular. “Como essas substâncias mexem com o nosso centro de recompensas no cérebro, elas parecem ajudar, inclusive, a parar de fumar, a parar de consumir bebida alcoólica”.
No entanto, pelo mesmo fato de lidar com o centro de recompensas do cérebro, o uso do medicamento tende a “transformar as pessoas em seres que desejam pouco”, perdendo o ânimo em realizar atividades cotidianas que antes traziam satisfação.
O poder público tem agido no sentido de ampliar o acesso a esse medicamento. No dia 26 de junho, o Ministério da Saúde deu início a um projeto piloto de tratamento com canetas emagrecedoras para 250 pacientes com obesidade grave, em um hospital de Porto Alegre.
Fernanda tem visto esse movimento como adequado. “O preço não pode ser o determinante do acesso a um medicamento”. No entanto, traz preocupação com a falta de protocolos bem definidos acerca de como deve ser feito o acompanhamento de quem usa o medicamento.
“[É preciso ter] um protocolo interprofissional, em que a pessoa tenha apoio, não só do médico, mas também de um nutricionista, psicólogo, educador físico, mas é preciso fazer isso dentro da velocidade que as pessoas precisam”, diz.
De acordo com dados do Atlas Mundial da Obesidade 2025, 31% dos brasileiros têm obesidade, ao passo que 37% têm sobrepeso. Além disso, a pesquisa aponta que cerca da metade da população adulta, entre 40% e 50%, não pratica atividade física na frequência e intensidade recomendadas.
Quando o assunto é pressão social pela magreza, a mídia e as redes sociais exercem papel central. Essa influência ocorre desde a prevalência de corpos definidos e magros vinculados ao sucesso até a propagação de dietas e medicamentos milagrosos para o emagrecimento. “Logicamente isso influencia na construção identitária das pessoas, principalmente das meninas mais jovens”, destaca Liliane Bittencourt.
No artigo “Corpas Gordas: Beleza e saúde, a patologização é violência. O que estamos entendendo por saúde?”, Maria Luisa Jimenez escreve “a mídia e a cultura popular reproduzem estereótipos que associam mulheres negras gordas a papéis secundários, cômicos ou de cuidado, negando-lhes a possibilidade de serem vistas como protagonistas, intelectuais ou sujeitos de desejo”. E reforça: “essa invisibilidade afetiva e social reforça a ideia de que seus corpos não são dignos de valorização, ao mesmo tempo em que naturaliza violências cotidianas”.
Ir na contramão de toda essa romantização da magreza não é um processo simples. “É muito complicado viver numa sociedade em que o tempo todo diz que a forma como você é está incorreta, não é bela. Para fazer o enfrentamento dessa pressão social, tem que ter uma autoestima muito boa. Ou então, vai buscar mecanismos para tentar se ajustar, para tentar se adequar”, diz Liliane.
Segundo a nutricionista, as pessoas tendem a buscar caminhos tortuosos para chegar a esse ideal de corpo e de felicidade. Mas, no fim das contas, acumula-se também insatisfação e tristeza. “O melhor caminho é o da aceitação de quem se é, de se olhar no espelho e enxergar a beleza que existe em si, entendendo que nós somos diversas”.
O melhor caminho é o da aceitação de quem se é, de se olhar no espelho e enxergar a beleza que existe em si, entendendo que nós somos diversas
Liliane Bittencourt
Fernanda Scagliusi destaca que esse debate não pode ser reduzido em “culpar” quem faz uso das canetas emagrecedoras por questões estéticas. É preciso, na verdade, olhar para os problemas estruturais que normalizam a gordofobia, dificultam o acesso a uma rotina saudável e promovem a medicalização da vida.
“Se culpabiliza a pessoa por não ter uma alimentação saudável, por não fazer atividade física, quando não é dada condição para ela fazer isso. Culpabiliza-se a pessoa porque ela compra o remédio do Paraguai, sendo que há gordofobia e a pressão pela magreza”, afirma.