Foto mostra pai jogando criança para cima com a mãe ao lado

Ausências e presenças: a importância do afeto e do cuidado paterno

Uma paternidade ativa e de qualidade é possível, mas, para isso, é essencial refletirmos a divisão das tarefas do cuidado hoje, a importância do envolvimento paterno em todos os processos relativos à infância e as consequências da ausência afetiva na vida dos filhos

Por Amanda Stabile

15|08|2022

Alterado em 13|01|2023

Há muitos ditados que permeiam a maternidade. Quem nunca ouviu dizer que “quando nasce um bebê, nasce uma mãe” ou que “é preciso uma aldeia para criar uma criança”? Mas é importante questionar o papel e as responsabilidades dos pais nesses ditados e na sociedade.

As nossas aldeias não devem ser compostas apenas por mulheres. O afeto e o cuidado dos pais também é algo fundamental para mães e bebês desde o começo da vida. Uma paternidade ativa e de qualidade é possível, mas, para isso, é essencial refletirmos a divisão das tarefas do cuidado hoje, a importância do envolvimento paterno em todos os processos relativos à infância e as consequências da ausência afetiva na vida dos filhos.

Paternidade e a economia do cuidado

Por muito tempo, à paternidade era atribuída apenas a função da provisão do alimento e da segurança. Esse conceito passou por transformações ao longo da história, especialmente conforme foi se entendendo a importância do envolvimento afetivo com os filhos. 

“Hoje, a gente já compreende que o afeto, a vinculação, a relação e, por consequência, o desenvolvimento da identidade de uma criança, são tão importantes quanto a segurança e o alimento”, explica a psicóloga Aline Magnus, especialista em Psicologia Jurídica e autora do trabalho “Eu te esperei: o abandono afetivo paterno na percepção de filhos adultos sob o olhar da psicologia jurídica”.

Além disso, a provisão é uma parte fundamental para o desenvolvimento, mas todos nós precisamos de diversos outros tipos de cuidados para existir, especialmente as crianças. Elas dependem de auxílio para se alimentar, tomar banho, cuidar de sua saúde, brincar, lidar com a higiene da casa, dentre tantas outras coisas. Chamamos a gestão dessas tarefas que são, muitas vezes, invisíveis porque não são remuneradas, de economia do cuidado.

Em sua maioria, as mulheres desempenham essas funções. De acordo com o levantamento “Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, as mulheres dedicavam quase o dobro de horas por semana aos afazeres domésticos e cuidado de pessoas do que os homens. Enquanto eles dedicavam, em média, 11 horas semanais, elas dedicavam 21,4 horas.

O que é paternidade ativa?

É, também, essencial prezar pela qualidade da presença paterna. Como aponta Aline, “infelizmente, por vezes, dependendo do tipo de paternidade que nós estamos falando, na prática pode ser menos prejudicial a ausência do que a presença desses pais”. Assim, uma paternidade realmente participativa, requer o envolvimento em todos os processos que abrangem o entorno da criança e que impactam no seu desenvolvimento biopsicossocial – que engloba as dimensões biológica, psicológica e social do indivíduo.

Esse envolvimento é conhecido como paternidade ativa, um conceito permeado por debates, tendo em vista que não nos referimos a atuação das mães como “maternidade ativa”. Isso porque o cuidado das crianças e da casa ainda é considerado uma responsabilidade natural das mulheres. 

Dentre os benefícios da participação dos pais em todas as esferas que envolvem a infância, estão os impactos positivos na saúde materno-infantil, no desenvolvimento das crianças, na maior autoestima e no melhor desempenho escolar dos pequenos, além de aumento da probabilidade dos filhos se tornarem pais engajados. 

Mas, além da sensibilização dos homens para suas responsabilidades, também é preciso que as sociedades entendam a essencialidade dos cuidados e da presença paterna para o presente e o futuro das crianças. E isso deve ser traduzido em políticas públicas que possibilitem essas ações. 

O mercado de trabalho brasileiro, por exemplo, só concede de cinco a 20 dias de licença paternidade, enquanto os pequenos precisam de cuidados intensivos e diários para além do primeiro mês, especialmente no começo da vida. A regra é mais flexível apenas para pais solos, que podem ter o benefício estendido por 180 dias.

Também é preciso apontar que, dos 38 milhões de brasileiros que vivem do trabalho informal, 64% são homens e mulheres negras. Isso significa que, além de sofrerem a precariedade e a insegurança financeira e alimentar, os pais negros nesse grupo nem sequer desfrutam do direito à licença paternidade mínima.

O que é abandono afetivo parental?

Uma pesquisa realizada com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com base no Censo Escolar de 2011, apontou que 5,5 milhões de crianças brasileiras não tinham o nome do pai na certidão de nascimento. Em mais de dez anos, os indicadores apontam para o crescimento desse número.

Em 2021, o número de crianças sem o nome do pai na identidade cresceu pelo 4º ano consecutivo. Segundo levantamento da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), quase 100 mil crianças nascidas naquele ano, não tiveram o nome do genitor registrado no documento.

Apesar de ser um dado assustador, esse indicador não contempla a totalidade do cenário de abandono paterno no país.

“Por mais que seja muito triste e que esse número venha crescendo de forma alarmante, qual é o número de filhos que se sentem abandonados pelos pais mesmo sabendo quem eles são, mesmo carregando os sobrenomes, mesmo tendo o nome do pai no documento?”, questiona a psicóloga.

Ela também aponta que as consequências do abandono afetivo paterno no desenvolvimento psicológico são diversas, subjetivas e não ficam restritas à infância, mas acompanham a pessoa ao longo da vida. 

“A literatura destaca também algumas consequências importantes, como: dificuldades no desenvolvimento psicológico e cognitivo desses filhos, dificuldade de vinculação nas relações interpessoais, sentimentos de baixa estima, de desvalorização, de abandono recorrente e uma dificuldade no controle emocional”, explicou.

Dentre os impactos sociais, podemos citar o número de mulheres que chefiam os lares brasileiros e os marcadores que permeiam esse contexto. Entre 2001 e 2015, o número de famílias chefiadas por mulheres mais que dobrou. Ainda, de acordo com a “Síntese de Indicadores Sociais”, divulgada pelo IBGE em 2019, 63% dos lares chefiados por mulheres negras estão abaixo da linha da pobreza, ou seja, vivem com cerca de R$ 420 por mês.

Os motivos para o abandono paterno são uma questão complexa, que perpassa razões individuais, subjetivas, familiares e sociais. Aline aponta que, em seu estudo, todos os participantes demonstraram não ter clareza da motivação e isso contribuiu para que eles se responsabilizassem pelo próprio abandono. 

“Eles se perguntam se foi culpa deles, se não foram bons o suficiente, se não merecem ser amados e por isso os pais não estão ali, se foi uma forma de punir por algo que eles fizeram”, conta.

Nesse cenário, é muito comum que outras pessoas acabem ocupando essas funções. Na psicologia, elas são chamadas de “figuras substitutivas” e é muito comum que sejam as avós maternas. 

“Essas figuras, apesar do conceito, não substituem de forma integral essa falta. Mas, nas falas das pessoas que eu escutei, deu para notar a importância dessas pessoas na vida de todas elas. O carinho com que elas falam o quanto foi relevante, o quanto fez diferença na vida deles e como poderia ter sido muito mais desafiador sem elas. Então eu fiquei com a sensação de que, com a presença dessas figuras, dessas pessoas, o vazio da ausência foi preenchido pelo menos um pouquinho”, conclui.

Relatos de ausências e presenças paternas nas periferias

Eduarda Ramos, 23, São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo (SP)

A minha relação com meu pai quando eu era criança, quando meus pais ainda eram casados, sempre foi atravessada por dinheiro. Na minha cabeça de criança, minha mãe era a pessoa que cuidava de mim, a pessoa que era minha protetora, que me ajudava, que me levava na escola, enquanto meu pai sempre foi o lado do dinheiro, porque ele ganhava mais do que a minha mãe.

Então, se eu quisesse fazer alguma coisa, como ir ao mercado comprar um chocolate, um doce, era ele que estava lá. Meu pai nunca deixou faltar nada, mas nesse campo da afetividade, ele sempre foi bem ausente. Quando eles se divorciaram eu tinha uns 11 ou 12 anos, e eu só fui entender agora adulta como que a falta paterna mexeu na minha maneira de me relacionar, como eu busco aprovação tanto masculina quanto feminina.

Para mim, a paternidade ideal é primeiramente presente. Uma paternidade que existe e que não fica só no campo metafórico dos pais de Instagram que, muitas vezes, parece que trocam várias experiências, mas acaba que o peso da parentalidade fica todo em cima da mãe. É muito difícil pensar em perspectivas para mudar isso já que toda a nossa sociedade foi estruturada pensando num sistema em que homens trabalham e mulheres ficam em casa cuidando dos filhos. 

E é muito complicado pensar em ter paternidades saudáveis, enquanto a gente está trabalhando oito horas por dia e ainda tem a dupla jornada de trabalho das mães, que cuidam mais dos filhos do que os pais.

Para a paternidade ser ideal, tem que mudar a estrutura de trabalho. A gente precisa trabalhar menos para poder cuidar melhor dos nossos filhos.

Raissa Silva, 19, Jardim Pantanal, zona leste de São Paulo (SP)

A minha relação com o meu pai sempre foi muito boa, desde quando eu era pequena. Ele sempre foi um pai presente e estava ali para tudo o que eu precisava. E, na minha família, graças a Deus, a gente nunca teve essa ausência de amor paterno. Ele sempre me aconselhou a estudar, então eu falei para ele que eu queria fazer um curso de auxiliar de veterinário. Eu comecei e precisava comprar alguns instrumentos durante o percurso do curso. Ele foi e comprou para mim, era uma coisa que eu achei que seria muito difícil de acontecer por conta da nossa situação financeira. Porque a gente já passou por algumas dificuldades. Mas ele sempre corria atrás e fazia por onde para manter a família toda estabilizada, tudo bonitinho.

Então, meu pai foi um pai assim, sem explicação. Era muito bom para mim e para todos os meus irmãos. E, há quatro anos atrás, ele faleceu. Eu sinto ainda muita falta pelo fato de eu ter sido muito mais próxima a ele. Tudo o que eu queria, eu falava com ele, tudo que eu precisava era com ele. Depois que ele faleceu eu fiquei muito mal, porque ele era um norte na minha vida. Era um alicerce muito grande.

Eu vejo que a presença de um pai na vida das crianças, das famílias, é muito importante porque você tem a presença de alguém ali além da mãe, alguém que também mostra uma força a mais para a família.

Por isso, eu acho que a presença do pai para a família é essencial. É alguém que você sabe que se precisar está ali para correr por você, para te dar um auxílio, para te dar um conselho.

O meu pai sempre foi muito presente em tudo. Eu sou grata a Deus por ter tido um pai como ele e que ele esteja em um bom lugar. Depois dessa minha perda eu fiquei muito abalada. Hoje eu aprendo a lidar com a saudade dele, de não ter ele aqui.

Aline Santos, 33, Interlagos, zona sul de São Paulo (SP)

Eu sou a caçula de quatro filhas. O meu pai é o meu melhor amigo. Ele foi um paizão, tanto para mim quanto para as minhas irmãs, na infância e agora na vida adulta. Eu tenho as melhores lembranças de passeios, assim, sem precisar gastar muita grana, sabe? Passeios bobos, de você e andar de trem, andar de ônibus ou até uma simples caminhada. Ele não é aquele pai carinhoso, que fala o tempo todo “eu te amo” e esse tipo de coisa. Mas ele demonstra no jeito dele de nos tratar. A gente sabe.

Ele sempre trabalhou muito. De segunda a sábado em horário comercial. Então, a gente tinha mais contato aos domingos e aos sábados quando ele chegava tarde. Eu, graças a Deus, tive o privilégio de morar na periferia e ter um pai que é participativo. Ele nunca ficou em bar, nunca foi esse tipo de homem de agredir minha mãe ou esse tipo de coisa que acontece muito. Algumas amigas minhas tiveram esse tipo de pai.

Eu lembro que a gente morava num Conjunto Habitacional, CDHU, eu não recordo a idade que eu tinha, mas, no final do ano, meu pai sempre vinha do trabalho com um gorrinho e todas as minhas amigas achavam que ele trabalhava para o Papai Noel, inclusive eu. E ele levava as cartas de todo mundo. Ele é esse tipo de pessoa.

A minha mãe morreu de câncer há 4 anos atrás, e ele estava sempre nas quimioterapias. Quando ela ficou internada, ele também estava do lado dela. Foram 35 ou 36 anos de casamento e ele ali, na parceria mesmo. Então, hoje ele é a pessoa que eu ligo para contar qualquer problema e para contar qualquer conquista minha. É com quem eu divido os meus melhores e os meus piores momentos e que está sempre ali para falar uma palavra de apoio.

Para mim, a paternidade ideal é o pai cuidar tanto do físico, quanto do emocional do seu filho, independente da idade que ele tenha.

Eu acho que é você ter um pai presente na sua vida, que é o seu porto seguro. Ter alguém ali que está te apoiando, que te cuidou quando criança e que você sabe realmente que te ama. Independente de ter uma boa condição financeira. A gente não tinha muita coisa, mas ele criou as melhores memórias na minha cabeça.

Para mim, o meu pai é tudo e mais um pouco, vou puxar muita sardinha dele, né. Se Deus quiser, ele vai ter muitos anos ainda para poder ensinar muito mais. Mas foi perfeito. Eu queria muito que as pessoas tivessem a oportunidade de ter um pai como eu tive.