Frame do filme Cheiro de Diesel

Documentário Cheiro de Diesel expõe militarização das favelas do Rio de Janeiro

Em entrevista ao Nós, a diretora Gizele Martins conta sobre a produção do filme, que destaca o papel da comunicação comunitária nas denúncias de violações de direitos

Por Beatriz de Oliveira

02|04|2026

Alterado em 02|04|2026

Nesta quinta-feira (2), estreou nos cinemas o documentário Cheiro de Diesel, que retrata os impactos e os traumas coletivos provocados pela militarização das favelas do Rio de Janeiro. A obra é contextualizada a partir da Copa do Mundo de 2014, quando o Complexo da Maré – e posteriormente outras comunidades – foram ocupadas pelas Forças Armadas, por meio das Garantias de Lei e Ordem (GLOs). 

Por meio das GLOs, as Forças Armadas ocuparam o Complexo da Maré entre abril de 2014 e junho de 2015. As favelas, onde viviam cerca de 130 mil pessoas, receberam mais de 23 mil militares durante todo o período das intervenções.

Em teoria, as operações de GLO concedem provisoriamente aos militares a possibilidade de atuar com poder de polícia em um território, com o objetivo de preservar a ordem pública, a integridade da população e o restabelecimento da normalidade. Mas, na prática, os moradores de favelas cariocas passaram a conviver com tanques de guerra, revistas cotidianas e violência letal.

Dirigida por Gizele Martins e Natasha Neri e distribuída pela Descoloniza Filmes, a produção relata a luta por justiça e reparação de vítimas e o papel da comunicação comunitária, a partir de depoimentos de moradores.

“Vivemos uma militarização nas favelas do Rio de Janeiro, realidade diferente do que o asfalto vive, que é uma segurança pública. Eles não são assassinados, não tem suas casas invadidas, ao contrário do que acontece com nós, que vivemos nas favelas”, afirma Gizele Martins, jornalista, comunicadora comunitária e autora do livro “Militarização e censura – A luta por liberdade de expressão na Favela da Maré”.

Assista ao trailer do documentário Cheiro de Diesel:

O papel da comunicação comunitária 

Além de diretora do documentário, Gizele também se coloca como personagem e narradora da história, ao contar os impactos das GLOs. Ao longo do filme, a narração, o tom de voz e as pausas que a jornalista faz ajudam a imprimir o sentimento de absurdo que foi aquela sequência de acontecimentos e violações de direitos.

Essa escolha pela narração em primeira pessoa surgiu durante a pesquisa para o filme Cheiro de Diesel, entendendo o seu papel como comunicadora que, nos últimos 12 anos, tem percorrido diferentes favelas para colher relatos e denúncias acerca das intervenções do Exército Brasileiro.

Frame do filme Cheiro de Diesel

©divulgação/Cheiro de Diesel

Também durante a pesquisa, foi decidido dar um enfoque ao papel da comunicação comunitária nos momentos de militarização das favelas. Em 2014, foi criada a página Maré Vive, um canal de denúncias e compartilhamento de informações acerca da ocupação militar.

“A comunicação comunitária faz a gente descobrir a nossa própria história, ao contrário do que a mídia comercial faz. E, nesse período em que o Exército esteve na Maré, a página Maré Vive foi de extrema importância porque era o único canal em que os moradores reportavam as violações que estavam sofrendo”, explica a diretora.

Gizele, uma das criadoras da página, sofreu ameaças e censuras na época da militarização. Chegou a ter, por exemplo, suas contas em redes sociais, e-mail e banco invadidas. Conforme mostra o documentário, ser comunicador comunitário significava ser alvo dos militares.

Pra mim, a comunicação comunitária é uma defesa da própria vida. Por isso, eu não desisti de ser jornalista de favelas

Gizele Martins

Mesmo assim, ela segue alimentando o sonho de ser jornalista de favelas. “Eu não queria ser só mais uma jornalista reproduzindo o que falam sobre a favela. Eu queria ser a jornalista que falasse sobre a favela a partir do que eu sou, do que eu aprendi a ser a partir da comunicação comunitária. Sou uma moradora de favela com muito orgulho e, pra mim, a comunicação comunitária é uma defesa da própria vida. Por isso, eu não desisti de ser jornalista de favelas”. 

Democracia para quem? 

De maneira contundente e a partir dos relatos de quem sofreu na pele os impactos das GLOs e das violações de direitos que seguem até hoje, Cheiro de Diesel evidencia que a democracia ainda não chegou para boa parte da população brasileira e que as favelas vivem contínuas ditaduras.

Frame do filme Cheiro de Diesel

©divulgação/Cheiro de Diesel

“Quando falamos que há uma ditadura continuada na favela é porque com as polícias ou com o Exército, continuamos tendo desaparecimentos forçados, casas invadidas, mulheres assassinadas e estupradas, crianças e jovens negros em chacinas. Continuamos vivendo sob ataques de helicópteros, tanques de guerra, caveirões e munições”, afirma.

E acrescenta: “quando olhamos para os orçamentos públicos, os maiores gastos são para compras de equipamentos bélicos, não para a garantia da vida”. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram gastos R$ 529 milhões para a manutenção das Forças Armadas no Complexo da Maré, entre 2014 e 2015.

A militarização das favelas do Rio de Janeiro ao longo dos anos não resultou em maior segurança aos moradores, como se anuncia à cada ocupação. Pelo contrário, em 2025, 797 pessoas morreram em decorrência de intervenção policial em todo o estado do Rio de Janeiro. Ao todo, seis policiais civis e 13 policiais militares também foram mortos, de acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP)

Nesse sentido, Cheiro de Diesel é um clamor para que não normalizemos as violências contra corpos negros e favelados, e um chamado para a construção de uma democracia que contemple a todos.